terça-feira, janeiro 7

RESENHA: A ARTE DO ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO









Esta resenha tem como objetivo apresentar os principais pontos trabalhados por Rollo May em sua obra A arte do acompanhamento psicológico, e tentar traçar algumas considerações a respeito. 
Tal produção, apesar de se pretender crítica, não alcançará uma profundidade como se esperaria de uma “resenha dita crítica”, tendo em vista que tal resenhista não é perito neste ramo das ciências do espírito, muito menos transita pela área psicoterápica; contudo será suficiente para que tais comentários contribuam ao leitor interessado na mesma.
            Rollo May[1] é psicoterapeuta americano ativo, iniciou seus estudos em Viena, sendo que, na oportunidade participou de seminários dirigidos por Alfred Adler. Retornou à Nova York, onde concluiu seus estudos. É autor de vários livros publicados pelas Vozes como: Amor e vontade, O homem a procura de si mesmo, Minha busca da beleza e outros.
            A obra é na verdade um manual prático para o acompanhamento psicológico (como o próprio título já se refere) na linha psicanalítica de Freud, Jung, Rank, Kunkel e Adler. Ela foi ela montada a partir de palestras dadas pelo autor nos “Seminários de Educadores da Igreja Episcopal, na Carolina do Norte e Arkansas (EUA)”[2].  Neste sentido, tem a pretensão de encobrir uma deficiência nesta área da psicologia, como menciona May (1996, p.10), i. é, do acompanhamento psicoterápico intensivo por não-psicólogos:
As bibliotecas estão cheias de livros sobre psicologia popular, e não há falta de livros para os interessados na profissão de psicoterapia intensiva. A necessidade premente é para aqueles que não querem ser psicoterapeutas, mas precisam de algo sobre o funcionamento interior da personalidade.         
           
