sexta-feira, fevereiro 14

FILOSOFIA LATINOAMERICANA: RIR OU CHORAR?


Na aula de ontem sobre Filosofia Latinoamericana, eu falava sobre o entrelaçamento vital e necessário entre a pergunta pela filosofia latina e a condição de subdesenvolvimento vivida por nossa realidade, entrelaçamento esse mui bem reconhecido já por Salazar Bondy. Isso quer dizer que, ao se perguntar por uma filosofia oriunda da América Latina, não se pode deixar de perguntar pela questão que mais espanta (ou que, no mínimo, deveria nos fazer espantar) nossa condição humana-latina: a situação de subdesenvolvimento. Ao contrário do que muitos costumam dizer, que falar de questões de miséria, pobreza, subdesenvolvimento, alienação é coisa de marxista ou comunista, essa situação não pode ser compreendida simplesmente como categorias ideológicas de tendências político-partidárias. Efetivamente, elas transcendem as ideologias e (infelizmente) compõem o núcleo existencial de realidade da América Latina. Se falar de filosofia é "desbanalizar o banal", como já propôs Ghiraldeli, fazer Filosofia Latinoamericana é desbanalizar aquilo que é mais banal e real de nossa condição existencial enquanto latinos: o problema da miséria causada por uma sistema econômico estrutural. Para alegria e tristeza de muitos, uma filosofia que se preocupa em dizer do real com pretensão de verdade não pode, sob suspeita de não ser filosofia, deixar de olhar a miséria que passa o ser humano em estado existencial de miséria. 

Em ano de Copa do Mundo, um vídeo dos Portas do Fundos me chamou a atenção. Gosto do humor do Porta, mas esse em especial, justamente pelas circunstâncias sociais em que vivemos, me deixou preocupado. Assistam o vídeo e depois meu comentário.
A primeira impressão que me veio quando o assisti pela primeira vez foi uma indignação contra a Copa do Mundo aqui no Brasil. Me senti como aquelas pessoas que são ridicularizadas no vídeo e rotuladas simplesmente como "pobres", mas que na verdade são humanos injustamente postos em situação miserável, por um sistema corrupto, (inclusive a mídia) sendo zoologicamente visitas pelos gringos norte-americanos e europeus. São entes que na pergunta pelo seu ser está inclusa intrinsecamente a pergunta pela a miséria que condiciona a compreensão de seu ser. Essas pessoas representam os entes que povoam a ontologia explícita da América Latina.

Depois, por outro lado, fiquei imaginando se esse vídeo não seria mais uma das gozações feitas por uma programa da internet burguês, feita por atores que possuem sua situação de vida resolvida e que, querendo fazer um humor "inteligente", reproduzem toda a ignorância e estupidez da classe a qual pertencem. Fazem o estilo do humor que "quer tocar em questões polêmicas" com clichês pré-estabelecidos, mas se tornam tão vazios quanto sua consciência. Se essa deve ser a interpretação, urge com necessidade a pergunta pela Ontologia Latina, ou seja, urge, com caráter de necessidade a pergunta pelo modo de compreensão do ser do entes que somos, enquanto latinos, uma vez que está mais que estampado nos nossos rostos o que somos para os olhares estrangeiros.

Essa pergunta não é uma pergunta sociológica, nem uma pergunta local, mas uma pergunta universal, uma vez que a constituição ontológica dos modos de ser dos entes latinos dependem da constituição ontológica dos modos de ser dos europeus, norte-americanos, africanos, etc. Compreender a Ontologia Latina é compreender a hermenêutica que está por detrás dessa relação entre os entes particulares. Este post, na verdade, é apenas um despertar da minha velha angústia pessoal e não uma proposta filosófica em si mesma. Mas, ainda sonho em tematizar essa Ontologia Latina, que não é uma ideia de agora, mas uma ideia que já me incomoda faz tempo. Nesse sentido agradeço, miserentamente, ao Porta dos Fundos por me deixar mais indignado.

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