segunda-feira, setembro 30

TENHO MEDO DE ME DECLARAR RELIGIOSO
















Certa vez, eu ministrava uma disciplina num curso de teologia e um experiente aluno (experiente no sentido cronológico) de matriz teológico-evangélica me indagou sobre uma antiga, e até possível (bíblica?) teoria de que o ecumenismo seria, na verdade, obra de Satanás... Perguntado sobre minha opinião a respeito, eu, então, lhe respondi: "É verdade! Concordo plenamente com o senhor. O ecumenismo é, de fato, uma obra demoníaca! Pois, no dia em que as "facções cristãs" sentarem para uma discussão séria sobre o ecumenismo, elas se matarão!!!!"

Na verdade, minha ironia naquela hora se tornou um desabafo e a turma, em coro, gargalhava, mas com um nó na garganta sabendo da seriedade e dramaticidade da situação. 

A poucos dias, mais ou menos a um mês atrás, acontecia a famosa "Marcha para Jesus" aqui em Campo Grande. Mui repercutida nacionalmente ficou essa marcha pela discussão gerada entorno de um artigo escrito pelo Rev. Calvani e publicada no Jornal Campo Grande News sobre o pronunciamento do pastor e líder desse movimento Silas Malafaia que, com tonalidades agressivas, endemonizava seus adversários tanto no âmbito político quanto no religioso. A tônica da discussão lançada pelo reverendo anglicano nas redes sociais foi as implicações sócio-políticas do movimento fundamentalista evangélico que tem crescido de modo avassalador e tem interesses partidários claros. Contudo, como sempre, o grande problema da ala fundamentalista evangélica, e de modo geral de todo o fundamentalismo, chama-se "hermenêutica", i. é eles não conseguem fazer uma análise interpretativa séria. Como se não bastasse a fraca exegese bíblica que esses grupos fazem, quando fazem, evangélicos fanáticos e sem nenhuma compreensão crítica rebateram o artigo chegando ao ponto de ameaçarem o religioso anglicano com ligações anônimas argumentando que tal artigo era "preconceituoso" e anti-evangélico. Ou seja, não li nenhum comentário postado no Campo Grande News sobre o artigo do religioso anglicano disposto a discutir sobre o problema do fundamentalismo religioso e suas implicações práticas no campo social e político. Ao contrário, li comentários citando passagens bíblicas, dizendo que só Jesus salva, condenação à idolatria, e ataques à pessoa de Calvani.

Mutatis mutandi, o interessante é que esses mesmos evangélicos que levantaramm a bandeira por "liberdade religiosa" contra o Calvani, e fazem isso desde o nascimento da reforma protestante, constroem castelos para condenar movimentos LGBT, movimentos afro-descentes, movimentos espíritas, e todos aqueles que não estão a seu lado. Essa aparente contradição pode ser perfeitamente explicada, não em terrenos religiosos ou bíblicos. Lendo o Blog Cartas e Reflexões Proféticas no post do dia 26/09, "a religiosidade pau de arrasto", Dom Orvandil Moreira Barbosa, bispo da Igreja Anglicana Tradicional, faz uma excelente reflexão que pode contribuir para entender o que ocorreu em Campo Grande. Explica Dom Orvandil: 

"Os fundamentalistas são extremamente 'políticos' no sentido de que atuam em favor do mercado. O que obedece a um lógica por parte deles. Temem o fortalecimento do Estado, principalmente de um modelo que invista nos direitos sociais e na elevação da consciência cidadã e de direitos do povo. Tremem em face da laicidade do Estado porque sabem que um povo consciente e culto não será massa fácil de manobrar nem de explorar, Avaliam que a qualidade de vida elevará a percepção de que fé e chantagem emocional na ênfase de curas e milagres não se coadunam, que conhecimento, ciência e educação popularizadas tirarão muitos 'clientes' que sustentam o luxo e chantagem que os faz ricos e 'influentes'. Por isso temem o Estado e sua alma laica"

