terça-feira, junho 25

BREVILÓQUIO FENOMENOLÓGICO SOBRE OS MOVIMENTOS QUE ECLODEM NO PAIÍS













Me sinto honrado quando observo que meu "blogzinho", inexpressível, amador e caseiro começa a incomodar. Quem diria que minhas bazófias filosóficas pudessem ser citadas em outros blogs... Por um lado, isso me dá credibilidade, pois o que eu digo tem tanto peso que merece ser refutado. Por outro, é uma pena que seja por razões tão pequenas e rasas. 

Postei, alguns dias atrás, uma preliminar compreensão fenomenológica da série de movimentos que eclodiram no país. Em nenhum momento esperei que essa fosse a palavra final sobre os fenômenos que tem eclodido, pois, do contrário, estaria indo contra a própria proposta fenomenológica, o que é um nonsens! Essa matriz de compreensão, a meu ver, tem duas vantagens, pelo menos.

Primeira, é o modo de se posicionar na análise. Uma postura fenomenológica é a postura do "observador" que tem, primeiramente, a obrigação de descrever antes de julgar. Saber descrever um fenômeno garante, a priori, que equívocos posteriores, por posicionamentos apressados e afoitos por julgamentos, sucumbam no vazio e na ausência de demonstração legítima. O fenomenólogo tem por obrigação descrever o que vem de encontro antes de enquadrá-lo em suas matizes e discursos já determinados. Ele deve suspender seus juízos e se abrir àquilo que aparece e como aparece. A não objetificação dos fenômenos é um antídoto contra as cegueiras que só enxergam as estruturas mas não vão "às coisas mesmas", como diria Husserl. Essa postura de "observador", ao contrário do que já disseram em redes sociais, ser uma postura neutra ou descompromissada, é uma postura hermenêutica, assumindo Heidegger, Não há observador sem mundo, sem estar posto numa situação hermenêutica prévia. Isso significa que a descrição fenomenológica já é uma interpretação. Isso significa que, por mais que o digam, não existe filosofia do sexo dos anjos, pois toda filosofia já uma interpretação posicionada previamente no mundo. Contudo, interpretar não é enjaular aquilo que aparece nos meus quadros conceituais pre-concebidos, como fazem por aí. Interpretar é fazer articular o que vem, o fenômeno, com as possibilidades de modo a forçar a constituição de sentido já doada e velada pelas teorias pré-concebidas a se mostrar. Assim, descrevendo o fenômeno, o fenomenólogo tem condições de, no encontro com ele, fazer retirar os véus e ver o sentido que se mostra. 

A segunda vantagem, a meu ver, do método fenomenológico é a proposta de reforma linguístico-ontológica da realidade. Todo fenômeno é essencialmente histórico. E toda revelação fenomênica (Ereignis) implica em mudanças na compreensão onto-linguística. Para cada acontecer histórico, um modo-de-ser é aberto numa linguagem nova e desenquadrante. Cabe ao fenomenólogo, saber ler essas doações ontológicas e recolocá-las em paradigmas linguísticos adequados ao acontecer. Fenômenos novos são sempre momentos de rever paradigmas que não mais falam nada. São momentos de perceber aparecimentos (modos-de ser) que, antes, não era linguistificado e que necessitam de jogos de linguagens diferentes, parafraseando Wittgenstein, para que tais fenômenos possam ser desvelados. O sentido dos novos fenômenos devem passar por um processo hermenêutico de reforma tanto do que se compreende por realidade (ontologia) quanto pela linguagem usada para dizer dela. E a fenomenologia, atenta aos fenômenos, percebe a urgência de novas formas de linguagem para uma realidade heraclitiniana como a nossa.

Porém, muitos ainda insistem em sustentar "vinhos novos em odres velhos", parafraseando as Sagradas Escrituras. Preferem resistir aos novos tempos, aos novos fenômenos, do que abandonar discursos que hoje só soam como grandes chavões do passado. Preferem julgar apressadamente tudo que é novo, tudo que escapa aos velhos matizes, do que perceber que a realidade pede revisões tanto do modo ontológico de lidar com o real quanto do modo de compreensão da linguagem.  Não é atoa que os movimentos, de um modo geral, gritem: "Sem partido!". Que sentido tem isso? Somente analfabetismo político? Não creio que só isso. É o clamor por mudanças no modo de compreender o próprio real.

 Como educador, o que sempre digo para os meus alunos é que: no mundo das teorias da comunicação, como diz Habermas, é preciso ver o jogo de interesses presentes na linguagem tanto dos que apoiam o movimento quanto dos que criticam. Pois os movimentos não são, somente, aqueles que vão às ruas, mas aqueles que de algum modo estão pressupostos com eles. Aqueles que os apoiam e aqueles que os criticam estão transcendentalmente postos e afirmados nas ruas. Não obstante, superficial e simplicista são aqueles que gritam de um lado e dizem: "o movimento é a salvação!"; quanto aqueles que, de outro lado, gritam: "o movimento é golpista!", acreditando estar "de fora" do movimento e que, com suas vozes, fazem análises determinantes. Que ontologias há por trás dessas vozes? Que interesses estão velados nessas linguagens? E mais, aqueles que dizem tais coisas, seja para idealizá-lo, seja para endemonizá-lo, o fazem crendo que se pode solapar todo o movimento num golpe só, i. é, como se numa única visada pudesse ver todo o movimento como uma coisa só. Não percebem que não existe "o movimento", mas "os movimentos". E por isso, rasteiramente, já julgam acreditando estar de posse do real. O que sabem, essas vozes, do real senão aquilo que seus discursos já predisseram? Que propriedades de acesso são afirmadas, para além de velhas teorias, como instrumentais autênticos de análise de movimentos tão complexos como os que temos vistos ultimamente?

É necessário recriar o real e não simplesmente julgá-lo. A linguagem é essa porta de acesso que nos permite ser co-criadores desse real. Não é atoa que o movimento "grita". Grita pedindo novas linguagens, pedindo novas propostas ontológicas. O que essa linguagem vai nos oferecer ainda é cedo julgar. O que eu espero é que, daí, não se perca o sentido perpétuo de que sempre é possível transformar o real. Sempre é possível pensar outro mundo possível!

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