segunda-feira, fevereiro 17

COSMOVISÃO ARCAICA: NOTAS DE AULA



Cosmovisão Arcaica: a gênese da visão de mundo;

o Animismo e o Antropomorfismo: os mitos de origem.

 TEXTO 01: SELVAGGI, F. Visão animístico-antropomórfica. In: Filosofia do Mundo: cosmologia filosófica. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2001, pp. 33-38.


# Visão animístico-antropomórfica
  • “... o homem não só está no mundo, mas tem consciência do seu ser-no-mundo, e que dessa consciência surge a necessidade de um conhecimento do mundo: quer dizer, de ambiente vital o mundo se transforma para o homem em objeto de conhecimento e, ulteriormente, em problema” (33).
  • “O mundo, com efeito, desde a primeira consciência que dele temos, mostra-se como uma realidade complexa [...] Ao problema que surge da complexidade do real corresponde, portanto, no sujeito cognoscente a necessidade de explicação [...] A necessidade e a tentativa de explicação surgem quando se desenvolve na mente a capacidade de correlacionar um objeto com um outro atualmente presente ou precedentemente conhecido” (33)
  • “Por isso, no primeiro estádio da evolução psíquica humana, quer individual em cada criança ou coletiva nos povos primitivos, tem-se uma explicação antropomórfica: quer dizer, o homem procura tornar inteligível o mundo e os fenômenos que se sucedem no mundo, reconduzindo-os ao que ele próprio experimenta na própria consciência [...] atribuindo-lhe os mesmos sentimentos, forças e intenções que em si mesmo experimenta, até uma personificação de todas as coisas que o circundam...” (34).
  • “Surge assim a visão antropomórfica e animística do mundo, baseada, não só e sobretudo na necessidade de explicação, mas ainda num sentimento de comunhão, participação e simpatia para com o mundo [...] e se desenvolve numa visão mítica e mágica do mundo” (34).
  • “O mundo, com efeito, no seu complexo [...] depara-se à mentalidade primitiva como um mistério inexplorável [...] Mediante a imaginação, a faculdade fabuladora [...] o homem constrói mitos, narrativas fabulosas em que, ao invés de explicar os fenômenos [...] imagina pessoas infinitamente superiores a si mesmo, que de fora produzem os fenômenos observáveis nas coisas” (35).
  • “A concepção antropomórfica se desenvolve, depois, espontaneamente numa concepção mágica e dá origem ao exercício da magia, à medida que o homem pensa poder influir nos acontecimentos do mundo através dos mesmos meios com que influi nos movimentos do próprio corpo e sobre outros semelhantes, i. é, mediante o desejo e a vontade, a palavra, a oração, o gesto, a ordem” (34)
  • “... podemos distinguir dois grandes grupos de mitos: os mitos cosmológicos, ou, de modo mais acabado, cosmobiológicos, e os mitos religiosos. Os mitos religiosos, em que se encerra o simbolismo teístico, exprime a experiência religiosa do homem, a experiência do encontro com o Outro, o absolutamente Outro, que está no mundo por toda a parte com sua presença, mas também para além do mundo [...] Por outro lado, os mitos cosmobiológicos e sua simbólica exprimem a experiência da solidariedade do homem com o mundo, situam-se no plano horizontal da participação do homem na natureza, na estrutura e leis do cosmo. [...] é a experiência não da transcendência do Outro, e sim da imanência do mundo num sentido puramente existencial, i. é, da consciência de uma estrutura comum e, por conseguinte, de uma integração do sujeito no todo da vida” (36-37)
  • “O pensamento mítico é espontâneo, ingênuo e acrítico; as suas hipóteses não são sujeitáveis a provas e demonstrações; reconhece a causalidade, mas aplica o conceito de causa de modo arbitrário” (37)

