sexta-feira, janeiro 10

REVELAÇÃO E SUBJETIVIDADE: RESUMO











Fichamento do sexto capítulo da obra Revelação e Subjetividade do teólogo João Batista Libânio. Este fichamento, feito no período de minha graduação de Teologia, pode contribuir aos jovens teólogos a compreender o problema da revelação a partir da reflexão deste teólogo. Aproveito para fazer minha memória póstuma a ele.

FONTE: LIBÂNIO, J. B.
Resumo do Capítulo Sexto: Revelação e Subjetividade

1-INTRODUÇÃO
Ø  “(...) a descoberta da subjetividade[1], que assumiu a forma de crescente individualismo, pertence a um de seus traços indiscutíveis [da modernidade]”. (p. 165)
Ø  “A auto-experiência se faz mediadora para a compreensão da realidade. Estabelece-se um círculo hermenêutico[2]. De dentro de sua experiência, o homem compreende a realidade, e a compreensão da realidade, por sua vez, amplia-lhe a compreensão da experiência. A experiência é o limite do conhecimento[3].”
Ø  “Esse círculo hermenêutico acontece na compreensão da revelação
Ø  “A revelação não é a comunicação a partir de cima dum saber fixado uma vez por todas. Designa, ao mesmo tempo, a ação de Deus na história e a experiência de fé do Povo de Deus que se traduz numa expressão interpretativa dessa ação[4].
Ø  “A revelação é, na verdade, sob o aspecto de conhecimento, uma interpretação marcada pelas condições históricas, pelas experiências daquele que crê. Por isso o conhecimento do universo experiencial daquele que crê é fundamental para entender a revelação.” (p. 166)
Ø  “(...) pode refletir-se em dois níveis. (...) a priori[5], (...) condição mesma de possibilidade do ser humano de defrontar-se com a revelação (K. Rahner). Noutro concreto, a partir de experiências determinadas, analisadas fenomenologicamente.”
Ø  “(...) o ser humano tem sinais de abertura e fechamento em relação à revelação: Como se adquire inteligibilidade dessa dupla realidade: da estrutura antropológica e da revelação?”

2-ABERTURA DO HOMEM MODERNO EM FACE DA REVELAÇÃO
Ø  “(...) há duas posições extremas. A posição neo-escolástica, que desconhece praticamente as condições do sujeito e estabelece critérios objetivos de justificação da revelação. E a posição de L. Feuerbach, segundo a qual a revelação não passa de projeção de anseios e carências humanas.” (p.167)
Ø  “(...) de um lado, reconhece a objetividade da revelação, mas de outro, sabe que tal objetividade defronta-se com condições subjetivas humanas, que condicionam sua apreensão.”
Ø  “Esta problemática obnubilou-se para o mundo católico grandemente por causa da polêmica antimodernista.”
Ø  “Os católicos se habituaram muito a uma concepção puramente conceptualista da verdade e por conseguinte também da revelação. O diálogo com o homem moderno se fez difícil.”
Ø  “A modernidade trouxe também em seu bojo histórico elementos que favorecem a percepção da revelação. Com efeito, a secularização, apontada como um dos traços da modernidade, foi tratada pela teologia da década de 60, talvez um pouco ingenuamente, mas não sem parcela de verdade, de maneira bastante positiva.” (p.168)
Ø  “[H. Cox] assinala três elementos principais da fé bíblica que estão na origem da secularização: o desencantamento da natureza com a criação, a dessacralização da política com o Êxodo e a desconsagração de valores com o pacto do Sinai.”
Ø  “[K. Rahner] O mundo secularizado continua sob o desígnio salvífico de Deus, penetrado por sua graça. Não está na condição de ser absolutamente ateu, ainda que na dimensão da reflexão seja assim interpretado.”
Ø  “[M. de Certeau] o homem moderno (...) está empapado de cristianismo. Essa marca cristã indelével fá-lo aberto culturalmente à revelação.”
Ø  “Pode-se dizer que o ser humano em todas as épocas se pergunta pelo sentido de sua vida[6]. (...) Mas talvez o homem moderno ainda seja mais perseguido pelas perguntas fundamentais” (p.169)
Ø  “(...) a vida reserva-lhe momentos em que não pode fugir da pergunta existencial profunda do sentido da vida, tais como a morte, doenças graves, fracassos ou momentos de profunda alegria e felicidade.”[7]
Ø  “Em meio a um mundo profundamente individualista e até mesmo egoísta, a cada dia somos surpreendidos por gestos de abertura, de solidariedade, de amor e entrega ao outro até as raias do heroísmo. Sociólogos, politólogos, psicólogos debruçam-se sobre tais fatos para interpretá-los” (p.170)
Ø  “Nessas situações acorda no coração humano esse sentimento profundo de altruísmo[8].” (p.171)

