sexta-feira, janeiro 24

PENSAR: CONDIÇÕES HISTÓRICAS E ONTOLÓGICAS DO PENSAMENTO

















INTRODUÇÃO

O presente ensaio é uma reflexão sobre o pensar. Nessa reflexão, dois aspectos serão dispostos como critérios de análise de seu escopo: o problema da perspectiva histórica do pensar e o papel ontológico do pensar. Tais discussões, sob esses critérios, são possíveis partindo de um pressuposto, qual seja, a facticidade do pensar. 

De modo geral, pretende-se apresentar de modo crítico e analítico o papel do pensar na compreensão histórica e ontológica do ser humano, o que implica especificadamente em discutir, sugestivamente, a essência do pensar, ou pensar essencial, em distinção com o pensamento popular e científico-calculador, revelando seu papel ontológico. Ademais, relacionar o pensar com sua perspectiva histórica: o problema da verdade e da temporalidade.

A FACTICIDADE HERMENÊUTICA DO PENSAR

Tradicionalmente, o pensamento filosófico tem usado para definir o ser humano a expressão aristotélica “animal racional”. Essa, por sua vez, foi assumida pelo pensamento ocidental e, até hoje, há ecos de sua validade. Essa definição, porém, implica em tomar a “razão” como uma “faculdade” de um organismo vivo, i. é, implica dizer que o adjetivo racional é uma diferença específica para o conceito animal. Seria o mesmo que dizer: a razão, a racionalidade, é um apêndice importante e condicionante daquela matéria viva. Com efeito, fazer uso dessa definição sem maiores reflexões, de algum modo, é abrir uma série de questões, pois reduz as possibilidades tanto da animalidade quanto da racionalidade. Por exemplo, dizer que o ser humano é “animal racional” seria o mesmo que dizer que os seres não humanos não possuem ou não desenvolveram racionalidade? Esse é apenas uma das muitas questões que se abrem com essa definição. Sem entrar no mérito dessa questão, apenas pode-se dizer que as filosofias mais contemporâneas, a partir de várias reflexões antropológicas, conseguem dar grandes passos a esse respeito.

Mutatis mutandis, o retorno desse problema aqui – da definição do ser humano como animal racional –, ao contrário de se abrir a questão antropológica subjacente a ele, apenas serve para o aprofundamento do conteúdo da razão. Quando se fala de razão, ao menos na filosofia, muitas coisas podem ser desdobradas além, é claro, da própria faculdade do raciocinar. Especificadamente, interessa-nos da razão o ato de pensar. Pensar, quando se olha mais de perto, não é sinônimo de razão. A razão pode contribuir com o pensar, mas ambos não podem ser a mesma coisa. O que se compreende por razão são aqueles atos diretamente relacionados tanto com a percepção quanto com o assentimento de juízos. É a faculdade que permite idear o mundo percebido e julgar proposicionalmente sobre ele. A razão é aquela que recebe a doção originária na percepção e representa idealmente esse dado de modo a assentir juízos. É a capacidade do calcular, do imaginar, do fazer ciência.

Enquanto que pensar o vai além do raciocinar. Pensar é questionar, é “pro-vocar”, é “com-vocar”, é auto-convocar. O pensar é se entregar a uma questão e ser tomado pelo próprio interrogar. Pensa-se, quando se põe por inteiro, quando se entrega tudo o que “é”. Nesse sentido, Parmênides teria razão quando disse que “pensar e ser são o mesmo”. Isso significa que o pensar emerge no âmbito do ser e não pode ser tomado como uma “vantagem evolutiva” na compreensão do homem, mas pensar é “fazer-se-ser”. Se a razão consegue assentir mediante os princípios lógicos, chegando a uma verdade formal, o pensar, de modo diverso, pensa a partir da própria linguagem e é a abertura para a verdade, pois emergindo do ser, o pensar só o é enquanto linguagem, como informa Heidegger no seu texto da Carta sobre o Humanismo[2].

