terça-feira, julho 23

AS CIÊNCIAS E AS BARREIRAS RELIGIOSAS

















Ontem, iniciaram as aulas e minha primeira contribuição para o "belo quadro social" - como diria o saudoso filósofo e poeta Raul Seixas numa de suas canções - foi tentar convencer os jovens cientistas das áreas humanas, especificadamente das licenciaturas, a levar em questão os problemas advindos do fenômeno religioso. Mas será que eu estaria convencido disso? Humanidades: Cultura Teológica é a disciplina que estou ministrando.

Apesar de ser uma disciplina frequentemente imposta pelas Universidades Confessionais e de propiciar empregos para filósofos que, como eu, só servem para estar em cursos de graduação em filosofia e nada mais, em minha fala de ontem, notei algo realmente relevante nesse tipo de disciplina. Me proponho a perguntar: que questões fazem da religião algo tão problemático para as ciências?

É impressionante como que o velho embate ciência e fé ainda é um tema a ser discutido. Diferentemente das posturas do passado que uma hora supervalorizou a fé desdizendo as ciências e outrora as ciências repudiando a fé, esse embate não pode continuar a assumir posturas antagônicas, muito menos polarizantes. É necessário repensar o próprio modo de colocar a questão. Deste modo, nem a Universidade Confessional deve querer impor, com esta disciplina, uma "doutrinação" disfarçada, nem deve as ciências prescindirem da discussão religiosa. A meu ver, essa disciplina traz a tona a problemática de como deve ser um diálogo entre ciência e fé. Poderia dizer: Religião, por que não? E por que sim? Trazer a tona tal problemática contribui significativamente para que barreiras religiosas possam ser quebradas.

O que chamo de "barreiras religiosas" são justamente os comportamentos tanto do lado das ciências quanto do lado da fé (ou da religião se preferir) que impedem o diálogo. Quando uma ciência se recusa a discutir qualquer postulado, tachando-o de "cientificamente comprovado"; quando alguém perde a cabeça porque um outro invadiu o seu "canto sagrado" ou porque mexeu nas "suas coisas"; quando algum religioso se recusa a aceitar que sua fé pode ser melhorada pela razão; quando recusamos ou ironizamos tudo o que vem de questões religiosas; quando ignoramos qualquer possibilidade de equívocos e apostamos nas certezas absolutas; tudo isso e muito mais são barreiras religiosas. Estas barreiras, que muitas da vezes estão ocultas, podem aparecer e bloquear o diálogo. E uma vez bloqueado o diálogo, comprometemos nossa condição de humanos.

Pelas barreiras religiosas percebemos a segunda implicativa que uma disciplina como essa (Cultura Teológica) nos traz, a saber: os condicionantes humanos. Quando nos dispusermos a travar um diálogo entre fé e razão, de modo a quebrar as barreiras religiosas, abre-nos o horizonte deste diálogo que é a própria condição humana. As ciências costumam dizer que o que fazem são em prol da humanidade, mas não se perguntam: para qual humanidade? Quem é a humanidade das ciências? Elas mesmas? Haveria sentido ciência pela ciência? Quem é a ciência? Ter na vista, como horizonte, a própria condição humana é o desafio de qualquer ciência e essa perspectiva só se abre quando questões limiares, como a problemática religiosa, é posta no rol das questões passíveis de serem discutidas.

Enfim, de tanto trabalhar essas questões acabei deixando me levar por uma barreira religiosa e me esqueci a profundidade e a importância que disciplinas como essa que estou lecionando agora podem contribuir para mim e para jovens cientistas.

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