3-REFLEXÃO TRANSCENDENTAL
Ø  “(...) nossa reflexão sobre a teologia da revelação [tem como] ponto de partida (...) a situação desse homem moderno na sua dupla condição de distancia e proximidade em relação a esta revelação.” (p.172)
Ø  “Será que as inquietudes, angústias, desejos, buscas do homem moderno são sinais de que ele é feito para uma participação mais profunda, mais íntima com Deus trino que se revela na história?”
Ø  “O aspecto dialético[9] aparece no sentido de que a situação do homem é interpretada à luz da revelação e a revelação é, por sua vez, reinterpretada, levando em consideração tal situação.”
Ø  “(...) temos dois fatos diante de nós. De um lado, partimos de que existe uma revelação, dentro da qual vivemos, pensamos e somos. Doutro, somos assolados por dúvidas, angústias, perguntas fundamentais, experiências radicais, busca insaciável de sentido, etc. a pergunta teológica consiste em estabelecer uma relação de inteligibilidade entre os dois fatos. Será que tal situação existencial revela, no fundo, uma abertura a tal revelação? Será que a revelação vem responder a essas perguntas?” (p.172-73)
Ø  “Tomar como ponto de partida perguntas nascidas da experiência existencial significa para a teologia uma virada antropocêntrica. (...) A posição tradicional trabalhava com um método dedutivo, apriorístico, ‘von oben’ – de cima –,katábasis, definindo primeiro o conceito de revelação a partir de uma postura intelectual, por sua vez, também abstrata e apriorística.” (p.173)
Ø  “O método transcendental[10] situa-se no horizonte da virada antropocêntrica. Supõe-se a aceitação da revelação num horizonte de fé e de dentro desse horizonte se pergunta pelas condições de possibilidade existentes no ser humano em relação a esta aceitação. Esta virada antropocêntrica implica também uma nova concepção antropológica. A teologia usa mediações de outras ciências, sobretudo da filosofia.”
Ø  “Quem crê é um ser humano, jogado dentro dessa realidade humana[11]. Refletir sobre tal realidade é tarefa da filosofia. Mas quem está jogado nessa realidade é um cristão, cuja intelecção de si não se faz sem teologia. Por isso, tal reflexão se faz numa unidade.”

