quinta-feira, junho 20

PROTESTO DO PENSAR



Desde quando escolhi estudar o pensamento de Heidegger, ouço sempre a mesma coisa: como tem coragem de estudar um nazista?! O impressionante - talvez não - é que escuto isso não de pessoas fora da Academia. Muitos professores, doutores, líderes religiosos e outros sempre me acusam ou reclamam a mesma coisa: o problema do nazismo em Heidegger. Depois de muito sofrer com isso, hoje, já começo a me acostumar e até consigo tirar sarro...

Contudo, essa atitude vinda dos "Acadêmicos" (não me refiro a alunos e, sim, professores da academia) tem me despertado para uma questão que pouco se discute nas próprias academias: a relação entre intelectualidade e maturidade. Parece-me, e isso pode ser considerado como uma hipótese em sentido popperiano, que a intelectualidade, o aprofundamento e as especificações (Mestrado e Doutorado) pouco contribui para o amadurecimento pessoal e humano. A impressão que eu tenho é que quanto mais nos aprofundamos no conhecimento menos sabemos sobre humanidade, menos sabemos o que é ser "ser-humano". Isso não é somente um problema de antropologia filosófica. É sim uma constatação muito presente nas Academias de Filosofia e entre os filósofos.

A meu ver, há duas questões aí, uma de caráter pessoal e outra de caráter mais institucional. A primeira diz respeito ao que já toquei acima. Parece-me que, numa linguagem heideggeriana, quanto mais se tira os véus da realidade, mais ela quer se esconder. Sendo mais claro, quanto mais se conhece, menos humano se torna. Como é comum ver nas brigas filosóficas o desmerecimento pessoal do filósofo em detrimento de sua filosofia. Basta abrir um livro de filosofia e observar que, desde que filosofia é filosofia, os filósofos não só discutem ideias, mas discutem o mérito pessoal daquele que fala. É terrivelmente normal os descréditos feitos à pessoa trocados em meio a uma discussão filosófica. É claro que não estou aqui querendo fazer uma bipartição metafísica do ser humano dizendo que numa calorosa discussão os ânimos não supitam à pele. Como se pudêssemos ser estoicos suficiente para mantermos uma apatia (a-pathos) filosófica. O que vejo, na verdade, é muito mais um ataque frontal aos filósofos do que às suas teorias. Apesar da antiguidade desta prática, vejo que sua naturalização é um desserviço filosófico.

A segunda questão diz respeito ao caráter institucional. Não sei se tenho propriedades para dizer isso, (mas quem dá propriedades a alguém para dizer o que se diz?), e, por isso, vou dizer: há uma total "imaturidade acadêmica" nas academias. Quando vejo doutores, que estudaram anos e anos certos autores, desprezarem outros autores e quem estuda esses outros autores só pelo fato de não gostarem dele, isso me entristece. Doutores que cobram tanto o rigor de seus acadêmicos na produção de suas teses, que reclamam tanto a "bendita" objetividade, de repente, são vistos emitindo juízos parciais subjetivos sobre alguém. A meu ver, a academia está imersa em ignorância maturativa. Como pode um docente orientador dizer para seu orientando que o filósofo que ele escolheu não tem serventia? O que é essa serventia de que fala tal docente? Quem estabelece a serventia ou não de um filósofo? A academia, hoje, vive seu auge. Nunca se produziu tanta coisa, pelo menos em termos de filosofia, quanto se tem visto nas últimas décadas. De tudo um pouco a academia tem falado, de tudo um pouco a academia tem se debruçado e avanços no pensamento tem sido feito em uma velocidade e quantidade nunca vistos antes. E por isso mesmo, pelo seu auge, é que está decaída. Nunca se viu tanta intolerância nos meios acadêmicos como agora. Quantas críticas quiméricas são feitas dentro dos âmbitos das academias. O que mostra que existe uma imaturidade acadêmica, ou seja, uma contradição muito básica: exige-se o rigor objetivo nas pesquisas, mas tecem-se críticas subjetivas. A imaturidade acadêmica, portanto, fere o princípio básico de qualquer saber acadêmico: universalidade, objetividade, criticidade e rigorosidade.

Esta pequena constatação, que não precisa de exemplos mais claros que vistos nos meios acadêmicos, explica porque ainda me questionam por que estudar Heidegger. "Acadêmicos" tão grandiosos em seus estudos desprezam todo o rigor da análise, toda criteriologia da pesquisa para emitirem essa pergunta: você vai estudar um nazista? Fazem essa pergunta como se fosse possível eu, ao estudar Heidegger, reproduzir tudo o que foi o nazismo. Ou pior ainda, desmerece a minha pessoa creditando a mim uma ausência mínima de criticidade. Como se fosse possível a todos que estudam Nietzsche sair por aí beijando cavalos, ou a todos que estudam Derridá ter que tirar suas vidas. Isso é uma hipocrisia.

