terça-feira, fevereiro 11

INTRODUÇÃO A EPISTEMOLOGIA


O termo Epistemologia, apesar de remeter a uma origem muito antiga (do léxico episteme já conhecido pela Grécia antiga), tem um sentido bastante recente. De acordo com Blanché (1975), a expressão, no sentido como conhecemos hoje, aparece pela primeira vez em 1906, no suplemento Larousse ilustrado[1]. Em contrapartida, Dutra (2010) afirma que o termo “epistemology”, em inglês, é anterior à essa data, tendo sido introduzido no século XIX pelo filósofo escocês James F. Ferrier. De modo geral, sob a égide etimológica, o léxico grego episteme tem como uma de suas traduções o sentido de “conhecimento verdadeiro e científico”[2], de modo a se opor à doxa. Já o léxico logos, pode ser perfeitamente aceito como discursividade. Assim, genericamente, Epistemologia quer dizer “aquele discurso a respeito do conhecimento válido”.
Mesmo com um aparecimento consideravelmente recente, sua gênese remonta à gênese da própria ciência no século XVII. De acordo com Dutra (2010), algumas obras podem ser lembradas como “precursoras” do sentido contemporâneo da epistemologia, a saber: Ensaio sobre o entendimento humano (Livro IV) – Locke[3], Novos ensaios – Leibniz, Discurso preliminar à enciclopédia – D’Alembert, Filosofia do Espírito Humano – Dugald Stewart, Curso de filosofia positiva – Comte e Discurso preliminar ao estudo da filosofia natural – John Herschel.
Apesar de tais obras, no espírito da modernidade, já poderem constituir um arcabouço pré-figurante do que seria a epistemologia, grandes foram as dificuldades para que essa mesma modernidade forjasse essa nova noção, haja vista que a filosofia inglesa considerou, até o século XIX, a física como “filosofia natural”. Por outro lado, um sentido propriamente distinto de epistemologia só foi possível tanto pela filosofia francesa quanto pela filosofia alemã com os termos sciense e Wissenschatlerhe respectivamente.
É comum ainda, dentro do espírito da filosofia inglesa até hoje, encontrar o termo “epistemologia” com referência tanto a uma filosofia da ciência quanto à clássica teoria do conhecimento (DUTRA, 2010). Para os ingleses, o que se compreende por epistemologia são duas situações: a da justificação da veracidade das sentenças e do processo de aquisição do conhecimento. Esses dois momentos são respectivamente denominados de epistemologias da justificação e da investigação, sendo que o primeiro trata dos processos lógicos da cognição e o segundo dos processos psicológicos da cognição.
Seguindo Blanché (1975), para aquelas correntes em que não há conhecimento válido que não o científico, como é o caso das teorias advindas do positivismo, teoria do conhecimento e epistemologia também se confunde e realmente devem ser tidas por sinônimas, uma vez que toda teoria do conhecimento só a é enquanto teoria do conhecimento científico. De outro modo ainda, há aqueles que fazem uso da epistemologia como filosofia da ciência ou mesmo parte da filosofia da ciência, ressaltando, nessa perspectiva, sua relação com a filosofia. Nesse caso, ela seria uma reflexão filosófica sobre os princípios, métodos e fundamentos da ciência em geral, não se restringindo apenas à sua possibilidade cognoscitiva. 
Para nós, contrariando as filosofias inglesas e positivistas e nos aproximando da filosofia francesa bem como de toda tradição filosófica, o que se considera propriamente por “epistemologia” é aquela teoria que trata do conhecimento especificadamente científico. A partir dessa especificação, a epistemologia se distingue da “teoria do conhecimento” e ou “gnosiologia” na medida em que esta se preocupa com a possibilidade do conhecimento em geral.
Desse modo, a teoria do conhecimento seria mais abrangente podendo até incluir a epistemologia como uma de suas divisões, enquanto que a epistemologia se restringiria às especificações internas do conhecimento científico. É claro que a epistemologia acaba interagindo com essas três instâncias: a inteligibilidade científica, a teoria do conhecimento e a filosofia da ciência, demarcando maiores ou menores participações dependendo das perspectivas a que se persegue. Levando em consideração esse âmbito de compreensão da epistemologia, pode-se assim definir a epistemologia como uma teoria filosófica que delimita a origem, a natureza, os objetos, os métodos e a finalidade do conhecimento científico.
Por outro lado, Bunge (2002) acredita que a epistemologia, enquanto filosofia da ciência, não pode ser tomada apenas como um capítulo dentro da teoria do conhecimento. Existem problemas semânticos, ontológicos, axiológicos, éticos e outros problemas como o alcance do conhecimento científico em oposição ao vulgar, a classificação das ciências etc. que validam uma reflexão verdadeiramente “metacientífica”. 
De Platão a Russell, chamado período clássico da epistemologia, a reflexão especificadamente sobre as ciências eram feitas por cientistas e matemáticos, quando muito, por algum filósofo “nas horas de ócio”[4] (BUNGE, 2002, p.22). Com efeito, com exceção de Boltzman e Mach, nenhum desses pode ser tomado como epistemólogo especificadamente. Isso não quer dizer que, nesse período não tenha aparecido questões realmente epistemológicas, apenas não há ainda uma visão de conjunto desse ramo em específico, já que tais questões ora eram tomadas como parte da teoria do conhecimento ora como a própria teoria do conhecimento. Essa situação só mudou radicalmente com a fundação da Wiener Kreis (Círculo de Viena) em 1927. Comenta Bunge (2002, p.23) que
Pela primeira vez na história se reunia um grupo de epistemólogos, alguns deles profissionais, com o fim de inter-relacionar ideias e elaborar coletivamente uma nova epistemologia, o empirismo lógico. A reflexão filosófica individual e ilhada, portanto incontrolada, é agora complementada pelo trabalho em equipe, a imagem e semelhança daquilo que já se havia imposto nas ciências.

