terça-feira, fevereiro 4

FILOSOFIA E CIÊNCIA: MATERNIDADE, IRMANDADE OU MISCIGENAÇÃO?














Que relações podem ser identificadas entre Filosofia e Ciência? Para responder a esta pergunta, utilizar-se-á as reflexões de Joaquim Mateus Paulo Serra em seu texto intitulado “Filosofia e Ciência”[1]. Segundo Paulo Serra (2008), é mui comum, e de certa forma já está popularizada, a afirmação de que a Filosofia mantém com as ciências uma relação de “maternidade”. Isso se deve a dois fatores:

i) No sentido em que a Filosofia foi a primeira forma do chamado “conhecimento racional”, representando a Ciência – as ciências –, a segunda forma desse mesmo conhecimento; mas, sobretudo ii) No sentido em que, à medida que ia aumentando o conhecimento, foi surgindo a necessidade de especialização em determinados campos problemáticos – os números, o movimento, os seres vivos, etc. –, o que foi levando ao surgimento das diversas ciências a partir da Filosofia (PAULO SERRA, 2008, p.04, grifo nosso)

Em outras palavras, por um lado, o fato de a filosofia, enquanto modo racional de conhecimento, possuir certa primazia histórica, acarretou posteriormente para si certa compreensão de “primazia ontológica”, i. é, a filosofia carregaria sobre si um caráter de “causa” frente aos demais conhecimentos. Por outro lado, à medida que o conhecimento científico sentiu a necessidade de especializar-se, se confirmou a tese de que esse conhecimento racional estava como que em “potência” – em uma linguagem aristotélica – na Filosofia. 

Todavia essa compreensão maternalista da relação entre Filosofia e Ciência no decurso da história foi, aos poucos, assumindo posturas opostas. O fato de as ciências serem desdobramentos ou derivações do conhecimento filosófico permitiu que se desenvolvesse uma leitura entre ambas desde uma relação de subordinação das Ciências à Filosofia, de modo a representar a filosofia como uma “mãe tirana”. Esta imagem da Filosofia – que mais se assemelha a uma madrasta do que uma mãe propriamente dita – corresponde às relações que perduraram até meados do século XIX. Ademais, é bom lembrar que, em consonância com Paulo Serra (2008), essa dita “subordinação” não seria propriamente uma relação de subserviência, já que os próprios cientistas se reconheciam como filósofos, bem como suas ciências de filosofia. É o caso de Newton que intitula sua obra prima de Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. 

De outro lado, com a especialização das Ciências, essa relação de subordinação se inverte e a Filosofia passa, então, a estar subordinada às Ciências. Essa inversão, também ocorrida a partir do século XIX, mostra ainda que aquela relação maternal de outrora deixa sua face tirânica e passa a conceber outro tipo de relação, a de “matricida” – na qual a própria existência filosófica corre perigo. Há quem declare que ela já esteja até morta.

Opostamente, Paulo Serra (2008) lança mão do poeta-filósofo Antero de Quental que em 1890 anunciava não uma relação maternal, mas uma relação fraternal entre Filosofia e Ciência. Argumenta Paulo Serra (2008, p.08, grifo nosso):

Significa, esta “irmandade”, que competem à Filosofia e à Ciência funções diferentes, se bem que complementares. Assim, à Filosofia caberá a especulação sobre “os primeiros princípios das coisas” e “as ideias fundamentais” e, à Ciência, a observação, a experiência e a indução incidindo no “grande e variado mundo dos factos”. A hipótese, que é “filha legítima da especulação”, precisa, no entanto, de ser confirmada pela observação para que se torne verdade científica. A “intersecção” e o “contacto” entre Filosofia e Ciência dá-se, assim, na hipótese: é por meio da hipótese que “as ideias metafísicas de uma época, as suas noções fundamentais, penetram nas ciências, afeiçoam as suas teorias e lhes fornecem pontos de vista para o seu ulterior desenvolvimento”.

De acordo com essa nova relação, a de irmandade, Filosofia e Ciências assumem funções distintas e complementares. A primeira retém para si o caráter de reflexão sobre os primeiros princípios e as ideias fundamentais, enquanto que as segundas fazem da experiência seu critério de verificação. Entretanto ambas possuem um ponto de toque, que é a hipótese. Hipóteses são especulações metafísicas fundamentais de uma época, ou também intuições fundantes tão necessárias nas ciências quanto na filosofia. São elas que permitem o ulterior desenvolvimento do conhecimento. O que prova essa irmandade ao contrário de uma maternidade é o entendimento de que: a) em suas gêneses, não há uma relação de sucessividade e sim de simultaneidade. É o caso de Tales de Mileto que é considerado tanto o primeiro filósofo como o primeiro matemático e astrônomo; b) a interferência entre Filosofia e Ciência, sobretudo, a partir da modernidade, quando Ciência e Filosofia assumem uma interdependência.

Não obstante às relações de maternidade e irmandade, Paulo Serra (2008) entende que nenhuma dessas configura a atualidade. De um lado, a partir das crises das ciências no que diz respeito aos fundamentos da física e da matemática do século XX, várias questões, consideradas especificadamente filosóficas, foram trazidas para o campo do conhecimento científico como forma de repensar seus fundamentos. Por outro lado, a filosofia pós-hegeliana caracterizou-se sob três aspectos centrais: a) a recusa de uma concepção sistemática, totalitária e totalizadora da Filosofia – que, se assim o podemos dizer, tendeu a substituir um “espírito de síntese” por um “espírito de análise”; b) a tendência para a especialização, sobretudo com o desenvolvimento da epistemologia; c) A recuperação de um ideal de Filosofia que se aproxima, em larga medida, da concepção kantiana da Filosofia, menos como um conjunto de conceitos e doutrinas e mais como uma actividade – o “filosofar” – de resultados sempre provisórios e efêmeros. Efetivamente, conclui Paulo Serra (2008), a atualidade miscigenou Filosofia e Ciência, na medida em que as Ciências se propõem a levantar questões filosóficas e as filosofias a especializarem-se em grupos fragmentados de epistemologias. Dizendo de outro modo, os cientistas viraram filósofos, como é o caso de Darwin, Einstein, etc. e os filósofos viraram cientistas como é o caso de Habermas, Rorty, Davidson, Austin, etc.

FONTE: SERRA, Joaquim Mateus Paulo. Filosofia e Ciência. Covilhã: LusoSofia, 2008.

[1] O texto de Paulo Serra (2008) é uma intervenção na abertura do 9o Encontro de Jovens Investigadores, em 12 de Abril de 2003, no Seminário do Verbo Divino, Tortosendo.


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