quarta-feira, maio 8

COTIDIANO CAPITAL













Hoje de manhã, como todo bom brasileiro e todo bom cidadão de nossa "queridíssima democracia política", por ser início de mês, fui ao banco. E na normalidade do costume de quem sobrevive de salário (pois não sou dono de Banco e nem de Igreja), fui pagar contas - ora o que mais poderia fazer numa manhã de início de mês num banco, se não pagar contas...? 


Acho que ninguém vai ao banco fazer uma visitinha ao seu gerente, pelo menos não as pessoas normais, como eu, que sou taxado com um nome bonito inventado pela contemporaneidade para substituir o antigo "assalariado": o tal celetista (não sei qual dos dois é pior!). Em todos os casos, fui ao banco. 

Como também é da normalidade do costume, percebi que o que eu ganho não dá para pagar tudo aquilo que minha mulher deseja (que ela não leia isso). E percebi mais ainda: quanto mais eu me endivido com meu banco, mais meu gerente me trata melhor! Não há de ver que o (des-)graçado, vendo aquela merreca na minha conta, observando que eu implorava para baixar os juros, ainda tem a gentil cara-de-pau de me oferecer um título de capitalização!!! É uma (* ! $) sacanagem! Mas essa é a realidade de quem precisa sobreviver numa sociedade que não nos perguntou se concordávamos ou não com as regras que devemos jogar. Me lembro da velha canção de um grande filósofo brasileiro, Raul Seixas, chamada "Judas", que dizia: 


"... mas é que lá em cima, la na beira da piscina, olhando os simples mortais. Das alturas fazem escrituras e não me perguntam se é pouco ou de mais!".

A pergunta fundamental é: quem criou essa ideia de que quanto mais falido e endividado, mais dentro e mais integrante dessa sociedade você está? Onde foi parar aquela ideologia capitalista-positivista-pragmatista de que quanto maior o desenvolvimento industrial, mais livre, mais progresso e mais felicidade você teria? Onde enfiaram a ideologia de uma sociedade a qual dizia: se cada um cuidasse de si, todos cuidariam de todos? Onde foi parar a mão invisível que controla a balança comercial? É..., parece que fomos enganados (digo "parece" para não dar um tom pessimista daqueles que leem e já dizem:  - "ihhh já vêm o Victor de novo, sempre 'metendo o pau nos outros' e sendo pessimista com a realidade").

Tudo isto acontece, pois percebo que o capitalismo nos levou ao fim da história, recordando Fukuyama, mas na pior das hipóteses mesmo, quando hoje, 08 de maio, há exatos cento e quarenta anos (1873) morreu John Stuart Mill, filósofo e economista liberal inglês que defendeu e seguiu a filosofia utilitarista de Bentham. Conhecedor profundo das teorias de Adam Smith, revindicou maiores liberdades morais e políticas na sociedade britânica. O que esse senhor não fez foi pensar quais seriam as consequências liberais numa sociedade classista e pobre como é a sociedade capitalista. Não podemos acreditar ainda que uma sociedade capitalista é uma sociedade rica. Rica é uma sociedade onde riquezas são repartidas com menos injustiças possíveis e isso não é alusão à nenhum tipo de marxismo ou comunismo (nem estou querendo fundar um partido político). 

Como tudo na história, sempre falamos a partir do chão que pisamos, e o Sr. Mill não lutou pelas liberdades dos proletários, mas lutou pela liberdade financeira dos proletários. É justamente o que vemos hoje: temos uma sensação de que possuímos mais direitos e mais acesso aos benefícios do capital. Contudo é pura sensação, pois o que temos são mais condições de nos endividarmos e mais condições de sermos escravos ao sistema. Mill contribui significativamente para esse tipo de pensamento, de que não apenas o ricos devem ser especulados pelos bancos em suas transações financeiras, mas também os pobres devem ser sugados até o último ponto, dando-lhes a ilusão de estarem sendo "inseridos"no mercado.

É interessante falarmos de capital, indústria e mercado, pois (por ironia do destino), em 1886, ou seja, há exatos cento e vinte sete anos, a Coca-cola fazia sua primeira venda. "É pá-ka-bá!!!". Quer símbolo mais nefasto do capitalismo que a Coca-cola? Quanto mais eu a detesto, mais eu a tomo.  É o paradigma de alguns da esquerda: ruim com ela, pior sem ela. Este produto, que se internacionalizou, é hoje a prova concreta da falência do modelo de liberdade pregada pelos liberais ingleses como o Sr. Mill.  Hoje, pelo visto, o dia está recheado de amigos do capital. E para piorar, a empresa Google, em suas vinhetas, homenageia Saul Bass um designer e cineastra novayorkino que nasceu em 8 de maio de 1920. Pense só, a quem serve o designer? Aos compradores ou ao capital? Não era de se esperar outra coisa da Google, uma vez que essa empresa ganha rios de dinheiro nos fazendo acreditar que ela nos deixa informado de tudo. Mais uma vez, isso remete a dinheiro, a banco, a dívida, etc, etc, etc...

PS:
Só para contemplar aqueles que não gostam do meu "ar crítico-pessimista", hoje também se lembra da morte de Lavoisier, aquele químico da famosa frase: "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Ou seja, tudo se transforma... em dinheiro!!!

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