Para trabalhar a Personalidade, fio condutor de sua obra, divide a em três partes. A primeira é caracterizada pelo embasamento teórico dos princípios fundamentais. É subdividida em quatro capítulos, sendo o primeiro uma descrição prévia da personalidade. Segundo May (1996) a totalidade exterior do ser humano reflete uma estrutura interna que se pode chamar de “personalidade”. Tal categoria, em âmbitos europeus, receberia o nome de “alma” para uma tradução simplista do termo grego yuch, contudo, a melhor forma de se expressar, em linguagem americana é o termo personalidade.  Partindo da psicanálise, o autor elenca os dois, dos quatro, princípios-base da formação da personalidade: a liberdade – “é função do aconselhador levar o aconselhando a aceitar a responsabilidade pela direção e pelos resultados de sua vida” (MAY, 1996, p. 21) – e a individualidade – “é função do aconselhador auxiliar o aconselhando a achar o seu si-mesmo verdadeiro e então ajudá-lo a ter coragem de ser esse si-mesmo” (MAY, 1996, p. 29). O segundo capítulo ressalta a importância do terceiro princípio, i. é, a interação social, no aprofundamento e determinação do si-mesmo, bem como o quarto e último princípio formador da personalidade: a tensão espiritual. O terceiro capítulo versa sobre as tensões e os ajustamentos feitos pela personalidade na busca de evitar as neuroses bem como as psicoses, o valor não determinante dos fatores externos, como o ambiente social e a importância da criatividade como sinônimo do reajustamento das tensões de personalidade. Por fim neste quarto capítulo da primeira parte apresenta como “chave do processo de aconselhamento” a empatia. Terminologia traduzida do alemão (einfuhlung) literalmente por sentir dentro, significa este estado de identificação mais profunda de personalidades em “uma pessoa se sente tão dentro da outra que chega a perder temporalmente a sua própria identidade” (MAY, 1996, p. 65).
A segunda parte segue os passos práticos para um bom aconselhamento. Esta possui uma subdivisão interna em três capítulos. O primeiro faz uma leitura prática do que May (1996) chama de “Leitura do Caráter”, ou seja, identificar no aconselhando traços visíveis de seu caráter. Inicia May (1996), com os esquecimentos e deslizes, que querem se parecer com erros involuntários, mas na verdade são profundamente propositais, o que Freud vai chamar de “ato falho”. Outra leitura está no que o autor denomina de “constelação da família”, i. é, dependendo do status (em sentido sociológico) que tal indivíduo teve em sua família, este influenciará na constituição de sua personalidade. O segundo capítulo trata da confissão e da interpretação. Consoante May (1996), a confissão – ato de por para fora todos os problemas – é a “viga mestra tanto do aconselhamento como da psicoterapia” (p. 107). Tendo a confissão, o aconselhador parte para a interpretação, que nada mais é do que a reorganização dos fatos trazidos pelo aconselhando de modo a encontrar a fonte de desajuste da personalidade. É importante a participação de ambos (aconselhando e aconselhador) neste processo. Para ilustrar tal metodologia, May (1996) relata um exemplo de uma confissão interpretada por ele (caso de Bronson). No terceiro capítulo o autor aborda o resultado prático do acompanhamento, que é a transformação da personalidade. Em primeiro lugar, adverte May (1996, p. 124): “a personalidade não se transforma pelo conselho”, mas sim pelo “fermento da sugestão”. Outra forma também é “apresentar ao aconselhando todas as alternativas construtivas” (p. 127), na qual se utiliza a função criativa da compreensão. Cita também a “influência que resulta do relacionamento empático” (p. 129) como uma interação acompanhante-acompanhador. É possível se efetuar a transformação mediante a utilização do sofrimento: “o aconselhador não deve aliviar seu aconselhando do sofrimento, mas sim direcionar o sofrimento para canais construtivos” (MAY, 1996, p. 133). Entretanto, mesmo com estas formas, não se pode desprezar a “misteriosa criatividade da vida” (MAY, 1996, p. 135), na qual possui uma autonomia nas transformações positivas de personalidades.
            A terceira e última parte diz respeito às conclusões e considerações finais do autor. Tem uma subdivisão em três partes: A personalidade do aconselhador, na qual tenta responder a pergunta: o que faz de alguém um bom aconselhador?; A moralidade e aconselhamento, ressaltando a importância moral do trabalho de acompanhamento; e a Religião e a Saúde mental, falando da influência desta para com aquela.
            Efetuado uma breve síntese da obra de May (1996) passe-se neste estágio para uma avaliação crítica da mesma. Sob o olhar da forma, a obra possui um desenvolvimento progressivo e sistemático no qual contribui para uma boa apreensão da totalidade. Sua linguagem simples e acessível resignifica conceitos duros e fechados da ciência psicológica facilitando a compreensão daqueles que não sendo da área se inteire do assunto. A metodologia prática e manualística facilitam justamente o processo desejado pelo autor que é a práxis do aconselhamento. A delimitação temática é pertinente àqueles que não pertencem à área, já que, tendo como fio condutor a personalidade, oferece um cabedal teórico mínimo, mas suficiente para uma abordagem psicológica. Em se tratando da matéria, a obra é rica em conceitos bem explicitados e bem fundamentados. Tendo por base a psicanálise, principalmente de Freud, Jung, Rank, Kunkel e Adler, é competente e perito em tais conteúdos, tanto é que, recheia sua obra com notas explicativas, de modo a complementar seus fundamentos. É salutar também ressaltar que, para quem é de fora da área, seria importante a afirmação que a psicanálise não é única maneira de abordagem da personalidade, mas possuindo também a psicologia comportamental, gestalt, logoterapia, e outras. Outra observação importante é que quando May (1996) aborda pensamentos filosóficos, não possui propriedade para tais citações, se utilizando delas em uma visão psicológica apenas, sendo necessárias explicitações em níveis filosóficos.
            Enfim, em se tratando do confronto entre pretensões e objetivos da obra com sua construção cognitiva, pode-se dizer que May atinge com precisão tal pretensão. É uma obra em nível manualística, embora rica em conteúdos, com aplicações práticas para serem aproveitados principalmente por aqueles que trabalham com aconselhamento, sejam eles pedagogos, líderes religiosos, e próximos do gênero.


MAY, Rollo. A arte do aconselhamento psicológico. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 1996.


[1] Biografia extraída da própria obra.(orelha)
[2] Extraída da própria obra (orelha).

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