domingo, maio 5

PENSAR É FAZER REVOLUÇÃO!



Hoje, ministrando um seminário sobre a História da Filosofia da America Latina, me dei conta de um fato que achei importante escrever. Falávamos, na oportunidade, de dois pensadores latinos: José Martí e Eric Williams. O primeiro, poeta, o segundo, historiador. Ambos com uma certeza: é necessário fazer revolução. José Martí foi um poeta cubano, natural da Havana  do início da segunda metade do século XIX (1853), que lutou pela independência de seu país do massacre colonial espanhol. Para Martí, a liberdade era muito cara para ser entregue e trocada por tão poucas barras de ouro. A colonização hispânica não só retirava a riqueza natural e a autonomia de sua amada Cuba, mas matava a alma poetizante de seu povo, a "Nuestra América".

Por esta razão, Martí é revolucionário, tanto nas convicções políticas de um projeto nacionalista, cujos os ameríndios, os negros, os crioulos, os mestiços, os europeus, os ricos e os pobres podem se sentar à mesma mesa e partilhar as "tortilhas"; quanto na elaboração de um projeto pedagógico que reintegre a cultura na América. É uma Revolução Integral de cunho nacionalista, sem ser marxista, que leve seu povo cubano a poetizar pela liberdade. A poesia é sua maior revolução e sua arma é o saber. Sem poesia e sem o saber não há um autêntico processo de Descolonização de Cuba e da tão sonhada pátria grande: "Madre América".

Eric Williams, por outro lado, foi um historiador negro do século XX (1911) que conseguiu estudar em Oxford. Mas este fato - um negro estudar em Oxford - não foi sua maior façanha. Esta, por sua vez, advêm de suas experiências negras dentro de um país que não tolera o diferente. A frieza inglesa não foi párea para o coração sofrido e marginalizado daquele negro historiador que, tomando a si mesmo por exemplo, enfrenta a ideologia capitalista britânica e contra-ataca com suas próprias armas. Se doutorando em Oxford, sua tese, nada mais, nada menos, foi uma crítica mordaz à ideologia política do capitalismo inglês na defesa do abolicionismo. Segundo Williams, a estratégia humanitária inglesa em defesa do negro servia simplesmente aos interesses da política e da economia industrial que, como um monstro insaciável, engolia todos aqueles que se opusessem a ela. O sistema escravagista era meramente um empecilho para este monstro e, por isto, era preciso combatê-lo para que a besta-fera pudesse se expandir internacionalmente pelo Novo Mundo. Desta feita, a tese de Williams destrona, argumentativamente, a falácia do sistema inglês e coloca em xeque tal modelo como paradigma internacional de progresso. Em Williams, o saber fez revolução. O saber introduziu elementos histórico-críticos para uma análise mais larga da realidade multicultural, concretizando-se com a independência de seu povo em 1962.

O que tiramos com ambos os exemplos? Acredito que, a partir da breve reflexão acima, podemos alargar o conceito de Revolução cunhado pelo marxismo. Revolução é, primeiramente, mergulhar no saber como fez Williams. Sem uma base educacional e sem estar de posse do saber, como condição de análise crítica da realidade, uma revolução apenas passa por modismos reduzidos aos revolucionários. Uma revolução do saber implica, além da sensibilização e da conscientização, uma integração do saber. Isso não remete a ideia de uma aldeia global, a qual vivemos, onde acreditamos estar de posse do saber. O saber não pode ser in-formação (in-formar/por na forma). O saber é irrupção de uma interação sócio-organizadora. É a construção internalizante de sentido e significado para a reflexão e para ação. E, daí, tem sentido falar do segundo aspecto da Revolução, o poetizar como fez Martí. Uma revolução tem que poetizar, isto é, engajar-se esteticamente a uma inspiração originária que não vem de um conhecimento padronizado dos Googles e das Wikipédias da vida. É uma construção do real que leve em conta uma representação esperançosa e ao mesmo tempo mística. São reiterações das relações estético-culturais do mundo. É destruir o caos, mas com a leveza e a ternura de inspiração guevariana. É levar o mundo a um habitat poetizável. Isso é fazer Revolução! Isso é Pensar!

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