terça-feira, junho 18

A "FENOMENOLOGIA" DA OBRA O CAPITAL


Ontem deu-se início a III Semana de Filosofia da UFMS. De acordo com a programação, a Conferência de Abertura tinha como temática: "Marx e a fenomenologia do Capital". A princípio, ter uma conferência de abertura com a temática Marx numa Universidade Federal não é nada de novo. Mas, para quem estuda fenomenologia, seja de matriz hegeliana, seja de matriz husserliana, ao ver este título "cai pra trás"! Como afirmar uma fenomenologia na obra "O capital" de Marx, haja vista que tal obra é mais bem conhecida pelo seu âmbito sócio-econômico que filosófico?  Eu, que sou curioso em fenomenologia e "tenho noções" em Heidegger (filósofo considerado fascista e nazista por muitos, pois só enxergam o que querem enxergar), fui para conferir.

A conferência foi pronunciada pelo Prof. Dr. Jadir Antunes da UNIOESTE-PR, um marxista muito diferente de outros marxistas por aí, que, ao ler as obras de Marx, sabe muito bem o abismo que há entre Marx e os marxistas. Em sua fala na noite de ontem (17/06), muito espontânea e cheia de vida, se propôs a fazer uma leitura do primeiro livro (ou primeira parte) de "O capital" a partir da proposta da "Fenomenologia do Espírito" de Hegel. Exatamente isso! Pasmem quem quiser! Um autêntico marxista não tem medo de ler Hegel. Muitos que se intitulam marxistas tem pavor quando ouvem falar de Hegel e se esquecem que Marx, mesmo de modo crítico, foi admirador de Hegel. Comenta o Prof. Jadir que em certo momento da vida de Marx, quando falavam que Hegel era "um cachorro morto", Marx dizia: "se Hegel é cachorro morto, então, eu sou hegeliano!". 

Sem perder o foco, o Prof. Jadir se propõe a ler o primeiro livro de "O Capital" a partir da "Fenomenologia do Espírito" de Hegel. Isso é possível, de acordo com o conferencista, quando se percebe que o método dialético hegeliano proposto na "Fenomenologia do Espírito" é presente também em "O Capital", mesmo que muitos considerem essa obra, como diz o Prof. Jadir, fruto de uma fase mais econômica de Marx. Isso, prova, de algum modo, que Marx nunca tenha abandonado sua postura filosófica de "esquerda hegeliana" mesmo depois que não mais trabalhou filosofia propriamente dita. 

Assim, diz o Prof. Jadir, tal como acontece na Fenomenologia, O Capital expõe a marcha da consciência "diante da verdade" (que é o significado de dialética) de instâncias mais simples e abstratas para instâncias mais absolutas e, por isso, concretas. Contudo, Marx se atêm, ao contrário de Hegel, à marcha da consciência do proletário. Ou seja, Marx se propõe a sair do estado de consciência alienado presente no indivíduo para o estado de consciência absoluta que é a tomada de poder político e econômico pelo proletariado. Uma verdadeira "Fenomenologia do Proletariado". Isso é possível pelo princípio dialético da negação da negação, onde o indivíduo nega sua condição de alienado, que é uma condição de negação de seus direitos enquanto trabalhador. Pela dialética da consciência do proletariado, Marx mostra fenomenologicamente as etapas necessárias de compreensão da consciência operária para uma mudança radical da realidade.

A meu ver, um estudo assim, compreendendo Marx dentro da história da filosofia, mediante interações filosóficas e não como um ente isolado ou meramente um ente sagrado é capaz de retirar os véus da história do marxismo ou das más compreensões que se fizeram de Marx. A despeito disso, lembro de um filósofo marxista e "boêmio" venezuelano (como ele mesmo se intitula) Ludovico Silva, que escreveu uma obra muito famosa na América Latina chamada "La plusvalia ideológica" que se propôs fazer uma análise literária de Marx. Para Ludovico Silva, Marx é um literato que escrevia em metáforas e estas deviam ser bem compreendidas para que seus pensamentos pudessem ser bem aplicados. Ou também poderia citar aqui Gramsci, marxista italiano que criticou a ortodoxia marxista por acreditar que Marx era mais uma religião do que uma proposta a ser discutida e interpretada e aplicada.

Nesse sentido, Marx tem muito a ver com Jesus Cristo. Quanto mais se propõem a estudá-lo, menos se compreendem e mais são as divisões internas no marxismo e no cristianismo. Para mim, a leitura do prof. Jadir é coerente e tenta compreender Marx por Marx, no seu contexto filosófico e nas suas relações históricas possíveis e não tomá-lo como um ícone sagrado do marxismo que, à luz das interpretações, vão correndo as autênticas aspirações de um ser humano histórico para divinizá-lo.

0 comentários:

Postar um comentário