TEXTO 02: GLEISER, M. Mitos de criação. In: A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang. 2. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2000, pp.17-40. 
  • “... esses mitos encerram todas as respostas lógicas que podem ser dadas à questão da origem do Universo, incluindo as que encontramos em teorias cosmológicas modernas. Com isso não estou absolutamente dizendo que a ciência moderna está meramente redescobrindo a antiga sabedoria, mas que, quando nos deparamos com a questão da origem de todas as coisas, podemos discernir uma clara universalidade do pensamento humano. A linguagem é diferente, os símbolos são diferentes, mas, na sua essência, as idéias são as mesmas [...] Por ora, é importante apenas que tenhamos em mente que mitos de criação e modelos cosmológicos têm algo de fundamental em comum: ambos representam nossos esforços para compreender a existência do Universo” (18).
  • Esses mitos são essencialmente religiosos, uma expressão do fascínio com que as mais variadas culturas encaram o mistério da Criação. Como discutirei em detalhe, é precisamente esse mesmo fascínio que funciona como uma das motivações principais do processo criativo científico. Acredito que esse fascínio seja muito mais primitivo do que o veículo particular escolhido para expressá-lo, seja através da religião organizada ou da ciência. (18-19)
  • Acredito que o misticismo, se interpretado como a incorporação da nossa irresistível atração pelo desconhecido, tem um papel funda-mental no processo criativo de vários cientistas tanto do passado como do presente. Negar esse fato é fechar os olhos para a história, e para um aspecto fundamental da ciência (19-20).
# A natureza dos mitos de criação
  • “Há milênios, [...] a Natureza era respeitada e idolatrada, sendo a única responsável pela sobrevivência de nossa espécie, a qual vivia basicamente da caça e de uma agricultura bastante rudimentar. Na esperança de que catástrofes naturais tais como vulcões, tempestades ou furacões não destruíssem as suas casas e plantações, ou matassem os animais e peixes, várias culturas atribuíram aspectos divinos à Natureza. [...] Rituais e oferendas procuravam conquistar a simpatia divina, garantindo assim a sobrevivência do grupo. Através dessa relação com os deuses, os indivíduos buscavam ordenar sua existência, dando sentido a fenômenos misteriosos e ameaçadores. Por outro lado, a relação com os deuses tinha também uma função social, impondo valores morais e éticos que eram fundamentais para a coesão do grupo” (20).
  • “Essa relação religiosa com a Natureza se estendia para além das funções mais imediatas de bem-estar e segurança do grupo, abrangendo também necessidades de ordem mais metafísica. Um exemplo típico é a interpretação da morte em diferentes religiões” (20).
  • “Outra situação em que a religião tem um papel muito importante é na questão da origem do Universo. Essa é talvez a pergunta mais fundamental que podemos fazer com relação à nossa existência [...] Ao nos perguntarmos sobre a nossa origem, ou sobre a origem da vida, estamos implicitamente nos perguntando sobre a origem do Universo, a “origem das origens”. Portanto, não é nenhuma surpresa que a cosmologia exerça tanto fascínio atualmente. Quando tentamos entender o Universo como um todo, somos limitados pela nossa perspectiva “interna”, como um peixe inteligente que tenta descrever oceano como um todo. Isso é verdade tanto em religião como em ciência. Em ciência, o problema é particularmente agudo em cosmologia quântica, onde a mecânica quântica é aplicada na descrição da origem do Universo” (21-22).
  • “Uma vez que nos perguntamos sobre a origem do Universo, encontrar uma resposta se torna muito tentador. [...] O veículo encontrado por várias culturas foi o mito. Mitos são histórias que procuram viabilizar ou reafirmar sistemas de valores, que não só dão sentido à nossa existência como também servem de instrumento no estudo de uma determinada cultura. [...] o poder de um mito não está em ele ser falso ou verdadeiro, mas em ser efetivo” (23).
  • “É claro que, quando diferentes culturas tentam formular uma explicação para a origem de “tudo”, elas têm de usar uma linguagem essencialmente metafórica, baseada em símbolos que têm significado dentro da cultura geradora do mito. Metáforas também são comuns em ciência, especialmente a ciência que explora fenômenos alheios à nossa percepção sensorial, como por exemplo no mundo do muito pequeno e do muito rápido, o domínio da física atômica e subatômica” (24).
  • “Isso explica por que mitos de determinadas culturas podem parecer completamente sem sentido em outras. De fato, um erro bastante comum é usarmos valores ou símbolos da nossa cultura na interpretação de mitos de outras culturas. Outro erro grave é interpretar um mito cientificamente, ou tentar prover mitos com um conteúdo científico. Os mitos têm que ser entendidos dentro do contexto cultural do qual fazem parte” (24).
# Uma classificação dos mitos de Criação
  • “... a restrição fundamental que devemos enfrentar quando tentamos entender a origem de “tudo” é a limitação imposta pela nossa percepção bipolar da realidade; o processo ou entidade responsável pela Criação tem necessariamente que criar ambos os opostos, estando portanto além dessa dicotomia. [...] Em geral, todas as culturas assumem a existência de uma realidade absoluta, ou simplesmente de um Absoluto, que não só abrange como transcende todos os opostos. Esse Absoluto é o elemento central na estrutura de todas as religiões, dando assim um caráter religioso aos mitos de criação. O Absoluto, então, incorpora em si a síntese de todos os opostos, existindo por si só, independente da existência do Universo. Ele não tem uma origem, já que está além de relações de causa e efeito” (25).
  • “A ponte que estabelece a relação entre o Absoluto e a realidade é o mito de criação. Em outras palavras, através de seus mitos as religiões proclamam sua realidade, relacionando o compreensível ao incompreensível. O processo de criação do Universo envolve sempre a distinção entre os opostos, a desintegração da união existente no Absoluto que gera a polarização inerente à realidade” (26).
  • “Os mitos de criação podem ser separados em dois grupos principais, de acordo com a resposta dada à questão do “Início”. Enquanto alguns mitos supõem que o Universo teve um início, ou seja, um momento a partir do qual o Universo passou a existir, [...] outros supõem que o Universo existiu desde sempre [...]. No primeiro caso, o Universo tem uma idade finita, enquanto no segundo o Universo tem uma idade infinita. [...] A fim de organizar melhor nossas idéias, vamos chamar os mitos que supõem um (e apenas um) momento da Criação de “mitos com Criação”. Já os mitos em que o Universo é eterno, ou criado e destruído infinitas vezes, chamemos de “mitos sem Criação” (28).
  • “Os “mitos com Criação” podem ser subdivididos em três grupos, de acordo com o agente que efetua a Criação. O Universo pode ser criado a partir da ação de um Ser Positivo, que pode ser um deus, uma deusa ou vários deuses. O Universo pode também aparecer a partir do Vazio absoluto, o Ser Negativo ou o Não-Ser, sem a intervenção de uma entidade divina. Ou, finalmente, o Universo surge através da tensão entre Ordem e Caos, ambos partes do Absoluto inicial. Aqui, as potencialidades de Ser e Não-Ser coexistem simultaneamente, sem que exista ainda uma separação entre os opostos. Essa tensão por fim gerará a matéria, que, por meio de um processo contínuo de diferenciação, toma as várias formas que se manifestam no mundo natural. Nos três casos, podemos visualizar o tempo como uma reta que tem sua origem no ponto t = 0, o instante inicial” (28-29).
  • “Os “mitos sem Criação” podem ser subdivididos em dois grupos. Como não existe um momento definido de criação, as únicas possibilidades são um Universo que existe e existirá para toda a eternidade, ou um Universo que é continuamente criado e destruído, em um ciclo que se repete para sempre” (29).

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