terça-feira, maio 7

NOTAS DE AULA: O PROBLEMA DAS IDEIAS EM DAVID HUME





Na sequência, apresento um fichamento esquemático, por ocasião da minha seleção para o Mestrado (2009), das seções II a V do Ensaios sobre o Entendimento Humano, no qual Hume se debruça sobre o problema das origens das ideias. Para aqueles que buscam uma síntese rápida do problema do conhecimento em D. Hume, este fichamento pode contribuir.

SEÇÃO II
Das Origens das Idéias

P Nas PERCEPÇÕES[2] DO ESPÍRITO, diferem:
-sensação sentida no momento do estímulo
-lembrança da sensação por meio da imaginação
P “O pensamento mais vivo é sempre inferior à sensação mais embaçada”
P Tipos de PERCEPÇÃO DO ESPÍRITO (criteriologia – graus de força e vivacidade)
PENSAMENTOS ou IDÉIAS: percepções menos fortes e menos vivas
IMPRESSÕES: todas as percepções mais vivas (ouvir, sentir, amar, odiar, desejar, querer, etc.)
P Aparente liberdade do pensamento: “A primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento humano”
P Fundamento Empírico do Pensamento: “todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas[3] (...) todas as nossas idéias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas
P Fundamentação Argumentativa:
1)      Todo pensamento complexo deriva de uma idéia simples como cópia de uma percepção simples (inclusive a idéia de Deus, que deriva dos atributos finitos de nosso espírito).
2)      Não se pode formar uma idéia se não lhe for apresentada ao espírito as sensações correspondentes que possibilite tal formação.
P Têm-se tantos SENTIDOS quantos existem OBJETOS capazes de estimulá-los.
P Todas as idéias, principalmente as IDÉIAS ABSTRATAS: fracas e obscuras, pouco controle sobre elas e de fácil erro.
P Todas as sensações internas e externas (IMPRESSÕES)[4]: vivas e fortes, são determináveis com exatidão e não é fácil equivocar-se
P Critério de VERDADE: “de que impressão é derivada aquela suposta idéia?”.

SEÇÃO III
Da Associação de Idéias

P Necessidade evidente da existência de um PRINCÍPIO DE CONEXÃO entre as diferentes idéias ou pensamentos do espírito humano.
P Princípios de Conexão de Idéias:
a) SEMELHANÇA
b) CONTIGUIDADE no tempo e no espaço
c) CAUSALIDADE
P FUNDAMENTAÇÃO DA CONEXÃO ENTRE IDÉIAS:
- toda ação, afeição, pensamento ou fala possui um propósito ou intenção.
- “em todas as composições geniais é, portanto, necessário que o autor tenha algum plano ou objeto (...) Uma obra sem um desígnio se assemelha mais a extravagâncias de um louco do que aos sóbrios esforços do gênio e do sábio”.
- em todas as narrações, os eventos ou atos são unidos por algum elo ou laço e formem uma espécie de unidade situando-os em um único plano (finalidade).
P Este princípio de conexão entre vários eventos formando o tema central é o que denomina PRINCÍPIO CONECTIVO DE SEMELHANÇA.
P A construção histórica de alguma coisa durante um determinado período e uma espacialidade pré-fixada, teria seus eventos compreendidos mediante um desígnio específico, que é a CONEXÃO DE CONTIGUIDADE no tempo e no espaço.
P A relação entre diferentes eventos que segue a série de ações segundo sua ordem natural, remontando às suas fontes e princípios secretos, subsequentemente, descrevendo suas mais remotas conseqüências é a denominada RELAÇÃO CAUSA-EFEITO (a mais habitual).
P Discussão sobre as UNIDADES DE AÇÃO nas NARRAÇÕES HISTÓRICAS e nas POESIAS ÉPICAS:
- diferenças entre as unidades de ação da biografia ou história e do épico: não em gênero, mas em GRAU.
- ÉPICO: conexão entre os eventos mais próxima e mais sensível (estímulo das paixões).
- NARRAÇÕES: não abrange grandes extensões temporais (ação voltada para a satisfação da curiosidade dos leitores).
- O estilo épico exige uma unidade mais próxima:
1)      Coloca-se mais próximo do objeto pelos detalhes
2) Não possui causas longas e estimula o máximo de sentidos possíveis
            - tanto a narração histórica e a poesia épica possuem certa unidade necessária
- tanto na narração histórica quanto no épico a conexão que une os eventos é a relação causa-efeito.
- no épico a conexão deve ser mais próxima e mais sensível em virtude da vivacidade da imaginação.
-o que distingue as narrações históricas dos épicos são os graus de conexão dos eventos, uma vez que são os mesmos em gênero.