4-HORIZONTE GERAL DA REFLEXÃO
Ø  “Esta reflexão processa-se no horizonte transcendental (...). Transcendental aqui não se opõe a imanente, como se fosse uma realidade infinita, incriada, eterna. Não se trata de transcender do fenômeno para seu fundamento último, do efeito para a causa última.” (p.174)
Ø  “Pelo contrário, situa-se no horizonte da modernidade. Termo que Kant consagra na filosofia, para exprimir uma nova maneira de entender a tarefa própria da filosofia[12].”
Ø  “A análise transcendental visa a descobrir os elementos a priori do conhecimento humano, elementos constitutivos de todo objeto. Pois perguntar-se por um objeto supõe no sujeito a pergunta pela possibilidade do conhecimento do objeto[13].”
Ø  “O termo se volta para a subjetividade. Inquire-se no método transcendental o que se constitui a condição necessária de todo conhecimento possível de uma realidade dada. Realidade que transcende as experiências empíricas, singulares, concretas. Liga-se ao que é conhecido como condição a priori e não como dado da experiência. (...) portanto que o transcende, que condiciona esta experiência, a torna possível enquanto conhecida, é-lhe  condição de possibilidade (...)” (p.175)
Ø  “Assim partindo da realidade de um ser humano que pergunta pelo sentido, pelos valores, que se abre ao outro, a reflexão transcendental busca conhecer as condições a priori existentes nesse sujeito que possibilitem tais perguntas. (...) É Deus a condição a priori de todos os processos espirituais, de todo caminhar do espírito”
Ø  “O aspecto antropocêntrico desse método não nega o caráter teocêntrico da teologia quanto a seu conteúdo. Pelo contrário, quer-se mostrar como a revelação transcendente responde profundamente à compreensão do ser humano.”
Ø  “Este método quer articular a existência humana como um a priori transcendental da fé e a revelação cristã como um a posteriori histórico.”
Ø  “Freqüentemente opõe-se o pensar transcendental ao dialético. O primeiro teria uma matriz platônica e teria maior capacidade de dar conta do pensar teológico. O segundo, por sua vez, implica um viés imanente de tal natureza que refuga o pensar teológico. (...) no pensar transcendental podem-se descobrir traços da estrutura dialética e o pensar dialético, enquanto mais próximo do ‘pensar pascal’ também pode abrir-se ao Transcendente.” (p.176)
Ø  “A reflexão transcendental tem a estrutura típica da negação dialética que suprime conservando. De fato suprime-se, supera-se, nega-se a pergunta passageira, concreta de ‘que é isto?’, ao ir-se, mais longe na busca de uma realidade necessária, transcendental.”
Ø  “(...) a pergunta concreta – o homem perguntando aqui e agora pelo sentido de sua vida – seria o empírico e a condição de possibilidade de tal pergunta seria a estrutura ontológica do ser humano, que está sempre a perguntar. Possui a estrutura de um ser que sempre pergunta pelo sentido da vida, permanentemente aberto às respostas que, por sua vez, se transformam em novas perguntas. (...) Logo supõe-se uma estrutura aberta a todo ser[14].”

5-CARÁTER EXISTENCIAL-EMPENHATIVO DO MÉTODO
Ø  “Tal método distingue-se do racional abstrato, no sentido de que o sujeito não se posiciona de maneira teórico-desinteressada, indiferente ao objeto da revelação sobre o qual ele reflete. Pelo contrário, trata-se de uma pergunta fundamental, que diz respeito à totalidade da existência do teólogo.”[15] (p.176-77)
Ø  “Por isso é um método existencial, ao envolver a existência. Empenhativo, ao implicar compromisso, decisão. (...) A teologia implica , questiona-a e compromete-a. E a reflexão fundamental sobre a revelação envolve a vida toda do sujeito que a faz.” (p.177)

6-CARÁTER FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL DO MÉTODO
Ø  “O círculo hermenêutico se constitui interpretando a existência à luz da palavra de Deus e a palavra de Deus a partir da existência.”
Ø  “Tanto à existência como a palavra de Deus não se tem acesso direto, objetivo, puro e neutro. Elas contêm elementos de mistério a que se acerca (...) se manifestam ao sujeito através de sinais e símbolos, de modo que se necessita ir desenvolvendo uma ciência interpretativa do sentido desses sinais e símbolos para além da simples percepção dos fenômenos.”
Ø  “Toda interpretação da realidade, por sua vez, é uma auto-interpretação do sujeito. Portanto nunca é totalmente objetiva.”
Ø  “Mas como há significações objetivas, que não dependem do sujeito e como sempre se inserem nelas elementos subjetivos, seguem-se duas conclusões fundamentais: a) sentido de realismo sobre o próprio conhecimento; seus limites, sua parcialidade, seu aspecto interessado; b) necessidade de confrontar a própria interpretação com os outros: confronto e conflito de interpretações, diálogo interpretativo.” (p.178)
Ø  A liberdade (e não só a inteligência) interfere no processo hermenêutico. Como os símbolos permitem diversos sentidos e aproximações, e como a vida não consente que se fique sempre a tomar decisões puramente pragmáticas e exige confrontar-se com a verdade, segue-se a necessidade do papel da opção nesse processo.”

