domingo, fevereiro 23

AUGUSTO SALAZAR BONDY: O FILÓSOFO DA RADICALIDADE


O filósofo peruano Augusto Salazar Bondy (1925-1974) é hoje, para o pensamento latino-americano, um ícone importante, principalmente, na busca pela originalidade e autenticidade do pensamento da América Latina. Doutor em Filosofia, fundou e participou de movimentos populares como o Movimento Social Progressista, fundou colégios e estudou em Paris com Jean Wahl, Hyppolite, Bachelard e teve contanto com as ideias fenomenológicas de Heidegger, Sartre e Camus.

Contudo, para entender a polêmica Zea-Bondy, como mencionou Guldberg, é necessário compreender o pensamento radical de Bondy. Para Bondy, nunca houve uma filosofia latino-americana, apenas uma filosofia da América Latina. A diferença entre ambas é que a primeira deveria ser uma filosofia desde a América Latina e não para a América Latina como na última. Isso porque, explica Bondy, a filosofia na América Latina é análoga a uma árvore que foi transplantada da Europa para cá, ou seja, é uma filosofia que, já crescida e desenvolvida sócio-culturalmente na Europa, chega na América Latina e é justaposta numa cultura que não estava preparada para tal recepção. O resultado dessa justaposição não pode não ser nada mais que uma mera repetição da fala europeia sem nenhuma originalidade e autenticidade. 

Tomando por base o fato de que nada se produziu em termos de filosofia autêntica e original, sendo contudo meras repetições, de que modo Bondy entende uma filosofia latino-americana? Em primeiro lugar é preciso definir originalidade e autenticidade para depois se pensar um modo de se fazer filosofia autêntica. Nesse sentido, Bondy já oferece uma grande contribuição para a própria discussão da pergunta pela filosofia latina, i. é, Bondy mostra que uma filosofia que se pretenda ser latina deve, sobretudo, se debruçar sobre os conceitos de originalidade e autenticidade como conceitos fundantes dessa filosofia. Essas temáticas, profundamente filosóficas, devem tecer as condições de possibilidade para uma discussão do pensamento latino. Entretanto, o que Bondy não vê é que ao reconhecer a carência de definição para esses conceitos já temos os objetos filosóficos bem como a reflexão filosófica dada.

Retomando o pensamento de Bondy, segundo o peruano, originalidade é toda discussão, questão, ou interrogação que rompe com as já existentes e se propõe ser totalmente nova. Passo seguinte, por autenticidade, Bondy entende que é toda questão que não é falseável ou desqualificável, ou seja, que não repete ou falsifica nenhuma questão ou problema já posto. Assim, segundo o filósofo, uma filosofia original é, intermitentemente, autêntica e vice versa. Isso leva a crer que a América Latina, se quer produzir um pensamento que seja seu, deve levantar questões diferentes das filosofias existentes na Europa. Desse modo, uma filosofia latino-americana quando se debruçar em questões peculiares a si mesmo fará uma filosofia original e autêntica, pois trará à baila questões realmente novas, i. é, questões originais e autênticas. Então, estaria a América Latina pronta para enfrentar seus problemas de modo original e autêntico?

Na visão de Bondy, para essa pergunta, que corresponde à segunda pergunta de sua obra, a resposta também é negativa. Argumenta o filósofo que a América Latina não tem condições nenhuma de voltar-se para seus problemas e recoloca-los em termos de problemas filosóficos. Isso se deve pelo alto grau de subdesenvolvimento e dependência que sofre a América latina frente a Europa e EUA. Sem a conscientização desse subdesenvolvimento e dependência, não há condições para que uma filosofia original e autêntica se instale. Nesse sentido, a filosofia é uma tarefa ainda por fazer, haja vista que a filosofia europeia "transplantada" para cá cumpriu funções ideológicas de dominação e alienação. É necessário, portanto, na construção do pensamento filosófico original e autêntico latino repensar essa situação de pobreza, miséria, subdesenvolvimento e dependência que sofre a América Latina. A filosofia, em si mesma ou enquanto tal, seria um passo segundo.

De algum modo, distanciando um pouco de Bondy, percebe-se que sua visão não deixa de ser um tanto comprometida com o próprio modelo capitalista que instala a dependência na América Latina. O fato de Bondy acreditar que a América Latina nada tem que possa ser aproveitado, já que ela seria tão dependente que só reproduziu os modelos europeus e posteriormente americanos, revela que, em alguma medida, ela precisa se desenvolver. Essa ideia de desenvolvimento, a qual Bondy se refere, pela ausência de ulteriores tematizações, tem como ideia geratriz os próprio modelos de desenvolvimentos promovidos pelo sistema capitalista europeu e norte-americano, o que torna o filósofo prezo ao mesmo sistema que ele condena.




Não obstante, a filosofia produzida aqui, como produto ideológico europeu justaposto, nada mais é do que uma filosofia dominadora e não apresenta problemas e questões que mereçam relevância. Essa ausência de problemáticas originalmente filosóficas latinas impede que se erga, no atual solo da América Latina uma filosofia original e autêntica. Levando o fazer filosófico para um duplo papel: o crítico e o problemático. O papel crítico da filosofia deve produzir nas consciências das comunidades latinas um sentimento de ruptura com o mero fazer alienado e voltar-se para sua situação de dependência e subdesenvolvimento. Essa critica deve ser radical e promover uma destruição dessa tradição filosófica alienante e dominadora. O segundo papel reservado ao fazer filosófico é o da problematização, que seria tematizar as razões que fazem da América Latina ser o que é, instalando, assim, um processo de consciência para a Libertação. A despeito da critica a anterior feita a Bondy, é importante destacar que Bondy é um dos pioneiros na relação entre consciência filosófica e consciência social. Para ele, é impensável que a filosofia fique alheia à condição de dependência latina e que esse processo pode ser revertido com uma filosofia que seja libertadora. Essa relação interdisciplinar da filosofia em nossas terras será a marca de todo fazer filosófico, fará parte daquilo que posteriormente será chamado pelos teóricos latinos ortopráxis.

Por fim, Salazar Bondy - o filósofo da radicalidade, tal como eu o entendo - deve ser lembrado como um pensador que, na base de sua discussão sobre a originalidade e autenticidade, reconheceu o difícil esforço que é construir um pensamento sobre nossa cultura que "toque" ou "cale fundo" em nossa comunidade pelo fato de que nossas categorias filosóficas pouco ou quase nada assim o fazem. É um filósofo que pensa a filosofia como um passo segundo, sendo a Libertação o passo primeiro. Nesse sentido, sua radicalidade serve de alerta para as filosofias desenraizadas ou de "preocupações muito nobres" que nem merecem ser "contaminadas" com a realidade. Muita das vezes, a radicalidade serve para iluminar determinados problemas que, de tão encobertos, acabam sendo sempre relegados ao esquecimento. É o que, de algum modo, fez Bondy: promoveu a radicalidade a título de fazer filosófico para que a própria filosofia pudesse ser radicalizada (pensada em sua raiz).

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