SEÇÃO IV (parte I)
Dúvidas Céticas sobre as Operações do Entendimento 

P Divisão natural dos objetos da razão (investigação humana):
RELAÇÃO DE IDÉIAS[5]: ciências da geometria, da álgebra e da aritmética, i. é, toda afirmação intuitiva ou demonstrativa verdadeira (não dependem de algo existente em alguma parte do universo).
RELAÇÃO DE FATOS[6]: não são determinadas pela intuição, sua veracidade não é tão evidente quanto as relações de idéias, o contrário de um fato é sempre algo possível e não implica em contradição, uma vez que o espírito o concebe com a mesma facilidade e distinção como se adequasse perfeitamente à realidade.
P  Raciocínios sobre os fatos: fundam-se na relação de CAUSA E EFEITO (ultrapassa os dados da memória e dos sentidos)
P INFERÊNCIA: “supõe-se que há uma conexão entre o fato presente e aquele que é inferido dele” (seja a causa ou o efeito)
P Investigação sobre a relação CAUSA-EFEITO:
1) O conhecimento desta relação não se obtém a priori, mas provêm da experiência.
2) Somente pela experiência sensorial (sentidos) não se chega ao conhecimento da CAUSA e do EFEITO.
3) Sem a experiência não se pode inferir nada a cerca da existência real de um fato
4) o argumento de que a causa e o efeito não são frutos da razão se refere à primazia da experiência para que possamos obter qualquer idéia como representação ou memória da experiência.
P OBJEÇÃO: Para objetos FAMILIARES  e que tem estreita analogia com todo curso da natureza: aparente sensação de conhecimentos a priori
P Influência do COSTUME
P Não se pode descobrir de um objeto seus efeitos sem observações anteriores
P  Não se encontra o EFEITO na CAUSA: “O espírito nunca pode encontrar pela investigação e pelo minucioso exame o efeito na suposta causa”
P OBJEÇÃO DA NECESSARIEDADE ENTRE CAUSA-EFEITO: Se há uma Arbitrariedade a priori entre causa-efeito, há também, uma arbitrariedade na conexão dita necessária entre CAUSA-EFEITO
P “todo efeito é um evento distinto de sua causa [...] não poderia ser descoberto na causa e deve ser inteiramente arbitrário concebê-lo ou imagina-lo a priori
P Problemática da CAUSA ÚLTIMA dos fenômenos naturais:
1) Não se pode pretender indicar a CAUSA ÚLTIMA de qualquer fenômeno natural.
2) O máximo que se consegue é reduzir à sua maior SIMPLICIDADE os princípios que produzem os fenômenos naturais
3) Se consegue restringir os múltiplos efeitos particulares em CAUSAS GERAIS por analogia, experimentação e observação.
4) Comunicação de movimento por impulso, elasticidade, gravidade são o provavelmente as causas e os princípios últimos da natureza.
5) Da-se por satisfeito se dos fenômenos particulares se consegue dizer de princípios gerais.

SEÇÃO IV (parte II)
Dúvidas Céticas sobre as Operações do Entendimento 

P PROBLEMÁTICA:
- Qual é a natureza de todos os nossos raciocínios sobre os fatos?
- A Relação Causa e Efeito
- Qual é o fundamento de todos os nossos raciocínios e conclusões sobre esta relação?
- A experiência
- Qual é o fundamento de todas as conclusões derivadas da experiência?
P Proposição Defendida: “mesmo depois que temos experiência das operações de causa e de efeito, nossas conclusões desta experiência não estão fundadas sobre raciocínios ou sobre qualquer processo do entendimento”
P Dados dos sentidos: fornecem as QUALIDADES SENSÍVEIS dos objetos (cor, peso, textura) e não o que os torna CAUSAS ou EFEITO.
P Inferência de “Poderes Ocultos”[7] aos DADOS da PERCEPÇÃO: análoga-se a outros entes que possuem semelhantes DADOS da PERCEPÇÃO os mesmos EFEITOS do primeiro.
P “não se conhece nenhuma conexão entre qualidades sensíveis e os poderes ocultos”
P Limitação dos DADOS da experiência: se limita somente àquele OBJETO naquele TEMPO (restringe-se exclusivamente àquela experiência)
P Problema: “porque esta experiência tem de ser estendida a tempos futuros e a outros objetos que, pelo que sabemos, unicamente são similares em aparência?”
P Inverdade na construção lógica das proposições que aparentemente são convergidas por conexão:
Encontrei que tal objeto sempre tem sido acompanhado por tal efeito, logo, prevejo que outros objetos que são em aparência semelhantes, serão acompanhados por efeitos semelhantes.
P Classe de Raciocínios:
DEMOSNTRATIVOS: referem-se às relações de idéias. Argumentos demonstrativos (invariabilidade)
MORAIS (ou PROVÁVEIS): referem-se às questões de fato. Argumentos não demonstrativos (variabilidade)
P Tentativa de Provar a Relação Causal pelo RACIOCÍNIO DEMONSTRATIVO:
- Universalização de um efeito a partir das semelhanças perceptíveis: “De causas que parecem semelhantes esperamos efeitos semelhantes”
- Há uma Inferência de uma conexão entre QUALIDADES SENSÍVEIS e PODERES OCULTOS
- Pela demonstração não se pode fundamentar a relação causal.
P Tentativa de Provar a Relação Causal pelo RACIOCÍNIO MORAL
- Função e Limitação da Experiência: mostrar certos números de EFEITOS uniformes resultantes de certos objetos particulares (em tempo e espaço limitados).
- Conhecimento provindo da experiência: neste TEMPO, tais OBJETOS obtinham determinados PODERES.
- Improbabilidade experimental de que dados semelhantes garantam efeitos semelhantes: “nenhum argumento tirado da experiência possa provar a semelhança do passado ao futuro”
- Provar a semelhança dos efeitos pela semelhança dos dados percebidos pela experiência é cometer Sofisma de Petitio de Principii: provar algo com um argumento não anteriormente provado.
- Pelo Raciocínio Provável não se pode fundamentar a relação causal.

