domingo, julho 28

"VENHA O TEU REINO" REFLEXÃO SOBRE A LITURGIA DOMINICAL DO DIA 28/07/2013


Fui convidado, de modo súbito, pelo Rev. Carlos Calvani, em decorrência de sua ausência, para motivar a reflexão bíblico-litúrgica neste domingo (28/07). Apesar da impossibilidade de execução do convite, tanto no aspecto da autopreparação quanto da legalidade que cabe a mim - pois somente clérigos regularmente incardinados e legitimamente aceitos na Comunhão Anglicana tem esta faculdade - aceitei esta tarefa como um desfio pessoal.

Pois bem, a liturgia anglicana para este domingo, em consonância com a tradição católica, propõe as leituras: Gn 18, 20-33 e Lc 11, 1-13.
Um rápido olhar pelos dois textos, de tradições culturais longínquas entre si, parece querer indicar, para a liturgia deste domingo, a discussão do tema da intercessão. Digo isso, por exemplo, pensando na própria escolha dos dois textos que trazem, em primeiro plano, a presença da oração como ato mediador entre Deus e os homens e a figura do mediador: Abraão e Jesus. Contudo, proponho-me a não tocar nessa temática, que, a meu ver, é teologicamente ambígua demais, uma vez que, a partir dela, se desdobram problemáticas como a compreensão dos santos enquanto co-mediadores junto a Deus ao lado de Cristo e que dividem católicos por um lado e evangélicos por outro. Ao contrário, quero indicar para esta liturgia a reflexão de dois outros temas, que, numa perspectiva pessoal, são condições de possibilidade para a própria temática da intercessão. Tendo presente esse dado, que Deus me ajude e que me perdoem os teólogos...

Sob um primeiro prisma, tanto a narrativa do texto de Gênesis quanto a exortativa evangélica lucana tocam, não em primeiro plano, mas como uma pré-compreensão, na temática da revelação de um rosto de Deus. Tanto no diálogo travado em Gênesis quanto em Lucas um rosto divino é pressuposto como preparação para a temática da intercessão. É sobre esse rosto de Deus presente necessariamente que quero fazer minha primeira digressão. 

Logo no início do texto de Gêneses recortado pela liturgia dominical, qual seja, o verso 20, aparece, repticiamente, a compreensão que o autor tem do Deus que travará diálogo com Abraão, i. é, "Javé" (YHWH). Essa compreensão é importante pois, é a partir dela, que se entende todo o diálogo posterior. O "Deus javista", uma das compreensões hebraicas mais antigas, é o mesmo que aparece em Gênesis 3, 8, um Deus que "passeava no Jardim", e o mesmo de Êxodo 3, 14 que aparece e dialoga com Moisés. Ao fazermos essas interpolações textuais, percebemos que uma das grandes características desse rosto divino é o diálogo. Javé, o Deus que é o que é, é o um Deus que prima pelo diálogo com os homens. A ideia de um Deus que dialoga remete a ideia de um Deus próximo, de um Deus que "desce para ver" (v.21). Somente um Deus que está junto pode dialogar. E mais, somente um Deus que não tem medo de perder sua condição divina, que não tem medo de se misturar com suas criaturas, pode verdadeiramente ser Deus. 

