terça-feira, outubro 8

DA POBREZA À INVISIBILIDADE














Este texto foi escrito quando eu ainda era frade franciscano e reflete um pouco sobre o voto de pobreza que tais religiosos fazem. O que aqui faço é uma tentativa de atualização, ainda que insipiente, deste voto a partir da realidade Latinoamericana.

A pobreza é uma dimensão que tem sido (desde a sua origem) uma verdadeira cruz para a história franciscana. O que podemos compreender pela pobreza franciscana? Muita coisa e ao mesmo tempo nada, dependendo do modo como a percebemos. Para Francisco, ela sempre foi a dimensão que marcou toda a sua vida. Parece que seu chamado foi determinado por ela, pois desde os primeiros gestos de mudança de atitude, a venda das armaduras cavalheirescas, passando pelo seu casamento com a “Dama pobreza” e terminando com sua morte nua sobre a irmã terra.

Contudo, a intuição da pobreza não foi original de Francisco nem muito menos exclusiva do movimento franciscano, pelo contrário, era própria do contexto medieval dos mendicantes a busca pelo ideal de pobreza. O século XIII foi marcado por vários movimentos que buscavam viver uma pobreza radical, talvez pela opulência na qual a Igreja institucional vivia. Sem muito adentrar nestes detalhes históricos, o importante era que parecia que a manifestação de Deus vinha dos pobres, já que muitos foram os chamados movimentos penitenciais. O franciscanismo, neste sentido, foi um desses penitenciais, com uma diferença fundamental: ao invés de usar da violência, procurou revolucionar a medievalidade mediante uma pregação da Paz e do Bem, o que foi uma verdadeira reforma na Igreja.

Esta intuição da pobreza marcou não só o franciscanismo, mas perpassou a Igreja em vários movimentos, principalmente a vida religiosa que acabou se vinculando aos conselhos evangélicos a dimensão da pobreza. Contudo, o tempo fez o papel de agregar a esta dimensão elementos que não são dela, como o peso da renúncia e do sacrifício, sobretudo, no período da volta da grande disciplina no final do século XVIII e inicio do XIX. No século XX, a América Latina, a partir da experiência com os pobres e inspirados pelo Concílio Vaticano II, fazem uma guinada naquilo que se compreendia por pobreza. Aquilo que nos séculos passados era sinônimo de penitência e mortificação pessoal como construção de santificação para a vida depois da morte, passou a ser entendido como promoção de solidariedade às classes menos favorecidas do Terceiro mundo. O tom sacrificial e da renúncia da pobreza se converteu numa dinâmica de abertura solidária aos pobres e marginalizados latino-americanos. A pobreza não seria o não-ter, mas o dar-totalmente.

Ainda sim, a experiência latino-americana foi aos poucos sendo desenraizada e os tempos mudaram. As categorias sociais dos pobres e marginalizados foram se diluindo em outras nomenclaturas e formas de ação social, perdendo sua força enquanto “pobres de Javé”. Hoje, há um abismo entre fé e política, entre vida e espiritualidade. Se a pobreza como traço essencial da experiência mística de Francisco inspirou uma ação concreta e solidária aos leprosos do século XX, no século XXI as coisas já não possuem mais esta força. Falar de pobres hoje em dia virou chavão político e marketing eleitoreiro; excluído ou marginalizado, discurso marxista se referindo à TL (teologia da libertação). Como podemos hoje re-prensar a dimensão da pobreza franciscana? Será que já não há mais necessidade de tocarmos neste assunto? Aquilo que moveu Francisco e os franciscanos durante muito tempo, hoje caiu no esquecimento não sendo mais necessário nos preocuparmos com os pobres, ou com o cuidado da pobreza?

A meu ver, creio que as coisas não passam pelo descrédito ou pela perda da necessidade. O que temos hoje é a dimensão dos pobres e da pobreza encoberta pelo manto da “Invisibilidade”. O que é isto? Para mim, a pobreza franciscana tem um novo desafio: des-velar a pobreza que aí está. Na época de Francisco, os leprosos eram “entulhados” fora dos muros de Assis, como verdadeiros pecadores ou amaldiçoados por alguma entidade do mal. Hoje, os muros de pedras já não existem mais, entretanto, os muros da indiferença são levantados em cada esquina que passamos nas grandes metrópoles como sinal explícito de uma invisibilidade. O invisível, quem ele é? É todo ou toda que está ai, mas ninguém faz questão de ver. Para melhor compreendermos os invisíveis nos bastam alguns exemplos. Quando se fala de miséria e pobreza, a pós-modernidade fala de números e estatísticas. Os números não possuem rostos, não tem nome, não tem sexo, não tem história, não tem dignidade, não tem individualidade, mas é sempre massa e volume. São os “porcentos” da sociedade, ou seja, não são nada.

Os invisíveis já não possuem mais uma classe social definida como no caso dos marginalizados de D. Helder Câmara, dos pobres de D. Pedro Casaldalida, dos indígenas de Chico Mendes, dos oprimidos de Paulo Freire, dos leprosos de Francisco e das prostitutas de Jesus de Nazaré. Hoje, os invisíveis, é qualquer um e ninguém ao mesmo tempo (...) É a favela do Rio, é o homossexual, é o telespectador, é o ouvinte das homilias dominicais, é o cidadão e o bandido, é o silêncio e o grito ao mesmo tempo, é a cadeia e a Igreja, é o gari, a prostituta é o próprio irmão (...) é o vazio e nada mais... Contra quem lutar, se todos e ninguém pode estar debaixo das muralhas da invibilidade? Não se pode pensar em um confronto de massas pobres e massas ricas, paises pobres e países ricos, globalidades contra regionalidades, pois todas são invisíveis. Como poderemos assumir a missão franciscana na sua essência vocacional da pobreza se não vemos, não sentimos, não pisamos no seu chão, não reconhecemo-lo em nós mesmos? Quantos de nós reconhecemos que precisamos de ajuda? – reconhecimento do vazio. Quantos de nós paramos para escutar o outro? – reconhecimento do grito. Quantos de nós vamos em ambientes considerados indignos: favelas, cadeias, bolsões de miséria, lar familiar? – reconhecer o abismo

A invisibilidade é uma invenção pos-moderna. Todos produzimos invisíveis. Até nós, franciscanos, que somos guardiães da mais legítima forma de pobreza, produzimos invisíveis: o irmão que mora conosco, o paroquiano, a opção pelos pobres, o voto de pobreza... Ou muitas vezes damos preferências à outros tipos de invisíveis: o bem-feitor, o dizimista, etc... Como enfrentar este tipo de situação? Como podemos pensar em mantermos nossa vocação sem produzir mais invisibilidade? O segredo está no fato de que o invisível está velado. Não temos mais claramente aqueles que nossa opção de pobreza nos apontava, temos uma barreira invisível diante de nossos olhos que nos faz velar a todos, os tornando invisíveis. Nossa tarefa enquanto franciscanos é des-velar os invisíveis que nós mesmos criamos, para só então assumirmos de vez nossa missão enquanto pobres.

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