7-DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO
a)      Ponto de Partida: A FÉ
Ø  “O cristão sabe, crê na revelação positiva de Deus. Não estabelece nenhuma dúvida metódica [16]sobre ela.”
Ø  “(...) ele se pergunta pela sua condição de ouvinte da palavra de Deus[17], pela transcendentalidade de seu espírito e pela iluminação que a revelação lhe dá.”
b)      Objetivo da Reflexão
Ø  “Mostrar a intrínseca coerência entre a estrutura profunda do ser humano e a revelação de Deus. (...) Pretende-se estabelecer a delicada articulação entre a existência humana, como a priori transcendental da fé e o cristianismo como a posteriori histórico” (p.179)
c)       Resposta Global
Ø  “O homem tem uma orientação, uma dimensão fundamental para o Transcendente.”
Ø  “O homem por si mesmo, em virtude de sua constituição fundamental, está aberto à revelação, apesar de ela ser em si inacessível às suas próprias forças e capacidades”
Ø  “O ser humano é condição de possibilidade da revelação e da graça; é um sujeito capaz de responder à interpelação da revelação e da graça, se lhe for feita.”
Ø  “Ao criar o homem, quis Deus destiná-lo a viver sua própria vida íntima.” (p.180)
Ø  “Se a finalidade da criação do homem é a autocomunicação divina, então o homem é diferente do que seria se não tivesse tal finalidade. Ela está inscrita no seu próprio ser. A situação na qual se encontra o homem a quem Deus se revelou, se autocomunicou, constitui uma determinação existencial (característica do ser do homem) de sua realidade concreta, embora não seja um elemento constitutivo de sua natureza, como tal.”
Ø  “Entretanto, essa situação de estar destinado à graça, à amizade de Deus, à Palavra da Revelação, à visão e comunhão plena com Deus é dom absolutamente gratuito de Deus, é decisão livre e graciosa de Deus.”[18]
Ø  “K. Rahner chama-o [ser humano em sua condição existencial] de ‘existencial sobrenatural”
d)      Antropologia Subjacente
Ø  “O ser humano é fundamentalmente consciência e liberdade situada, mas que transcende a sua própria situação. Como consciência possui-se a si mesmo inteligentemente. Como liberdade, entra em comunicação com-os-outros por decisão e escolha. Esta relação-com-os-outros, esse ser-com-os-outros se dá no mundo, na história.” (p.181)
Ø  “O ser humano não é uma subjetividade completa em si mesma, isolada como uma ilha autônoma, mas vive numa rede de comunicações através de seu corpo. Como espírito-em-um-corpo-no-mundo só se faz presente a si, irradiando-se em comunhão com o mundo das pessoas e das coisas.”
Ø  “O mundo existe para a pessoa humana, não como coisa, mas humanizado. (...) O homem existe no mundo para estar em relação, mediante sua corporeidade, com as outras pessoas. E é nessa dupla relação que se torna presente a si.”
Ø  “É capaz de configurar-se a si e ao mundo; configura-se a si, configurando o mundo; configura o mundo, configurando-se a si pela ação”
Ø  “O ser humano supera o mundo sensível, ao entrar no novo mundo do sentido, mediatizado e constituído pela linguagem e pela comunicação com os outros” (p.181-82)
Ø  “Entra em contanto com o mundo, com os outros pela mediação universal da linguagem. Linguagem que ele cria e que o cria[19]. (...) É um ser semiótico.” (p.182)
Ø  “Habita uma sociedade e vive numa história que ele cria e que o cria. E tudo isso só é possível, inteligível, se ele habita um universo de ‘compreensibilidade universal de sentido’, que é pressuposto de toda comunicação humana com sentido. A estrutura básica da realidade é o sentido e não o absurdo. Esta abertura para o Sentido é-lhe uma estrutura ontológica.”
Ø  “(...) é sujeito da revelação.”
