quarta-feira, maio 22

RESPOSTA AO HEIDEGGER DE LEONARDO BOFF


Essa semana, Leonardo Boff escreveu um texto em seu blog pessoal fazendo uma leitura de uma das frases mais herméticas de Heidegger: "Só um Deus nos poderá salvar". Essa frase foi dita na última entrevista deste filósofo à revista alemã Spigel, cujo título é homônimo à frase, e publicada postumamente. Mesmo admitindo que esse jargão heideggeriano está aberto, ou seja, não existe uma interpretação que possa ser considerada como "oficial", a compreensão teológica, ao meu ver, é a pior que eu já vi.

Admiro muito o pensador Leonardo Boff, concordo em muito com suas compreensões do real e tiro o chapéu pelo seu engajamento político por causas em favor do povo. Já li muitas de suas obras e, em minha fase de "teólogo da libertação" quando fui frade franciscano, era boffiano de carteirinha. Hoje, que me encontro numa nova fase de minha vida, as coisas mudaram! Para mim, Leonardo Boff, enquanto heideggeriano, é um excelente teólogo! Entender essa frase, como diz ele, enquanto um desembocamento teológico de uma questão filosófica, pelo fato de uma insuficiência teórico-metodológica da compreensão histórico-social, além de se mostrar uma leitura simplista e apressada, é a meu ver, desconsiderar toda construção filosófica de Heidegger.

Em todo seu pensar - pelo menos que compreendi nas dificílimas leituras que fiz - Heidegger se concentra em rever a insuficiência da construção do pensamento ocidental e aponta como tese central o esquecimento da questão do ser. Sua proposta, portanto, é a partir da "destruição" dos véus que obscureceram a revelação da verdade do ser, encaminhar uma reflexão que seja interpelada pelo próprio ser. Um desses véus foi posto pela teologia quando identifica a figura do Deus cristão com o ser, objeto da metafísica, proporcionando, com isso, uma compreensão "onto-teo-lógica" do pensamento filosófico. Com efeito, a tarefa do pensamento é mostrar a insuficiência do pensamento ocidental identificado como metafísico, incluindo aí o pensamento teológico, na compreensão da manifestação (Ereignis) do ser.


Levando em consideração a fama hermética deste filósofo em seus escritos tardios (depois do que ele mesmo chama de Kehre), tomar essa frase numa simplicidade e num apressamento descuidado como faz Boff, i. é, entender que a figura "Deus" é aqui o Deus (o ser supremo) da teologia e com ele todas as implicações teológicas, é, de algum modo, reduzir a importância ou os ganhos que o pensamento geral teve com seu pensamento. Heidegger, em outro momento, já havia dito: "os deuses nos abandonaram.." refutando toda e qualquer compreensão teológica como solução barata para aquilo que deve ser compreendido na ordem da imanência do pensamento.


Seja como for, essa minha breve bazófia, não surtirá tanto efeito quanto a de um Leonardo Boff, o que mostra que muitos lerão essa postagem para ler o que o Boff escreveu e ainda pensar: "que pretensão desse filosofozinho... quem é ele para criticar assim o BOFF!??" Seja o que for que Heidegger tinha na cabeça na hora que disse essa "bendita" (ou maldita) frase, tudo menos teologia seria o que ele queria sustentar...

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