quarta-feira, junho 19

ÉTICA DE LÉVINAS: E O OUTRO?


Em minha graduação em filosofia, posso dizer com certeza que três professores foram  basilares para meu crescimento filosófico: Dr. Márcio Costa, Dr. Pe. Geraldo Grandenne, que recordo com muito carinho do seu jeito tomista, mas autêntico de ser, e Me. Carlos Augusto que atenciosamente aceitou ser meu orientador e me abriu os caminhos da academia. A todos os três devo muito. Particularmente, aprendi a gostar de filosofia, especialmente fenomenologia, com Fr. Márcio. Nosso velho mestre de tantas disciplinas como: Filosofia Antiga, Filosofia Política II, Fenomenologia e Filosofia da Linguagem. Metódico, rigoroso e de um saber profundo, aprendi como ele o que é este duro exercício do filosofar. Com feito, muito me marcou o método fenomenológico que Fr. Márcio sempre utilizava em suas aulas. 

Fr. Márcio tem sua tese de doutoramento no pensamento de Lévinas, cuja orientação foi feita pelo Dr. Enrique Dussel, e hoje ele nos brindou com um pouco de sua sabedoria falando sobre a importância do "Rosto" na ética de Lévinas. Compreender um fenomenólogo, seja quem for, desde Husserl até os mais contemporâneos, é sempre um trabalho que exercita a paciência. Ler os textos da fenomenologia é fazer "filosofia da vaca", haja dentes para ruminar! Lévinas não é exceção. Portanto, o que quero comunicar aqui é a minha rasa compreensão da conferência que tive a oportunidade de participar. Ou seja, não me aterei aos detalhes filosóficos e fenomenológicos necessários para a compreensão do mesmo, apenas enfatizar o que acho importante para uma compreensão mínima.

Fr. Márcio, substancialmente, enfatizou que a compreensão da ética em Lévinas passa pela compreensão da experiência do "Rosto". O Rosto não seria uma categoria teorética e sim a experiência mais básica e elementar da relação humana. Tudo acontece no Rosto, ou melhor, tudo pode ser exprimível no Rosto. Essa dimensão básica esquecida pelos discursos éticos é que sustenta  a própria relação ética, pois ela se dá "face-a-face". Este encarar-se no rosto do outro nos interpela de tal modo que somente nesta instância, afirma Márcio, a subjetividade e a intersubjetividade são possíveis, haja vista que mais que alteridade, Lévinas nos propõe a pensar nosso próprio Rosto (mesmo quando não gostamos dele)

O Rosto, expressão inalienável humana, é ainda uma faceta estética da relação, isso implica dizer que o caráter ético perpassa o caráter estético da relação. No rosto, contemplamos o infinito, ou seja, contemplamos os limites das teorizações do outro. Portanto, Fr. Márcio sublinhou várias vezes que a experiência do Rosto ou dos Rostos contribuem, de alguma forma, como crítica ao sistema moralizante vigente chamado "mercado". Essa crítica, na obra de Lévinas tem um oponente de peso que é a Teoria do Estado de Hegel, cuja abstração do Estado engole qualquer particularidade. Hoje, a teoria do mercado estabelece suas leis financeiras sem perguntar aos afetados se são ou não leis justas ou se podem ou ser sustentadas num discurso de validade intersubjetiva. O Rosto serve como crítica à impiedade da moralização do mercado uma vez que no "tete-a-tete", as leis são a posteriori e dor do outro é sentida e manifesta no Rosto.

Para além de Fr. Márcio, a pergunta que me faço toda vez que ouço falar de Lévinas - e esta pergunta tem uma ponta husserliana - é: quem é de fato o outro? Por mais que Lévinas argumente que o Rosto é imperante na relação, já que nada o manifesta senão ele mesmo, a pergunta que sempre ressoa em meus ouvidos é: é possível começarmos uma relação ou estabelecermos uma contemplação partindo do Outro? Quem é o Outro? Quando o Outro é Outro, somente quando ele não sou eu? São questões que, para mim, fica em aberto, mesmo contrariando os levinasianos. Mas como o filosofar é exercício, ou seja, não é algo pronto ou uma receita de bolo, permito-me tecer esses devaneios tolos. Nesse sentido, faço eco à voz do professor Dr. Jadir Antunes da UNIOESTE que afirmava o direito que os doutores tem de falar bobagens! Assim, exijo meu direito de falar minhas bobagens...

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