A famosa "Marcha para Jesus", para Jesus não tem nada. Deveria se chamar, muito mais, "Marcha para Brasília" ou "Marcha para o poder", pois como bem explica Dom Orvandil, o temor maior dos fundamentalistas evangélicos não são as religiões rivais ou as "facções cristãs", mas o perigo iminente que a Marcha quer combater está na intensificação do Estado democrático. Uma democratização do Estado passa necessariamente pela democratização das religiões, já que a religião, nesta teoria política, nada mais é do que um produto da cultura e do desenvolvimento humano; o que quer dizer que os enormes interesses subjetivos de grupos que se escondem  atrás da bíblia, do terno e da gravata, devem ser repensados e reorganizados. O fundamentalismo, que nasceu como uma corrente teológica de interpretação bíblica como forma de criticar as teologias racionalistas (sejam ela de matriz protestante, seja de matriz católica), desde o século XVIII, sempre teve como pano de fundo brecar as aplicações sociais da bíblia e neutralizar a teologia para o campo privado da subjetividade humana, apenas como um guia moral, enquanto que os interesses capitalistas se avolumavam e esmagavam a sociedade em desigualdades. Isso porque, acrescenta Dom Orvandil: "... para os fundamentalistas não importa a verdade, mas o que eles denominam de verdade".

A meu ver, há ainda um segundo ponto de cunho teológico que explica a adesão de grupos fundamentalistas com a política capitalista de matriz direitista. Segundo um documentário disponível no youtube sobre a história do protestantismo, o primeiro embate entre protestantes e católicos, antes mesmo de Lutero escrever suas 95 teses, foi o dogma da transubstanciação (Cf. pré-reformadores: John Wycliff, John Hus e Jerônimo de Praga). Ou seja, o problema teológico da presença real ou não de Jesus na ceia, levou o movimento protestante a abandonar a ceia como sacramento e se fixar na "Palavra de Deus". Aparentemente, tal dado nada diz do que estamos falando, mas o abandono da eucaristia como sacramento, levou ao abandono da ideia de comunhão, muito cara no cristianismo primitivo e, sobretudo, para o próprio Cristo. Com o abandono da ideia de comunhão, a fé foi se tornando essencialmente um âmbito privado de experiência com a Palavra de Deus, ou seja, a fé deixa sua dimensão social e passa a ser entendida nos porões da subjetividade humana. Quanto mais distante ficou dessa ideia inicial de comunhão, mais individualista e mais próxima aos ideais capitalistas da fé de conquista individual de salvação. Aliada a essa ideia relembro o famoso tratado de Weber A ética protestante e o espírito capitalista. Esse dados históricos mostram que os interesses de uma volta literal à bíblia, mesmo que os protestantes históricos não pertençam a essa ala de fundamentalistas e reservando-lhes o respeito em sua teologia, o fundamentalismo bíblico tem, de alguma forma um pé teológico nas origens protestantes que, por sua vez, tem outro pé nos interesses do capital.

Assim, depois de passar o burburinho sobre essa temática aqui em Campo Grande, escrevo essas bazófias como apoio incondicional ao direito de liberdade de expressão, que muitas vezes me dá o direito de gritar: "tenho vergonha de me declarar religioso, tenho vergonha de dizer que sou cristão! 



3 comentários:

  1. de fato, discutir o fundamentalismo como um problema está ficando cada dia mais difícil. Acredito que seja pelo fato de que o fundamentalismo é baseado no medo, todo fundamentalista tem medo que tudo e todos esteja conspirando por alguma coisa, todos tem má intensão, etc...nisso a teologia é libertadora, mas para quem tem medo, liberdade é risco..

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  2. Olá meu irmão Marcos,
    concordo plenamente contigo, o medo é uma das estruturas constituintes do fundamentalismo, assim como seu aliado mais comum: o terror. Medo e Terror alimentam a paranoia, sobretudo de quem já não está muito aprumado...

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  3. ótimos escritos. está muito bom seu blog mestre abraçs.

    Adonis

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