segunda-feira, maio 13

AS FARSAS DAS ABOLIÇÕES
















Há 13 de maio de 1888, no Brasil, era assinada a "Lei Áurea". Ratificada pela dileta filha do segundo imperador brasileiro, a princesa Isabel, essa lei ficou conhecida como aquela que "libertou os negros da escravidão". Graças ao bom Deus e a historiadores como Eric Williams, essa farsa não precisa mais ser dita. Hoje sabe-se que a abolição da escravidão, tanto no Brasil quanto no mundo conhecido do século XIX, foi um golpe ideológico da política liberal britânica assumida pelos brasileiros nas filosofias eclética e positivista (WILLIAMS, Capitalismo e escravidão, 2012). 

O interesse expansionista do capitalismo industrial britânico, sustentado pela filosofia liberal iluminista e positivista europeia, chega ao Brasil disfarçada de ideologia humanista, no campo filosófico, e ideologia progressista, no campo político. Esta inovadora ideia influencia a pequena e inexpressiva burguesia brasileira que, frente às poderosas oligarquias rurais, apenas perturbavam a ordem estabelecida, como o nobre literato Castro Alves e o empresário Barão de Mauá. Ademais os interesses britânicos que aparentemente implicavam na luta pelos direitos humanos do negro e do pobre, que defendiam a liberdade do cidadão e propunham o progresso como vocação natural de todo pais civilizado, bem da verdade, tinham por sustentáculo os interesses obscuros e nefastos do mercado especulativo dos bancos ingleses que necessitavam expandir seus negócios e suas fábricas. Assim, na onda do "Abolicionismo" forjado pelos britânicos, assinou-se a liberdade dos negros e, ao mesmo tempo, sentenciou-os à morte e à marginalização.

Os estudos dos mexicanos Leopoldo Zea e Enrique Dussel mostram que a presença do pensamento liberal, sobretudo o abolicionista, que prometiam um nova ordem no quadro político e econômico da América Latina, foi um dos maiores fracassos de nossa história. A confiança no pensamento liberal britânico, disfarçada de humanismo, promoveu a miserificação de negros e pobres, transformando-os em proletários, mas reproduzindo todo o peso ideológico-antropológico que tinha o escravo. Ou seja, o proletário da fábrica não era melhor, antropologicamente falando, que um negro escravo, pelo contrário, um proletário era um "escravo-livre", segundo às concepções de liberdade que o liberalismo criou. De acordo com o liberalismo, livre era todo aquele que tinha capacidades de concorrer e enriquecer. E aqueles que ficaram na marginalidade, são miseráveis pelo fato de não terem sabido utilizar sua liberdade. Os negros, portanto, tiveram sua chance de conquistar sua liberdade, mas perderam quando "se deixaram marginalizar no mau uso de sua liberdade".

Esta falácia abolicionista além de ter conduzido muitos negros e pobres à margem de qualquer possibilidade de inclusão social (Cf. FERNANDES, F. A inclusão do negro), mostrou ainda o fracasso burguês brasileiro diante da assunção unilateral do modelo capitalista inglês.(Cf. o filme: Mauá. O imperador e o Rei.).

Ainda hoje sofremos com as consequências deste fracasso. Por um lado, o modelo ideológico do proletariado assumido pela burguesia inglesa ainda impera em nosso pais. Operário, mesmo com todos os avanços legais em benefício do trabalhador, é enxergado como aquele que "deve muito favor a seu patrão", como aquele que deveria estar agradecido por não estar na rua, como aquele que exige demais, como aquele que só dá prejuízo. Por outro, até hoje os negros reclamam a abolição. A farsa abolicionista inglesa, que levou à Lei Áurea, condenou pelo resto da vida a condição do negro como escravo, como aquele que saiu da senzala e que agora somos obrigados à conviver. Tanto é verdade esta minha fala que as "cotas das universidades federais", graças ao bom Deus, hoje é lei, é ainda causa espanto naqueles que, por nunca terem sofrido nenhum tipo de descriminação, "toleram" a presença desses seres inferiores, ignorantes e sem capacidade nas melhores universidades federais do país como a UnB.

A farsa do abolicionismo nos conduziu a uma situação de ignorância e marginalização, por um lado, e privilégios e benefícios por outros. Necessitamos de reconstruir o abolicionismo, não como aquele defendido por Castro Alves ou pelo Barão de Mauá, mas um abolicionismo construído por aqueles que ainda hoje sofrem com suas farsas... 

Mas isto é só uma reflexão.

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