A este Círculo estiveram relacionados de alguma maneira os primeiros “epistemólogos profissionais” como Moritz Schlick, Rudolf Carnap, Hans Reichenbach, Viktor Kraft, Herbert Feigl e – mesmo que tangencialmente ao Círculo- Karl Popper e Ferdinand Gonseth. Um dos resultados dos encontros semanais do Círculo foi o primeiro congresso internacional realizado em Paris no ano de 1935 e a fundação da revista Erkentnnis. Desde então, este ramo da filosofia que se preocupa com a garantia da “cientificidade” como sinônimo de validade, hoje já tem seu valor independente e para provar essa importância, Bunge (2002) elenca as várias revistas internacionais especializadas em epistemologia como Philosophy of Science, The British Journal  for the Philosphy of Science, Biology and Philosophy, Phylosophy of the Social Science y Synthese.
Em virtude de sua complexidade, Murillo, fazendo memória de Piaget, destaca três categorias da epistemologia. A primeira é a metaciência, que tem como ponto de partida a reflexão sobre as ciências com a finalidade de extrair dela uma teoria geral do conhecimento. Essa teoria geral do conhecimento buscada pelas metaciências é, na verdade, uma forma de prolongamento das ciências, já que para ela não há outro tipo de conhecimento que não o científico[5]. Como exemplo, temos a Teoria Semiótica da Complexidade[6], uma espécie ontologia científica que se preocupa em aplicar as teorias semióticas na astrofísica. A segunda é a paraciência, que tem por ponto de partida uma crítica já estabelecida sobre as ciências de modo que, apoiando-se nela, quer alcançar um conhecimento distinto do científico. Como exemplos, temos a Parapsicologia, a Ufologia e a Projeciologia. Isso significa que nas paraciências, ao contrário das metaciências, o objetivo não é prolongar a ciência. E por fim, as epistemologias científicas que se restringem ao âmbito das ciências e buscam resolver seus problemas internos.
Hodiernamente, comenta Blanché (1975), as epistemologias estão cada vez mais enraizadas em si mesmas, prescindindo rapidamente do contato com a filosofia. Com efeito, segue o autor, isso decorre do fato de que a crise sofrida pelas ciências em seus fundamentos obrigou-as a encarar a si mesma e a rever seus alicerces, engendrando o que Frey intitulou de progresso circular interno e regional. Isso significa que a epistemologia contemporânea tende, cada vez mais, a internalização (partir de si mesma) e a regionalização (se especificar).
De modo inverso, Blanché (1975) acredita que, ainda que as epistemologias contemporâneas estejam internalizadas e regionalizadas, a relação com as questões filosóficas não irá se esgotar. Primeiramente, segue o autor, ainda existem epistemologias em nosso tempo que mantêm contatos estreitos com a filosofia, sugerindo-a ou confirmando-a. Em segundo lugar, apesar da regionalização das epistemologias, subsistem questões de ordem geral que escapam a ossada dos especialistas. Em terceiro, a interdisciplinaridade se impõe como fator necessário ao conhecimento científico, o que permite um contato, mesmo que indireto, com a filosofia. E por fim, as paraciências ainda propõem questões que dividem os cientistas, de modo a ter de reconhecer a importância da filosofia[7].
Nesse sentido, nosso autor propõe que exista uma via de acesso filosófica e uma via de acesso científica como acessos possíveis às realidades epistemológicas, de modo a rejeitar uma total dicotomia entre uma epistemologia científica e filosófica respectivamente. Esse modo de compreensão do âmbito epistemológico, com duas entradas possíveis, permite, ulteriormente, delinear um grupo de problemas que gravitam sobre ele.
Esses problemas concernentes à epistemologia podem ser classificados em seis ordens, conforme nos informa Murillo: 1) estão em consonância com a lógica e a metodologia e que pertencem à logicidade científica; 2) estão em consonância com a semântica das ciências, i. é, os conceitos referenciais, as representações, os conteúdos, as interpretações e a verdade científica; 3) estão em consonância com a ontologia do conhecimento científico; 4) estão em consonância com a axiologia das ciências, ou seja, com o sistema de valores intrínsecos à comunidade científica; 5) estão em consonância com a estética das ciências; 6) estão em consonância com a intencionalidade da ação científica.

