sexta-feira, setembro 20

A MODA STAND UP E A CRISE DO CONTEÚDO


Ontem fui convidado para assistir a uma "palestra" da Semana Nacional do Trânsito ministrada pelo famoso professor e filósofo, conhecido nacionalmente, Mário Sérgio Cortela. O ilustríssimo companheiro de profissão e de mesma área de trabalho, em uma hora de fala, trabalhou algumas ideias ligadas às temáticas da responsabilidade, das escolhas, e do malefício das drogas, sobretudo, o álcool, no trânsito. Pessoalmente falando, eu admiro muito o professor Cortela. Já assisti bastante vídeos dele no youtube e, simpaticamente, gosto do seu jeito alegre e bem humorado de tratar temáticas filosóficas que, normalmente são um tédio. É um homem culto que sabe lidar com as coisas mais difíceis que tem em sua profissão: o público e a filosofia.

Contudo, ontem, saí com a sensação de que não tinha ido a uma "palestra", mas tinha participado de um "stand up" de auto-ajuda. O sr. Cortela, se muito, mencionou três ou quatro ideias centrais (e quando digo ideias, me refiro a "frases de impacto" sem nenhum tipo de aprofundamento) circundadas por comentários escrachados da vida privada. No fundo, eu dei boas risadas. A questão, que aqui quero levantar, não é o fato de um exímio filósofo, como o prof. Cortela, fazer a "filosofia do palhaço" - contar verdades com tonalidades de mentira - , mas a questão é porque esse estilo, especialmente em nossa atualidade, faz tanto sucesso? O que leva pessoas tão preparadas como Cortela e outros se renderem ao estilo stand up se querem ser escutadas? Por que as pessoas não querem mais ouvir?

Mas esse "mal " não atacada somente a academia ou professores renomados, mas todos os setores da sociedade. Um professor que não estoura seus alunos de tanto rir, é tachado como antiquado e com deficiências em didática. O sucesso do Lula como presidente do país se deve mais pela sua mania de quebrar protocolos do que como um bom estadista. Um bom profissional, hoje, é aquele que tem bom humor e consegue fazer todo mundo rir. Até João Paulo II ficou famoso "rodando" sua bengala e pessimamente falando - com seu português com sotaque: "o papa é brasileiro...". Tudo isso mostra que a moda stand up, o chamado humor de cara limpa, não tem sido apenas uma prerrogativa de humoristas, mas uma exigência metodológica. Se me perguntarem que ideias Cortela trabalhou em sua stand up palestra, eu não saberia responder, mas se me pedir para recordar de alguma piada que ele contou, te conto todas e em ordem...

Não é que não sou apreciador de uma boa dose de humor. Nem estou fazendo uma apologia contra a piada ou contra quem faz stand up. O que levanto é que fazâ-lo tem se tornado uma exigência em qualquer área, tem se tornado uma técnica, um método e uma necessidade, sobretudo no ramo da fala oral. Não importa se você é especialista no assunto, a questão é: se você é "dinâmico" (palavra que disfarça a ideia de que a pessoa é engraçada, bem humorada). A meu ver, isso demonstra um movimento de subsunção do conteúdo à forma. Cada vez menos o conteúdo tem sido tomado como critério para a escolha de uma pessoa para uma determinada fala. Essa crise do conteúdo não é um movimento que nasceu com o método stand up, mas vem tomando forma desde o advento das mídias de massa. Ou seja, essa crise não tem uma procedência natural, mas faz parte de uma estratégia de reduzir o pensar das massas. Como já previa Orwell, uma das formas mais eficazes de controle social é troca do conteúdo por formas vazias e sem sentido como o humor e a pornografia. 

Com efeito, a moda stand up permitiu que a crise do conteúdo adentrasse nos meios acadêmicos, meio esse que mantinha a ditadura do conteúdo sobre a forma, no sentido de repasse do conhecimento. Essa entrada concretizou uma das últimas formas da crise do conteúdo: a crise do ouvir. Hoje, a única coisa que ninguém quer fazer é sentar é ouvir. Ouvir uma palestra de uma hora chega a ser uma tortura para qualquer público, de qualquer idade. Bom mesmo é assistir um show stand up que não precisamos ouvir, mas apenas nos deixar levar por piadas chulas, escrachando nosso dias a dia, onde damos risadas de nós mesmos, nos expondo ao nosso máximo ridículo. Saímos satisfeitos depois de um stand up que esculachou sobre gordos, homoafetivos, pobre, sexo, falta de sexo, feiura etc. Ou seja, saímos satisfeitos quando rimos de nossa própria desgraça. 

Essa modalidade stand up que impera em nossos dias como uma necessidade metodológica de fala oral para qualquer área, implantando a crise do conteúdo e do ouvir, me faz lembrar os mais acirrados movimentos céticos. Sobretudo, Michel de Montaigne. Montaigne, no auge de seu ceticismo renascentista do século XV, se debruça sobre as "misérias" individuais humanas como a única possibilidade de se fazer filosofia. Essas descrições da vida privada, em seus níveis mais tenebrosos, esforçam-se por enxergar uma face desprezada da nobreza francesa da Renascença. Desse modo, falando daquilo que ninguém queria falar e de um jeito bizarro que ninguém o faria, Montaigne eleva seu método cético e mostra a falência dos grandes sistemas metafísicos. Todavia, em sentido bem oposto, os stand up de hoje, ao invés contribuir para uma revisão de nossos sistemas, se alinham justamente com os movimentos que querem implantar um ceticismo na grande massa como forma de amortecimento e alienação (em linguagem bem marxista). Nesse sentido, a moda "stand up palestra", designada de "humor de cara limpa", a meu ver, nada mais faz que transferir a pintura de palhaço da face do atrista para o expectador.

2 comentários:

  1. Muito oportuno seu post, remete-nos ao que se transformou a cena no brasil moderno, pouco "pão" e "circo" em excesso.Oque se nos aguardo o futuro próximo?

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  2. Concordo plenamente, se não temos mais "pão" (poderia dizer isso literalmente), temos circo em excesso e palhaços é o que não falta (nós, obviamente). E sua pergunta procede, caso tivermos ainda futuro... Valeu pelo comentário!

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