sábado, maio 18

FILOSOFIA E AMÉRICA LATINA: LUTA, REVOLUÇÃO E PENSAMENTO















Este semestre estou tendo uma oportunidade muito bacana. Quando recebi o feliz convite de substituir um colega para lecionar a disciplina História da Filosofia da América Latina, disciplina esta que nunca lecionei e apenas tinha uma breve memória da minha graduação, eu não sabia o que respondia. Isso porque eu sabia do peso e da responsabilidade de lecionar algo que está muito próximo de nós, de autores e pensadores que estão aí ao nosso alcance e qualquer vacilo meu poderia ser fatal.

Outro agravante desse desafio que ofereceram-me é o fato de que, intrinsecamente, nas academias de filosofia, sobretudo, existe uma mania internacionalizante. O que quero dizer é que é muito normal, quase naturalizado ou cristalizado nas academias de filosofia, estudar autores europeus. Este fato já está tão internalizado em nosso meio, inclusive de nós professores de filosofia, que quando vamos falar de filosofia para um público não filosófico já pensamos imediatamente na Grécia e como discorrer da importância desta para o penamento. Quantas vezes já fiz isso.... Inclusive escrevi uma pequena matéria para o Jornal da Filosofia da UCDB sobre a constituição filosófica e sua condição devedora sine qua non com a Tríade Grega (Sócrates, Platão e Aristóteles). Quanta ilusão!!!

Estudando a Filosofia Latinoamericana, descobri que, e não tenho vergonha de dizer que professores também descobrem coisas, quando nos perguntamos se existe uma filosofia latinoamericana, automaticamente, já nos posicionamos num local de compreensão onde não permitimos considerar a filosofia fora da Europa. A questão é: quando os gregos "decidiram pensar", eles não tiveram que perguntar a alguém se podiam ou não fazer filosofia na Grécia. Eles simplesmente filosofaram. E mais ainda, obrigaram aos povos ocidentais a pensar como eles. Então, porque nós, latinos, temos que perguntar para os europeus se podemos ou não fazer filosofia? E quem estabeleceu os critérios para que uma filosofia, para nascer, deve ser idêntica aos modelos dos europeus?

A meu ver, a filosofia não pode e nem deve ser propriedade de uma determinada cultura ou de uma determinada corrente, ela pertence ao pensamento humano e onde há pensamento, há filosofia. A questão que implica aos europeus é que nosso modo de fazer filosofia escapa aos tradicionais modelos da racionalidade europeia. Nossas categorias filosóficas são diferentes das categorias elegidas como legitimamente filosóficas. Nós, latinos, não nos perguntamos se os entes se relacionam com seus Daseins, ou se a linguagem é performativa ou imperativa, muito menos se a ética do discurso convém ou não a uma comunidade transcendental... 

Para nós, latinos, a filosofia deve, muito mais que dizer do real, deve fazer o real. A filosofia é sinônimo de práxis e transformação. Quando lemos: João Bautista Alberdi, liberal argentino, Tobias Barreto, filósofo eclético brasileiro, José Martí, revolucionário e poeta cubano, Eric Willians, ativista de Trinidad e Tobago, Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro, e tantos outros latinos que exerceram seu fazer filosófico em prol de uma efetiva construção do real, nos perguntamos: é justo com esses homens e conosco mesmo ter que pedir permissão aos "gregos" para transformar o real?Como admitir que somente uma parcela "privilegiada" do universo conhecido é considerada pensante? 

Mas há ainda outro fator a discorrer. A questão do fazer filosófico latinoamericano incomoda a Europa - e agora podemos incluir também "our american brother". Ao contrário de nossos vizinhos do norte, o latino, ao fazer filosofia, questiona a ordem das relações de dominação tanto do pensamento quanto das dominações efetivas. O fazer filosófico latino leva muito a sério o antigo jargão de Marx do compromisso transformador do pensamento humano. Ou seja, fazer filosofia é, para nós, romper com as construções estabelecidas do real e reorganizá-las a partir de novas perspectivas. É transformar as relações colocando em questão as forças imperativas dessas relações. É enxergar que pensar é fazer revolução, como já mencionei em outro post.

No que digo acima, trago nossa última aula de História da Filosofia da América Latina que, por sinal tem rendido boas reflexões neste blog e grandes acessos ao mesmo (não sei se isso é bom ou ruim). Em nossa aula de hoje (18/05), fizemos um seminário sobre Ernesto Guevara, o famoso "Che". Nesse seminário mostramos a importância de uma real compreensão desse pensador, abstraindo as mistificações tanto do herói da esquerda quanto do bandido da direita. Lendo Che, percebemos a importância do papel transformador da filosofia na América Latina. É claro que não podemos fazer, como muitos fazem, isolar as ações individualizadas dele e tentar remontar um quadro psicológico doentio e frio de um sanguinário psicopata, ou simplesmente abstrair o homem Ernesto e enxergar nele a imagem redentora de Cristo da América Latina. Nem uma, nem outra são compreensões filosóficas de suas reais contribuições.

O seminário de hoje mostrou-me que, cada vez mais, nós, latinos, estamos de posse de um filosofar que nos coloca numa disposição de transformação do real. Ser Latino já é ser "produto". Com isso quero dizer que nossa identidade é justamente o não-ser-essencialmente-dado, e sim, o ser-a-ser-construído-e-transformado por natureza. Nossas raízes não são aquelas dispostas na Bíblia, como nos quiseram passar os missionários tanto católicos quanto protestantes, i. é, Deus não criou o latino. Fomos forjados pelas ações nefastas da manipulação europeia que obrigou  um amoldamento entre negros, índios e europeus. Somos produto da cultura e nosso pensar não pode não ser outro que uma transformação do real - já que somos uma transformação da engenharia genética cultural -  e o questionamento daqueles que dizem que pensam...

Por fim, termino essas bazófias agradecendo a oportunidade que estou tendo de ministrar as aulas, pois elas, além de me renderem boas discussões nesse Blog, me abriu a cabeça para outros aspectos...

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