sexta-feira, agosto 30

FILOSOFAR: ATITUDE NATURAL(?) HUMANA



Fichamento da formação do Grupo de Estudo do Projeto de Extensão Filosofia em Cena


= Segundo Giles, e é esse o título de seu primeiro capítulo - Filosofar, uma atitude natural no homem - o filosofar é, primeiramente, uma atitude e, por segundo, é natural no homem.

= Com isso, nos perguntamos: pode o Filosofar ser uma atitude natural? O que implica dizer essa assertiva? Propomos ir um pouco além do texto do Giles.

= O que é natural?

= Em rigor, o filosofar será aqui denominado de pensar/filosofar para: estabelecer uma ligação com o pensamento, tirando do filosofar um traço alienígena e excludente (como só os filósofos pudessem filosofar) e manifestar uma diferença, nem todo pensar é filosofar.

Natural como intrínseco: de fato, todos podem pensar, todos nascem dotados com as faculdades do entendimento e com aparatos cognitivos. Mas podem todos, naturalmente, alcançar o pensar/filosofar? Parece, a meu ver, que a capacidade, a possibilidade, a potencialidade não é a discussão aqui.

Natural como corriqueiro: naturalmente, ou seja, corriqueiramente, banalmente o homem pergunta e é perguntado. Perguntar como uma atitude corriqueira ou de ordem natural é da ordem da linguagem, da comunicação da interação social. No cotidiano, o perguntar pode alcançar um pensar/filosofar? Parece, a meu ver, que a ordem natural, essa ordem ordinária do cotidiano, banal até, de interação e comunicação diária não está em questão aqui.

Natural como atitude cognitiva: por termos naturalmente aparatos cognitivos, naturalmente somos inclinados e desejosos ao conhecer. Isso já dizia Aristóteles na sua obra Metafísica. Tanto o senso comum quanto as ciências positivas pensam. Mas, ambas alcançam o pensar/filosofar? Parece, a meu ver, que a atitude cognitiva não está em questão aqui.

O que se quer com esse distanciamento do pensar/filosofar? Nenhum enobrecimento ou supervalorização desse tipo de pensamento. Posturas como essa não refletem, à luz do filosofar, nenhuma caracterização do pensamento filosófico. Ao contrário, é justamente no mais natural dos naturais que nasce o pensar/filosofar. O que se quer é garantir uma instância própria ou uma atitude própria para o pensar/filosofar, retirando deste modo de compreender a filosofia qualquer proposta ou tentativa de vê-la como uma mera reflexão das ciências (epistemologia) como quiseram várias correntes de matriz positivista, naturalista e neokantiana. Faço eco à voz de Husserl em seu texto A ideia da Fenomenologia que defende o pensar/filosofar como uma atitude do espírito diferenciada da atitude natural (Cf. meu comentário sobre a primeira lição da obra de Husserl postada neste blog). 

Neste ponto, divergimos de Giles, pois, a meu ver, entendendo a filosofia na ordem natural é se posicionar na esteira de uma compreensão filosófica "epistemologizante". O que significa dizer que a única diferença entre filosofia e ciência são os métodos, ou seja, a filosofia seria apenas mais uma ciência com métodos requintados. Esse tipo de postura não reflete o longo processo de compreensão do pensar/filosofar efetuado histórico-culturalmente pelos diversos "pensadores". Toda tradição do pensamento ocidental não pode, simplesmente, ser empacotada numa conceituação limitante e pouco reflexiva como a da evocação epistemológica.

Pensar/filosofar como atitude: Trazendo para o palco de discussões Edmund Husserl, considera-se que Giles acerta numa coisa: pensar/filosofar é uma atitude! Husserl, passando por Bergson, já afirmava que toda instância da consciência é uma ação, uma atitude. Toda consciência é "consciência de...", i. é, é uma ação intencional, é uma intervenção direta na construção do que se chama por real e a velha dicotomia de pensar e fazer - que justamente quis enterrar todo e qualquer pensar metafísico (por ser ele puramente filosófico) - não mais se sustenta querendo fazer acreditar que o pensar seja uma antítese do fazer. A noção de Marx de que a filosofia deve deixar de ser puro pensamento e passar a ser transformação da realidade só tem sentido se compreendemos que devemos mudar nosso conceito do que é o pensar.

