quinta-feira, agosto 22

ANTROPOTEORIA HEIDEGGERIANA DE ATAQUE AO HUMANISMO













Gostaria, neste pequeno post, comentar sobre as considerações heideggerianas sobre o "anthropos", ou, como diz Heidegger, sobre o humanitas, contida em sua carta endereçada a Jean Beaufret e que ficou conhecida como "Carta ao Humanismo". É claro que, de antemão, Heidegger, como as demais propostas, incorre numa "Antropoteria", ou seja, pode ser considerado como mais uma proposta antropológica. A questão aqui, portanto, não é uma defesa ao autor exposto, senão apresentar tal proposta.

De modo geral, Heidegger entende que o movimento do Humanismo não é solução, ou pelo menos, não apresenta questões relevantes para o problema do "anthropos". Isso se deve por duas razões: uma de ordem mais sócio-política e outra de ordem mais filosófica. Sob a perspectiva sócio-política, o movimento humanista nada mais é do que um modismo dos famosos "ismos". O Humanismo, enquanto compreensão moderna, generaliza a essência humana na sua instância púbica, implicando, inclusive, a perda da existência privada, já que esse tipo de mercado humanista - o Humanismo - se sustenta por um processo de objetificação do humano. Sobre esse problema, Ser e Tempo, lembra Heidegger, já havia alertado quando apresenta o modo de ser da impessoalidade ("Man").

Contudo, essa perspectiva imprópria do humano carrega consigo uma questão mais grave ainda. Uma questão filosófica de fundo é a base do insucesso do Humanismo no seu âmbito sócio-político. Essa questão tem a ver com o modo como foi postulado a ideia filosófica de "Humanismo", que remonta à época da Renascença que, por sua vez, remota à ideia romana de "humanitas". A humanitas, diz Heidegger, se refere ao homo humanus contraposto ao homo barbarus. O homo humanus é aquele que foi formado pela paideia grega e essa tem por modelo antropológico a noção do zoon logon, i. é, o "animal racional".

Duas questões implicam nesse modelo, que segundo Heidegger, é a base filosófica de todo humanismo. A primeira é o tipo de logos que faz a diferença específica do gênero próximo animalia. O logos assumido por esse modelo antropológico é o da subjetividade moderna que simplesmente vê no homem a sua capacidade de ser cogito, ou seja, é a transformação do anthropos em Sujeito. Radicalmente bipartido, a res cogitans determina o Sujeito, que nada mais é do que um cognoscente frente à res extensa, realidade material a qual se deve controlar. Por outro lado, tomando por base o gênero próximo animalia, tem-se claramente uma postura naturalista e biologizante do anthropos e, novamente, tem-se uma compreensão reduzida do mesmo. Tanto a consideração do anthropos como Sujeito quanto animalia, alerta Heidegger, não conseguem expressar  totalidade da complexidade do humano, pelo contrário, planificam a humanidade num único plano, i. é, no plano dos entes. Tanto a compreensão moderna do congnoscente quanto a compreensão naturalizante trazem todas as dimensões humanas para um único plano, o plano da entificação, o plano da "coisa", despersonificando o anthropos. Mas o que tem de perigoso nisso?

Segundo Heidegger, a entificação do humano - a transformação do ser humano em coisa - tem por base uma compreensão filosófica da metafísica. A metafísica, em sua pretensão de falar do ser dos entes, se esquivou de uma compreensão do ser e planificou sua construção teórica em cima do ente. Essa constatação ficou conhecida no tratado heideggeriano de 1927 Ser e Tempo de "esquecimento do ser". O esquecimento do ser levou Heidegger, em 1928, a demonstrar a chamada "diferença ontológica", i. é, nos textos sobre o problema do fundamento, o filósofo se esforça em mostrar que o esquecimento do ser só foi possível porque há uma diferença fundamental entre ser e ente que não foi antevista pela tradição metafísica. Na pretensão de ser falar do ser, falou-se do ente. Assim também ocorreu com o problema antropológico. Toda construção antropológica, na busca da determinação do ser do anthropos, não se atentou para a distinção de ser e ente, reduzindo o ser do humano ao ente humano. As consequências, mais radicais, deste nivelamento insurgiu na "era da técnica", quando a técnica, enquanto compreensão ontológica das relações entre humano e as coisas - enquanto mediação e não meramente um instrumento - inverte essa relação e transforma a mediação em fim e fim em mera mediação. Essa inversão de fins e meio, comenta Heidegger, reifica o anthropos e permite que este possa ser explorado.

Portanto, diz Heidegger, o humanismo não libera a compreensão autêntica do humano, ao contrário, se traduz num movimento de redução do mesmo à uma coisa que pode ser manipulada e ser usada como instrumento pela própria técnica. Não haveria modo de prender o anthropos se ele fosse visto em sua real condição de anthropos, i. é, como abertura da pergunta pelo ser. E essa abertura se dá pela linguagem. Assim a única morada do ser do homem é a linguagem, nela e por ela ele se expressa se faz ser-aberto-ao-mundo, não coisificado, nem manipulável por nenhuma tendência político-religiosa de base metafísica.

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