quarta-feira, novembro 13

POR QUE EU NÃO TENHO "FEICE"?


O título não está errado, antes de você meter um comentário aí embaixo dizendo: "o cara nem sabe escrever Facebook e quer falar mal...". É assim mesmo que deve ser escrito porque é assim mesmo que dizem, é assim mesmo que esse fenômeno aparece no real. Por que não tenho o diabo do "feice"? Quero explicar.

Muita gente já me criticou porque toda vez que me perguntam: "passa seu contato no "feice", eu digo: "não tenho "feice". O assombro é geral: "OOOHHHH!!!!!!!!!!!!! Como isso é possível!!!!!?????? Você tem que ter!!!!!" E aí, segue aquela lista de vantagens tentando me convencer o quanto essa tecnologia é importante para minha vida... Essa é a constante resposta que recebo sempre que me perguntam sobre esse assunto. Já estou me acostumando.

Contudo, quero explicar (pela zilhonésima vez) porque não tenho "feice". Facebook, versão melhorada do antigo e finado Orkut (que Deus o tenha), idealizado por um "brasileiro" (tinha que ser!!!), nada mais é do que uma rede social. Ou seja, um lugar onde você acredita que está em contato com o mundo. Em muitos casos e para muita gente, contanto com o "mundo real".

Ao contrário do que parece, de que as redes sociais nos proporcionam liberdade, estamos vivendo numa "Ditadura do Feice", onde fora do Facebook, não há salvação. Expressões (tão verdadeiras quanto esdrúxulas) já invadem nossas vidas: "Feiço - logo existo!". Esse é justamente o motivo que me faz não ter essa peste. Por traz desse arsenal de liberdade e interação global, como se possuir um "feice" fosse sinônimo de "atualizado", progresso, "estar ligado no mais moderno mundo", "anti-ultrapassado" (pois, até minha tia de mais de 80 anos já tem seu "feice" com medo de estar "velha"), há uma escravidão e uma velhacaria que poucos percebem. Hoje em dia, o pano de fundo do "feice" chama-se "fofoca"! Quem não gosta de saber, mesmo que seja um pouquinho, da vida, sobretudo das desgraças, dos outros? Esse é hoje o grande motivo de porque muitos aderem, sem ao menos refletir, a este programa: a vontade louca de poder bisbilhotar ou ser bisbilhotado. 

Só que quem acha que isso é algo moderno, está redondamente enganado. Fofocar é uma atitude mais velha que andar pra frente. Não é atoa que as pessoas, antes de ler o jornal, dar um bom dia para os familiares, trabalhar ou fazer qualquer coisa, tem que dar uma olhadinha no bendito para saber quem curtiu, quem deixou de curtir, quem brigou, quem casou, quem morreu, quem traiu, quem sacaneou e por aí vai....

Até mesmo as empresas hoje, quando vão fazer entrevistas para emprego, ou mesmo de seus funcionários, estão olhando primeiro no "feice". É uma onda de exposição barata e fofoca que me pergunto: isso me traz mais feliz? E aquelas pessoas que não conseguem mais sair desse círculo vicioso? Sobretudo jovens e adolescentes que até leiloam suas virgindades...

Muitas coisas eu sou obrigado a engolir: um capitalismo selvagem e injusto, desigualdades sociais, pessoas morrendo de fome, países esmagando outros países, impostos injustos, leis injustas, políticos corruptos, impunidades, violências, cinismos, falsidades, os bancos me roubando todos os dias, tudo isso eu não posso evitar porque estão acima de minhas forças e não consigo lutar sozinho. Mas há uma coisa que eu não posso aceitar é me obrigarem a entrar na lógica do "feice" com o vergonhoso discurso moderno de que é uma forma de estar em contato com os outros. Tenho de me submeter a muitas coisas, mas aquilo que posso dizer NÃO, isso sim, eu não perco o meu direito. Não ter esse troço, é uma forma de dizer para mim mesmo que há uma instância de mim mesmo que pertence a mim e é inalienável e nada me fará deixar essa resistência contra o Facebook. É uma forma de dizer que não concordo com essa lógica de que todos devem saber de todos, quem estabeleceu isso?

Já me perguntei um dia: por que os bancos enriquecem tanto? A resposta mais óbvia que consegui achar é o fato de todos nós pormos dinheiro neles. Somos nós que enriquecemos os bancos e são eles que precisam de nós. Se um dia, todos os cidadãos de bem, numa única vez retirasse seu dinheiro dos bancos, ele faliria. Nós nos indignamos com os bancos, mas aceitamos a sua lógica. A mesma coisa acontece com o "feice", é ele que precisa de mim e não contrário, contudo como a aceitação é tácita e sem reflexão entramos e acabamos sendo engolidos por esse vírus na nossa vida. E, aí vemos muita gente indignada no que viu no "feice".

Bem, você agora, depois que conseguiu suportar a leitura desse texto e foi vitorioso porque chegou até o final, com certeza está puto e pensando: "esse cara que escreveu isso é um babaca, ele não sabe o que está escrevendo". Te desafio a provar que eu estou enganado, se tiver coragem: "se exclua do feice agora!"

Até a próxima (no feice)!

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