Atitude do pensar/filosofar como olhar crítico: Giles propõe que a atitude filosófica, o pensar/filosofar, é um "olhar crítico". Isso é fundamental para o pensar/filosofar quando se recorre ainda à divisão que Husserl faz de atitude natural e atitude filosófica. Diz Husserl: "A atitude espiritual natural não se preocupa ainda com a crítica do conhecimento" (IP, 39). Fazer o pensar/filosofar é questionar criticamente, é "aprender a ver o real", diz Giles. Ao contrário do que nos parece, o real não está dado. O tempo todo interferimos e modificamos o real e, nesse sentido, pensar/filosofar é agir, é transformar o real. Ter que aprender a ver o real é aceitar que as coisas estão por fazer e devem ser feitas criticamente, isso quer dizer que devem ser feitas com critério. Tecer uma crítica é saber escolher os pontos necessários que permitam emitir um juízo. Ser crítico não é falar mau de tudo e de todos, é, na verdade, reconhecer que determinados pontos são importantes para um julgamento e que sem eles o juízo incorre em equívocos. O pensar/filosofar contribui significativamente para isso uma vez que ele oferece os critérios necessários ao julgamento e sabe que a realidade não está aí, dada pronta, mas está por fazer.

Os problemas não são problemas para o pensar/filosofar: Quem se atreve a pensar, atreve-se a  meter-se em encrenca. Todo pensar/filosofar crítico reconhece problemas. Os problemas são as molas propulsoras para o pensar/filosofar. Reprochar os problemas é se afastar do pensar, encará-los como aquilo mesmo que fará brotar a solução é atitude do pensar/filosofar. Heidegger, em sua conferência A questão da técnica, citando Hölderlin, diz: "Ali onde mora o perigo, cresce também a salvação". Parafraseando o sentido heideggeriano da frase de Hölderlin, podemos dizer que onde moram os problemas crescem junto as soluções. Percebemos que as sabedorias populares antigas já tinham essa intuição quando vemos no texto da Torá judaica a personagem Moisés, inspirada por Javé, estender num mastro uma serpente venenosa e pedindo ao povo que a reverenciasse a troco de saúde. (Nm 21, 4-9). Problemas são sinônimos de ação e não de invalid-ação. Muitos não se aventuram a pensar/filosofar por considerar tal atitude uma perda de tempo. Isso ocorre justamente pela compreensão errônea que se tem do pensar e do real. Soluções, diz Popper, são válidas até serem falsificadas.

E o que isso tem a ver com cinema? Tudo. A imagem-movimento, que é o cinema, é uma realidade que não está dada. A fotografia é alguma coisa que não pode ser mudada. O movimento é totalmente o contrário, é uma realidade líquida que está por fazer. Apesar de muitos insistirem em reafirmar que o filme já está pronto, que o sentido do filme já está impresso, uma cena pode sempre ser re-vista. O movimento está sempre aberto à novas percepções. O movimento pressupõe um pensar que se distinga pela sua capacidade de ir além do aparentemente dado. Ao contrário de uma fotografia ou um objeto científico (que deve ser isolado num laboratório), o movimento nunca é captado. O que podemos captar são momentos do movimento, mas quem faz a síntese do mover somos nós, porque nossa consciência também é movimento. Assim, pensar/filosofar é uma atitude crítica necessária para compreender a realidade do cinema, pois:
a) o pensar/filosofar não toma a realidade como dada: na imagem-movimento não existe realidade, existe movimento e este pode ser configurado, sintetizado e re-estruturado como momento.
b) o pensar/filosofar é crítico: na imagem-movimento os momentos são postos em uma duração tal que muitos momentos são despercebidos. Um pensar/filosofar, por ser crítico, consegue identificar critérios necessários para levantar problemas que aparentemente não são problemas. Eleger problemas não é algo tão simples.
c) o pensar/filosofar é integral: movimento é síntese durativa de momentos. Nenhum momento é isolado e é justamente isso que forma a imagem-movimento. O pensar/filosofar garante a integralidade reflexiva dos momentos dos momentos, ou seja, entende que um momento só dá conjunto de outro momento.
d) o pensar filosofar visa o pior: enquanto que as ciências positivas visam o definitivo, o seguro e o irrefutável, o penar/filosofar visa a finitude, instabilidade, a fragmentação e liquidez que é própria de movimentos. Contudo, a intensão não é simplesmente ficar nesse nível, mas é perceber que nele há sínteses fundamentais que contribuem para o pensar.

Texto: GILES, T.R. O que é filosofar? EPU, 1984.

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