Ø  “Na ordem do ser, no nível ontológico, está primeiro o projeto de Deus, de criar o homem para estar em relação pessoal com Ele. Portanto está a constituição ontológica do homem de abertura à revelação. Na ordem do conhecimento, o homem encontra-se com uma revelação feita por Deus. Refletindo sobre tal encontro, ele chega à ordem primeira, ontológica, de seu ser aberto, como condição de possibilidade e inteligibilidade de tal encontro.” (p.183)
e)      Homem: ouvinte da palavra
1° passo: o homem é um ser que pergunta
Ø  “O cotidiano humano povoa-se de perguntas.(...)É um fato inelutável a que o homem não pode fugir. Porque em todo conhecimento e ação está ele, no fundo, respondendo à pergunta pelo ser.” (p.184)
Ø  “Perguntar pelo ser faz parte da vida do homem, porque tal pergunta está contida em toda frase que o homem pensa e fala.”
Ø  O ser se revela ao homem como aquilo sobre o que ele não dispõe. Por isso deve perguntar. É anterior a sua decisão, a seu querer (...) Ele já está aí. Antes do homem, já está a realidade, o mundo, o real. Preexiste-lhe a existência.”
Ø  “No fundo, há uma pergunta básica: qual é o sentido do ser pelo qual todo homem pergunta? As perguntas sobre o ser e sobre o homem que está a perguntar formam uma unidade original e infrangível.” (p.185)
2° passo: o homem tem uma compreensão prévia do ser
Ø  “Na própria formulação da pergunta repete duas vezes a palavra ‘ser’. Que é (ser) isto (ser)? Está, no fundo, fazendo duas perguntas: uma pelo ser concreto, pelo ‘ente’ em questão. Que é isto? A outra pelo ser deste ente concreto.”
Ø  “Em outras palavras, o homem está a perguntar por um ‘uno’, um último fundamento do real, pelo ser de todo ‘ente’ concreto”
Ø  “Ora ninguém pergunta pelo totalmente desconhecido. Pois não teria nenhuma condição de formular a questão. Só se pode perguntar por alguma coisa de que se tenha certa apreensão, ainda que vaga, implícita.”
Ø  “Logo para poder perguntar pelo ser em sua generalidade, em sua totalidade, o homem já deve possuir um ‘saber prévio’ desse ser. Toda pergunta supõe um donde perguntar, um princípio que torna possível e inteligível a resposta.”[20]
3° passo: esse ser não pode ser nem o nada, nem o absurdo, nem o totalmente incognoscível
Ø  “Este ser pelo qual o homem pergunta em todas as perguntas não pode ser o nada nem o absurdo.”
Ø  “No fundo, o homem está entre duas espécies de experiências fundamentais. Umas experiências parecem carregadas de sentido e outras, pelo contrário, absurdas.” (p.186)
Ø  “Ou é o sentido, o ser que explica os absurdos, os ‘nadas’ da experiência. Então a totalidade da vida tem sentido. Ou é o nada, o absurdo que explica os esporádicos sentidos parciais da experiência. Nesse caso, a totalidade da vida seria um absurdo e aqui terminaria nossa reflexão. Posto o absurdo ou o nada como fundamento, segue-se qualquer conseqüência.”
Ø  “(...) levanta-se a hipótese do totalmente incognoscível como último fundamento do ser. Nesse caso, seria o silencio total que pairaria sobre a existência do homem.”
Ø  “Se não quiser optar pelas vias do nada, nem da incognoscibilidade total, resta ao homem aceitar que tem uma pré-apreensão do ser, uma estrutura antecipativa do ser, uma aprioridade e abertura essencial para o ser.
Ø  “(...) o homem moderno vê-se defrontado com a posição de rejeitar um sentido global, unitário e de abraçar os pequenos sentidos, provisórios, cuja única consistência é o presente.”
Ø  “Rompe-se então com a tradição ocidental do ser, como verdade, como luz que se manifesta e do qual os seres são manifestações. Nessa corrente moderna, as manifestações não são de um ser primigênio, mas de decisões, da responsabilidade criativa do ser humano.”
Ø  “Esta corrente de pensamento se fecha a esse tipo de pensamento transcendental, ao proclamar a morte de toda metafísica.” (p.186-87)
Ø  “Ela rompe o dilema: nem sentido absoluto, nem absurdo. Acrescenta um terceiro: a responsabilidade humana (linha sartriana) ou a natureza (linha nistzschiana).” (p.187)