Mas mesmo admitindo que esses que me julgam nazista pelo fato de estudar Heidegger estejam certos, e que por isso não haveria nada em Heidegger que contribuísse para o pensamento em geral ou para o quadro social brasileiro, sendo uma "filosofia do sexo dos anjos", farei uma pequena digressão. Antes que me critiquem dizendo que faço inapropriações do sacrossanto pensamento de Heidegger, gostaria de dizer que não sou um heideggeriano ortodoxo, ou seja, não sigo Heidegger como se ele fosse um ícone sagrado, protegido pelos sacerdotes das universidades que reverenciam a ipsíssima vox Heidegger de Sein und Zeit e Beiträge zur Philosophie. Não tenho a pretensão de agradar a ninguém e penso que ninguém tem propriedade sobre um pensamento público como de Heidegger. Respeito os doutores em Heidegger e gosto muito deles. Contudo, em nome de uma maturidade acadêmica, que preza em falar do pensamento de Heidegger e não dos "ditos e feitos" de Heidegger é que faço minha bazófia filosófica.

Hoje, em nosso quadro social brasileiro, vivemos um período ímpar. Não pelo fato de que movimentos sociais se levantam em todo país, senão pelo fato de que conseguimos observar e perceber os fenômenos que aparecem. Segundo Heidegger, vivemos sob a égide do esquecimento. Nossa construção social e nossa produção intelectual (inclusive marxista) simplesmente encobertou ou nos fez esquecer os verdadeiros fenômenos com suas teorias, fazendo-nos acreditar que muito mais importante que os fenômenos são suas teorias de explicação do real. Por isso, talvez, a revolução marxista, em suas tentativas adversas nunca deram certo. Ao invés do uso de instrumentais mostrativos que simplesmente fizessem mostrar por si mesmo a vontade e a necessidade do proletariado, de modo tal que eles por eles mesmos fizessem a revolução, tomou-se os meios como fim. As teorias marxistas que eram construções sobre a realidade como meio explicativo tornaram-se os fins. Ao invés de um sistema governados por proletários, tivemos sistemas governados por marxistas. Essa  inversão, fim pelos meios, de acordo com Heidegger, é a instalação da Gestell. A Gestell é um termo alemão que Heidegger utiliza em sua conferência "A questão da Técnica" para explicar a mudança da compreensão ontológica do real como "coisa", ente, para "disposição". No modo da Gestell os meios tornam-se fins, as coisas deixam de ser o fim e passam a ser meio e os meios, o uso, deixa de ser meio e passa a ser fim, disposição. Disposição é um modo de compreensão do ser das coisas de modo tal que disponho os entes no modo explorador. Ou seja, segundo Heidegger, a exploração tem um fundo ontológico que precisa ser resolvido antes de qualquer ação social, partidária, ideológica etc.

Analogando, todas essas teorias apenas velam o que de fato os fenômenos querem mostrar. Elas dispõem os fenômenos a partir de suas teorias impedindo que os fenômenos apareçam. Esse movimento alethético, como diz Heidegger, é o destino do ser que se destina na história. Contudo, parece que hoje, no Brasil, fenômenos surgem: movimentos em grande parte dos estados surgem pegando de surpresa muita gente, inclusive os teóricos sociais. Esses movimentos, fenômenos, irrompem velados sob preços de passagens de transporte coletivo se mostram por si mesmo num discurso, num logos apofântico, i. é, num logos não enquadrante de partidos políticos e ideologias marxistas. O logos deles é fenomenológico, ou seja, é mostrativo: quebra de ônibus, passeatas, barulhos, por fogo em bens públicos, etc. Não discutem sobre a dialética histórica das lutas de classes, não tecem comentários sobre esquerda e direita, não estão interessados se são mais ou menos fiel a Marx. Eles simplesmente irrompem, sem pedir licença, sem discursos racionais, sem partidos políticos, pois estão seguindo o destinar-se do ser na história, simplesmente acontecem (Ereignis) e no seu acontecer revelam o fim de teorias metafísicas como a luta de classes que por muito miopiatizou o dar-se dos fenômenos (basta olhar para a Escola de Frankfurt), a submissão gratuita, o sufocamento estatal etc. Esses fenômenos querem o fim da Gestell. A meu ver, ainda é cedo enquadrar esses fenômenos, como já apressadamente fazem alguns teóricos sociais para dizer que é fruto de suas teorias castradoras e metafísicas. Hoje, acontece esse movimento aqui em Campo Grande. Eu, como "nazista heideggeriano" para muitos, deixarei que o movimento aconteça, que o fenômeno se dê por si mesmo, sem querer que meu logos consiga coisificar esse fenômeno em minha teoria. 

Digo tudo isso, na verdade, não como forma de criticar A ou B, mas como uma forma de pensar. Heidegger mesmo diz que a filosofia morreu e eu concordo com ele. Não temos mais filosofia, temos, muitas vezes, falta de respeito, falta de humanidade, arrogâncias, corporativismos e abuso de poder. Resta, diz o filósofo nazista, voltarmo-nos ao pensar. É necessário que deixemos as teorias de lado e nos dediquemos a este "impensado" que só o pensar livre pode nos oferecer. É preciso fazer como os gregos originários, como Heráclito por exemplo, que não era filósofo, não fez doutorado de Filosofia em Oxford, mas simplesmente se atreveu a pensar. Mas isso, dizem os mais cultos, é "filosofia de buteco", sem rigor metódico, sem criteriologia, sem objetividade. Ou ainda outros diriam: é "filosofia do sexo dos anjos", pois não tem luta, compromisso social. Eu prefiro os comentários de bêbados do que ouvir certas coisas.

Fica aí meu "Protesto do Pensar"!

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