Essa mesma proximidade divina mediante o diálogo é presente no texto de Lucas. O capítulo décimo primeiro da exortativa lucana, em seu primeiro versículo, começa dizendo que "Jesus estava rezando em certo lugar". Se nos atermos aos momentos descritos pelos Evangelhos onde Jesus orava, percebemos que a oração de Jesus é sempre um diálogo com Deus. Entretanto, isso é apenas um indício indireto. O dado que comprova a imagem do Deus dialogante está, justamente, na oração que ele ensina a pedido de um de seus discípulos; isso, no caso do texto lucano, pois em Mt 6, 9-13, a "oração do Senhor" aparece dentro do contexto do chamado "Sermão da Montanha". A oração que Jesus ensina começa aludindo a pessoa de Deus a uma imagem muito cara, a imagem do "Abbá". O Abbá de Jesus, que foi traduzido para o latim como "Pater", perdeu muito do seu sentido originário, sobretudo, pelo modelo de paternidade conhecido pelo ocidente e pela crise da paternidade. Com efeito, muitos, ainda hoje, tem resistências de aceitar a imagem do "Deus Pai" remetendo à suas experiências e vivências pessoais com os pais. Para tentar solucionar esse impasse, não de ordem religiosa, é muito comum no meio teológico a atribuição da figura materna ao Deus de Jesus, o que não é de todo equivocado quando olhamos para alguns textos de Isaías (Cf. Is 43, 4) ou mesmo quando João identifica a imagem divina com o próprio amor em si.

Somente quando compreendemos a ideia que Jesus quer passar quando chama Deus de Abbá é que fica claro a segunda parte do texto lucano, ou seja, os versos 5 a 13. O Abbá de Jesus é, a meu ver, um aprofundamento do rosto dialogador de Javé. O escândalo promovido por Jesus, ao chamar Deus de Pai, - isso porque a tradição judaica, de modo geral, acabou criando uma barreira entre Deus e os homens nem podendo mais pronunciar seu nome, colocando no seu lugar o termo Adonai, ou seja, "o Senhor" - nada mais é do que romper com o moralismo judaico frente a Deus retomando a antiga imagem de Javé, o Deus dialogador. Compreendendo isso, é fácil visualizar porque Jesus, logo após a oração do "Pai-Nosso", como ficou conhecida, dá vários exemplos de como deve ser a relação com Deus, inclusive fazendo um paralelo com a amizade, e insiste: "pedi e vos será dado; buscai e achareis" (v.9). 

Contudo, o que implica chamar a Deus de "dialogador"? Várias coisas, mas gostaria de dar ênfase em duas delas: a proximidade e a liberdade. Javé ou Abbá de Jesus é um Deus próximo, encarnado, comprometido e misturado às suas criaturas. Ao contrário de muitas imagens distorcidas que a humanidade criou ou revelou de Deus, o Abbá é aquele que não tem medo de perder sua condição divina por estar encarnado em nossa história. É um Deus que se faz poderoso não porque pode fazer tudo, mas seu poder se mostra em sua capacidade e disposição de estar junto conosco. Esse Deus "poderosamente fraco da bíblia", parafraseando Etienne Babut, está totalmente na contramão do "Deus do impossível" muito cantado por aí. É um Deus que seu poder se faz no serviço e no amor gratuito aos homens. Essa imagem resiste no texto de Gêneses em questão mesmo que alguns ainda insistam em questioná-la a partir do desdobramento do capítulo dezenove com a destruição de Sodoma e Gomorra. Nos versos 20 e 21, Javé fala a Abraão que há um clamor contra Sodoma e Gomorra e que ele irá averiguar, não há menção nem formal nem informal de que Javé queira destruir a cidade. Abraão é que se adianta e já acusa Javé de juiz destruidor. Da boca de Javé não há o desejo de destruição, somos nós é que já construímos um julgamento e condenamos. 

As consequências dessa proximidade de Javé é a "ousadia em falar"de Abraão. Abraão só interroga Javé porque sabe que ele é o Deus dialogador e, por assim ser, sabe que não há um destino traçado, ou seja, Deus não decide tudo sozinho, mas nos convida a dialogar sobre nossa própria liberdade. Esse é o segundo ponto importante de um Deus dialogador. Seja com Javé ou com o Abbá de Jesus, diálogo é permeado pela liberdade. Ao se propor a dialogar Deus não quer impor um destino para nós, ao contrário, procura discutir conosco nosso modo de participação em sua vontade. Essa liberdade no diálogo é muito forte nas metáforas que Jesus utiliza chegando a dizer que "embora [o amigo] não se levante para ajudá-lo por motivo da amizade, pelo menos  por causa da importunação se levantará e lhe dará o que precisar" (v.8), ou seja, mesmo que Deus não concorde com o que se pede ele, ao menos respeitará sua decisão de assim o proceder. A liberdade, enquanto respeito à decisão pessoal, está acima da própria decisão eterna da divindade. Quem se propõe e dialogar deve pressupor a liberdade daquele que fala e Deus por ser o dialogador por excelência respeita essa liberdade e nos chama a discutir nosso modo de agir frente ao seu projeto de amor. Assim, a tônica do "pedir", insistido por Jesus, não está numa mera petição, como se Deus fosse nosso grande mercado provedor de tudo, mas a petição, aqui, nos aponta para o dado do diálogo aberto, franco e livre para com Deus.