SEÇÃO V (parte I)
Solução Cética destas Dúvidas 


P Base teórica: filosofia CÉTICA ou ACADÊMICA
P Avanço do espírito pela experiência: “em todos os raciocínios derivados da experiência o espírito avança sem apoiar-se em argumentos ou processo do entendimento”
P Busca da NATUREZA do princípio do conhecimento: “Se o espírito não é levado a dar este passo por um argumento, deve ser persuadido por outro princípio de igual peso e autoridade”
P Contradição da causalidade: “nem é razoável concluir, apenas porque um evento em determinado caso precede outro, que um é a causa e o outro, o efeito. Esta conjunção pode ser arbitrária e acidental”
P “Não há base racional para inferir a existência de um pelo aparecimento do outro”
P Obrigatoriedade DETERMINANTE da INFERÊNCIA da causa ao efeito: “porquanto há um outro princípio que o determina a tirar semelhante conclusão”
P “este princípio é o COSTUME ou o HÁBITO. Visto que todas as vezes que a repetição de um ato ou de uma determinada operação produz uma propensão a renovar o mesmo ato ou a mesma operação, sem ser impelida por nenhum raciocínio ou processo do entendimento”
P COSTUME: “último princípio que podemos assinalar em todas as nossas conclusões derivadas da experiência”
P Fundamento das conclusões advindas da experiência: COSTUME
P Importância do COSTUME: guia da vida humana – torna útil nossa experiência – garante a espera pelo futuro
P Importância do ponto de partida: um FATO PRESENTE à memória ou aos sentidos desipotetiza o raciocínio
P Conclusão: o ACREDITAR no fato presente: “o espírito é levado pelo costume a esperar calor ou frio, e a acreditar que esta qualidade existe realmente e que se manifestaria se estivesse mais próxima de nós”
P Distinção entre CRENÇA e FICÇÃO: “idéia particular anexada a uma concepção que obtém nosso assentimento”
P CRENÇA: sentimento ou maneira de sentir que não depende da vontade e não é manipulado a gosto
P Particularidade do sentimento da crença: nasce de uma situação particular apresentada por um objeto aos sentidos ou à memória pela força do costume
P Impossibilidade conceitual do SENTIMENTO DA CRENÇA




[1] Hume: empirista e cético.
[2] PERCEPÇÃO: Para Hume é a totalidade dos fatos mentais e das operações volitivas.
[3] Assim como Locke, Hume acredita que a experiência possui dois tipos: uma externa, na qual se experimenta os objetos sensíveis externos; e a interna na qual se experimenta as operações mentais e os movimentos da nossa alma. Cf. REALE e ANTISERI. John Locke e a fundação do empirismo crítico. [On-line]. Disponível em: www.filedu.com/grealedantiserijohnlocke.html , p.7. Acesso 28/08/2008.
[4] O conjunto das sensações internas e externas é o que Hume denomina IMPRESSÕES: “Pelo contrário, todas as impressões, isto é, todas as sensações, externas ou internas, são fortes e vivas...”
[5] Hume situa as relações de idéias como aquelas que devem ser entendidas como comparação de idéias, as quais permanecem invariáveis, contanto que as idéias não se alterem. Trata-se, portanto, dos raciocínios demonstrativos exclusivamente os matemáticos.
[6] Relações de fatos são aqueles que podem modificar desde que as idéias não mudem e possui como jurisdição a experiência.
[7] Hume fala de Poderes Ocultos se referindo aquilo que inferimos aos dados da percepção como capacidade de gerar efeitos sendo, portanto, analogados a outros entes de mesmos dados da percepção.

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