Com efeito, como sei que penso? Em que momento meu ser emerge na linguagem em forma de pensar? Será que penso que penso? Antes mesmo de responder a essas perguntas, pela própria distinção entre pensar e razão, é importante dizer que o pensar é anterior a todo ato de raciocinar. Essa anterioridade pode ser constatada na própria pergunta pelo pensar. Quando me pergunto pelo pensar constato que, antes da pergunta pelo pensar, me é presente o pensar, o contrário seria impossível perguntar pelo pensar. Isso que impulsiona a perguntar pelo pensar é o próprio pensar pré-manifestado. É um pensar anterior a todo pensar que implica o ser. É esse pensar que a fortiori permite refletir, raciocinar, questionar... Assim, fica evidenciado a pré-manifestação do pensar. Essa evidência do pensar é um fato, ou ainda, é fato que penso. O fato de ser fato que penso, enquanto pré-manifestação do pensar, revela a facticidade do pensar. Essa constatação, da facticidade do pensar, é um desdobramento da própria facticidade do pensar dada pela teorização do pensar, fruto da razão. Assim, a razão permite que eu teorize o pensar, por sua vez, a razão só é possível graças ao pensar. Há um círculo hermenêutico entre o pensar e a razão.

Quando se tem consciência que pensa, em função da pré-manifestação do pensar, esse pensar se desdobra, racionalmente, em objeto de razão, i. é, em pensamento. Pensamentos nada mais são que objetivações do pensar efetivadas pela racionalização. Assim, um pensar objetivado racionalmente é um pensamento e é utilizado pela razão em suas atividades. Fica assim, mais uma vez evidenciado o dado hermenêutico da facticidade do pensar, já que sem a razão não se pode objetivar, transformar o pensar em objetos de razão, por outro lado, sem o pensar não há o que ser objetivado pela razão. O pensamento, por sua vez, faz o círculo girar sendo ora vazio, indeterminado, mas carregado de todas as possibilidades do pensar e ora determinado como objeto de razão. Pode-se, seguramente, afirmar que a facticidade do pensar é hermenêutica. Essa consciência hermenêutica da facticidade do pensar, capaz de produzir pensamentos racionalizáveis e discutíveis é o que chamamos de Filosofia.

Filosofar é, portanto, o trabalho racional de reconhecer a facticidade hermenêutica do pensar em sua produção de pensamentos. Esses pensamentos, por serem racionalizáveis, i é, por estarem determinados como objetos de razão são finitos e estão condicionados pela temporalidade e pela cultura da razão. Isso significa que não são absolutos, mesmo possuindo a amplitude indeterminada do pensar. A Filosofia, portanto, trabalha com pensamentos e não da conta do pensar. E por trabalhar com pensamentos, objetos finitos da razão, pode se equivocar e se reduzir ao mero dado. A Filosofia, assim, não consegue fazer pensar, como já dizia Kant: ninguém ensina ninguém a filosofar. Entretanto, a Filosofia tem a consciência da facticidade hermenêutica do pensar, ou seja, a filosofia sabe que é fato que se pensa, mas ela mesma é incapaz de pensar, pois trabalha com pensamentos. Nesse sentido, qual é o desafio da Filosofia hoje?

Vive-se, hoje, quase que como um modismo, a chamada “era do fim da filosofia”[3]. A Filosofia, como foi dito, reconhece a facticidade hermenêutica do pensar, mas ao se efetivar trabalha com pensamentos. Há ainda um agravante. A Filosofia hoje se vê no desafio de raciocinar o irraciocinável, ou seja, se vê pressionada pela mentalidade tecnicista que não permite raciocinar para além do técnico, útil e rentável, quanto mais o pensar... Por que então é necessário Filosofia na atualidade? Que proveitos teremos com ela? De alguma forma, o pensamento vigente mostra algo importante: a Filosofia faliu. Faliu porque não dá conta do pensar, e sim, só lida com pensamentos. Há algo ainda a fazer? Na esteira de Nietzsche, Heidegger e Derridá, acredito que temos que superar a Filosofia. A Tecnociência, hodiernamente, responde a todos os anseios e isso também é fato. Vive-se a Facticidade da Técnica e impensável é se posicionar contra esse fato.Desse modo, essa introdução do ensaio que se segue não quer falar de soluções para a Facticidade da Técnica. Pelo contrário, quer-se pensar, na importância da superação da Filosofia a partir da Facticidade Hermenêutica do Pensar.



[1] Texto introdutório e base do curso História do Pensamento Humano ministrado na FATHEL em 24/01/2014.
[2] “El pensar lleva a cabo la relation del ser con la esencia del hombre. No hace ni produce esta relation. El pensar se limita a ofrecersela al ser como aquello que a el mismo le ha sido dado por el ser. Este ofrecer consiste en que en el pensar el ser llega al lenguaje. El lenguaje es la casa del ser” (HEIDEGGER, Carta sobre Humanismo).
[3] Cf. Hegel, Marx, Nietzsche, Wittgenstein, Heidegger.

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