O segundo prisma de compreensão dos dois textos propostos pela liturgia deste domingo é o próprio conteúdo do diálogo. Em outras palavras, o tema da intercessão, proposta central da liturgia deste domingo e que se encontra em primeiro plano, não pode prescindir de discutir o que e como interceder. Não basta interceder é necessário saber como fazê-lo. Nesse viés é que se abre o problema do conteúdo da intercessão que está presente em segundo plano nos textos. Tanto Abraão quanto Jesus, nas suas funções de mediadores, indicam qual conteúdo é importante num diálogo com Deus. No texto de Gênese, Abraão fala com Javé sobre o destino de uma comunidade: Sodoma e Gomorra. Por outro lado, Jesus, ao chamar a Deus de Abbá, automaticamente nos transforma em irmãos, criando um clima espiritual de fraternidade universal. Esses dois dados revelam que o conteúdo do diálogo com Deus, muito mais que uma conversa intimista ou egoísta deve nos levar a um comprometimento com o outro. Tanto a interpelação abraãnica quanto a oração do "Pai-Nosso" são diálogos que nos fazem rever nosso comprometimento com nossa comunidade. Ao contrário de muitas espiritualidades famosas no mercado religioso, que prima pela petição egoísta e intimista e que transforma a fé num grande "bordel" - eu paguei e por isso quero me satisfazer -  o diálogo com Javé ou o Abbá de Jesus é na verdade um questionamento sobre nossas próprias atitudes. 

A liberdade dialogal que Deus nos oferece não nos permite inverter a "ordem natural das coisas", i. é, me tornar um deus servido por Deus. Mas tal liberdade é um convite a repensar nosso compromisso pessoal e social para com o Reino de Deus. Isso se torna quase evidente quando realmente entendemos a "oração do Senhor" que muito propriamente já foi intitulada a oração da fraternidade. Não é atoa que Lucas escreve "venha o teu reino" ao invés de "venha a mim", "dá-nos" ao invés de "dá-me", "perdoa os nossos pecados", ao invés de "meus pecados". Também não é de graça que Lucas coloca na boca de Jesus a metáfora de um homem que procura seu amigo porque não tem nada a oferecer a um terceiro que chegou a sua casa. Não poderia Lucas ter dito que uma amigo busca outro para satisfazer suas necessidades pessoais? Mas Lucas, na dinâmica da oração do Senhor dá um exemplo prático de como deve ser nosso diálogo com o Abbá de Jesus, um ato que busca não benefícios, progressos, prosperidade, emprego, namorada etc, etc etc., mas é sensível às necessidades da comunidade em que está inserido. O diálogo com o Abbá de Jesus deve visar sempre a comunidade, a petição insistida pelo Jesus lucano é aquele que leva em consideração nossa real condição de pessoas limitadas e inter-dependentes uns dos outros e que essa limitação pode ser plenificada na presença edificante do Abbá, pois o que sou se não uma extensão de minha comunidade?

Por fim, agradeço ao Rev. Calvani a oportunidade de poder fazer essa reflexão sobre uma questão tão importante para a vivência em comunidade e espero que essas palavras assim como edificou a mim no processo de preparação da liturgia, possa também atender ao apelo da oração do Senhor, qual seja, que "venha o teu reino".

Prof. Victor Hugo   

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