quarta-feira, maio 15

"MULTICULTURALISMOS"
















Estou fazendo um curso online de "Diversidade Cultural" e algo curioso me chamou a atenção. O próprio termo multiculturalismo, tão em voga hoje, é multicultural (se é que pode ser pior...). Segundo o educador Peter McLaren, dependendo do modo como compreendemos a expressão multicultural podemos ser ou não multiculturais. Explico-me. 

Sobre essa expressão tão famosa, muitos teóricos procuram justificar a nossa atual situação política e econômica globalizada. A globalização, marca registrada da política neo-liberal do pós-segunda Grande Guerra, se apresenta sob o slogan da "flexibilização", de modo tal que a compreensão cultural globalizada deve ter como marca registrada a ontologia do "diferente como normal" e a "tolerância" como normatividade ética. Contudo, quando se pergunta para quem essa diferença e essa tolerância tem valor regulativo, a resposta é clara e precisa: para o mercado. O multiculturalismo defendido pela globalização é um multiculturalismo de mercado, a medida que a flexibilização diz respeito às derrubadas das barreiras econômicas para que aquele possa entrar e mandar e desmandar. Ser multicultural é ser global, ou seja, é entrar na onda da economia de mercado.

Com efeito, essa economia de mercado global e multicultural defende a interesses que não são tão plurais assim, pelo contrário, são muitos sectários e reacionários às novidades. Esta perspectiva da diversidade é tomada como justificativa naturalizante da segregação social e da exclusão classista. De modo que, ser pobre, marginalizado e segregado (por razões étnicas) é natural e normal. O "diferente" passa a ser normal e essencial no mundo multicultural. Nem todos precisam ser ricos, nem todos precisam ter capital, e isso é plural... Aqui, multicultural é sinônimo de segregação, marginalização e exclusão.

Outro efeito nefasto deste tipo de multiculturalismo é a decadência dos compromissos éticos em nome de uma pluralidade. O pluralismo, como sinônimo de mercado, rejeita qualquer intervenção de discursos éticos justificando ser uma agressão à diversidade. Ser diferente é ser normal e reflexões éticas são intolerantes, agressivas e ferem o direito de ser diferente. Mas fere o direito de quem? Daqueles que não querem dar direitos à ninguém fere o direito da liberdade descompromissada do mercado. Fere o direito de exploração, marginalização, exclusão, castração etc.

Dentro desse quadro global de "pluralismos" e "multiculturalismos", McLaren defende a ideia de que o multiculturalismo deve ser "revolucionário". Um multiculturalismo revolucionário é aquele que desmascara as intensões mercadológicas de pequenos e poderosos grupos mostrando a verdadeira pluralidade, i. é, tecendo críticas ao capitalismo especulativo, à democracia representativa, à educação manipuladora, às mídias e à recusa das reflexões éticas. É aquele que reforças as vozes que "vem de baixo", parafraseando Florestan Fernandes. É mostrar que existem pessoas insatisfeitas com o plural e que é necessário, com urgência, uma reflexão sobre a identidade.

O multiculturalismo revolucionário estabelece a diferença entre intolerância e limites, entre diferenças culturais e naturalização das diferenças, entre inflexibilidade e compromisso ético e entre plural e identidade. É uma compreensão do plural que não menospreza o próprio plural e compreende a tensão necessária entre identidade e pluralidade. Esse tido de multiculturalismo não é o que vivemos hoje. O que temos é uma aparência pluralista que nos fazem perder os limites do senso do real e imaginário, do ilusório e verídico, do ético e do não ético.

Pensemos sobre isso!

0 comentários:

Postar um comentário