Ø  “(...) o ser e conhecer formam uma unidade radical, original. Todo ser, por si mesmo e em virtude de ser, está intrinsecamente ordenado a ser conhecido, a ter em si inteligibilidade e autopossuir-se à medida que é ser.”
Ø  “No homem, o ser e conhecer não se identificam, já que ele pergunta pelo ser. (...) Nisto revela sua estrutura profunda de espírito criado, que, ao mesmo tempo, pergunta por todo ser e não se identifica com o ser que pergunta. Este ser por que pergunta não é um objeto ao lado dos outros. É um horizonte, âmbito absoluto de toda objetividade possível.”
4° passo: a essência concreta do homem é a abertura absoluta para o ser enquanto tal: o homem é essencialmente espírito
Ø  “Esta apreensão prévia do ser é algo, portanto, da própria essência e estrutura ontológica do homem.”
Ø  “Nesse mesmo momento em que se abre para o horizonte ilimitado das perguntas, ele se transcende a si mesmo.” (p.188)
Ø  “Se não transcendesse todas as questões, se não fosse uma unidade anterior que unificasse toda essa dispersividade, não se saberia sujeito delas.”
Ø  “Percebe-se [tal unidade] como uma totalidade uma, ou uma identidade espiritual. Teilhard formula a lei da complexidade e da centração. O ser humano é de extrema complexificação e de profunda centração. É sua condição de espírito-em-matéria que lhe permite esse duplo e paradoxal grau de copmplexidade (matéria) e centração (espírito).”
5° passo: o fenômeno da pergunta e resposta é processual
Ø  “À medida que pergunta, o homem vai passando do apreendido previamente ao conhecido e ao re-conhecido.”
Ø  “Nesse mesmo momento em que conhece um ser determinado, que se lhe desvela e revela, surgem novas perguntas. Em outras palavras, o ser que se revela, vela-se ao mesmo tempo, provocando nova busca.”
Ø  “Da parte do real, é sua impossibilidade de tornar-se totalmente transparente. Ele vela certo mistério, que, no fundo, remete a sua fonte última de ser. De parte do sujeito, ele é ordenado ao ser em geral, ao ser como mistério.” (p.189)
Ø  “Por mais simples que seja um ser, por mais banal que pareça uma realidade, lateja aí um ‘mais’ que ultrapassa todo conhecimento concreto.”
6° passo: o homem diante da revelação percebe-a como pergunta-resposta-pergunta no horizonte do dom
Ø  “A experiência do conhecimento (...) leva o homem a defrontar-se com a revelação de Deus, como uma resposta á sua pergunta sobre a existência, que termina numa nova pergunta em busca de nova resposta, e assim por diante.” (p.190)
Ø  “Pois se é verdade que, de um lado, ele cria sentido diante do real numa atitude ativa (...), doutro lado, ele acolhe também significados que já existem antes dele e se revelam a ele (...) O real é experimentado, na sua primeira percepção, como sendo dom, vindo de outros
Ø  “O real se manifesta e se impõe a ele. Deve recebê-lo, como dom, como oferta, como algo que está a revelar-se-lhe.”
Ø  “Mas tal significação só é possível se existir na realidade um sentido radical, último e absoluto, que seja fundamento de toda significação.”
7° passo: a pergunta do homem é, em ultima análise, em busca de comunhão
Ø  “O homem não pergunta unicamente para saber, mas para agir, para ser-com, para comungar-com.” (p.191)
Ø  “Quando pergunta, o homem revela-se. Quando recebe resposta, acolhe a revelação de outro, que se revela na resposta.”
8°passo: o processo da pergunta e busca de comunhão é comunitário, social e escatológico
Ø  “O ser humano é sociável. A sociabilidade é um transcendental, é-lhe um acontecer da estrutura de existência, isto é, o ser humano acontece existir com essa dimensão profunda de ser social, que se comunica num mundo de sentidos
Ø  “Tal processo é escatológico na sua dupla dimensão de presente e de futuro. Enquanto em cada pergunta se toca já o ser, a verdade em definitivo, se vê a braços com a revelação última de Deus.”

8-CONCLUSÃO
Ø  “Esta reflexão tentou lançar luzes sobre a experiência humana cotidiana do perguntar. A partir dela, procurou-se ir mais fundo e descobrir a estrutura ontológica do ser humano que pergunta. E nessa sede de perguntar, revelou-se a abertura radical do homem diante de uma palavra que pode vir-lhe ao encontro e que está ela mesma na origem de seu perguntar.”
Ø  “A Revelação é a Palavra feita história dos homens. É o Verbo feito carne no meio da humanidade. E em busca de tal Palavra está o homem a perguntar todos os dias por tudo. Nada escapa a sua força questionadora. Nisso manifesta sua estrutura antropológica feita para a revelação.”






[1] Subjetividade: relativo ao sujeito.
[2] Modo de interpretar desenvolvido por Heidgger, onde uma coisa serve para interpretar outra, e esta é automaticamente interpretada por aquela.
[3] Máxima aristotélica de que todo conhecimento passa pela experiência, retomada posteriormente na modernidade por Kant.
[4] VAZ apud LIBANIO, p. 165.
[5] Categoria kantiana para os juízos considerados “puros”.
[6] O esvaziamento racional e existencial trazido pelas duas grandes guerras, como conseqüência da falência do projeto iluminista moderno, na qual a razão supriria as necessidades de felicidade humana; levou o homem a se auto-questionar na busca de sentido.
[7] O assombro diante da realidade já era considerado por Aristóteles como oportunidade para o se questionar. Este também é porta de acesso à metafísica, já que, o espanto frente tais situações levam o ser humano a se perguntar pelos fundamentos da existência, i. é, a pergunta pelo ser. Cf. Márcio Bolda da Silva. Metafísica e o Assombro.
[8] Consciência do outro.
[9]  Modo de interpretação desenvolvido por Hegel, onde os opostos são necessários para a constituição de uma realidade.
[10] Conceito desenvolvido por Kant.
[11] Expressão existencialista utilizada por Jean-Paul Sartre.
[12] Cf. KANT. Crítica da Razão Pura.
[13] Kant percebe, retomando Hume, que a causalidade (causa e efeito) era falha na ação de conhecer, já que, era subjetiva; assim se debruça sobre a própria possibilidade de se conhecer mediante a criação da transcendentalidade (condição de possibilidade).
[14] Estrutura ontológica de Hegel.
[15] Categoria fenomenológica de Hussel na apreensão do conhecimento: a Intensionalidade, no intuito de combater o abstracionismo desinteressado.
[16] Categoria metodológica cartesiana.
[17] Categoria antropológica de K. Rahner. Curso Fundamental da Fé.
[18] É necessário afirmar tal postura da liberdade de Deus para não cair no erro de ver Deus como uma causa que opera por necessidade e não por liberdade.
[19] Máxima de Wittgenstein.
[20] Retomada do princípio socrático de que todo homem já possui dentro de si o conhecimento.

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