Referências

BLANCHÉ, R. A epistemologia. Lisboa: Presença, 1975.
BUNGE, M. Epistemología. Curso de actualización. 3. ed. México; Buenos Aires: Século XXI, 2002.
DUTRA, L. H. de A. Introdução à Epistemologia. São Paulo: UNESP, 2010.
MURILLO, Luis Enrique Parra. Epistemología de las ciencias. Disponível em: http://200.26.134.109:8091/unichoco/Ceres/ARCHIVOS/Ciencias%20sociales/ciencia/EPISTEMOLOGIA%20DE%20LAS%20CIENCIAS.pdf, pp.5-12.
PETERS, F. E. Termos filosóficos gregos. Um léxico histórico. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1974.




[1]A palavra epistemologia, que significa literalmente teoria da ciência, só recentemente foi criada [...] Segundo o Dicionário de Robert, o seu aparecimento nos dicionários franceses data de 1906, no suplemento do Larousse ilustrado.
[2] Episteme pode ser traduzido como: 1) conhecimento verdadeiro e científico, opondo-se imediatamente à doxa; 2) corpo organizado de conhecimento, uma ciência; 4) conhecimento teorético, oposto à pratiké e poietike. (PETERS, 1974, P.77).
[3]  Cf. An Essay concerning Human Understanding, publicado em 1690.
[4] Dentre esses pensadores se destacam: John Herschel, Auguste Comte, Adrien Marie Ampere, Bernhard Bolzano, William Whewell, Alexander von Humboldt, Claude Bemard, Hermann von Helmholtz, Ernst Mach, Eugen Dühring, Friedrich Engels, Ludwig Boltzmann, Pierre Duhem, Henri Poincaré, Charles Sanders Peirce, Giuseppe Peano, Alessandro Padoa, Bertrand Russell, Alfred North Whitehead, Hans_Vaihinger, Wilhelm Ostwald, Abel Rey, Vladimir Illich Lenin, André Lalande, Federigo Enriques, Emile Meyerson, Norman Campbell, Arthur Eddington, Emst Cassirer e Hermann Weyl. (BUNGE, 2002, p.22).
[5] "A metaciência é um campo do saber que tem por objeto a própria ciência e por tarefa desenvolver as categorias científicas fundamentais que estão presentes em todas as ciências. Neste livro, são discutidos os quatro principais fundamentos da metaciência - ontologia, epistemologia, lógica e metodologia -, visando à construção de um repertório metacientífco comum entre pesquisadores. É esse repertório comum que pode fornecer algumas garantias para a gestão metodológica e interdisciplinar e o gerenciamento da conectividade entre projetos que têm em mira objetivos e resultados compartilhados."
BRAGA, Maria Lucia Santaella; VIEIRA, Jorge Albuquerque. Metaciência como guia da pesquisa: uma proposta semiótica e sistêmica. São Paulo: Mérito Editora, 2008.
[6] Professor Jorge da Albuquerque Vieira: tese de Doutorado Semiótica, Sistemas e Sinais (1994); livros Formas de Conhecimento: Arte e Ciência, uma visão a partir da complexidade - Volume 1 Teoria do Conhecimento e Arte (2006), Volume 2 Ciência (2007) e Volume 3 Ontologia (2008); (com Lucia Santaella) Metaciência como Guia de Pesquisa - Uma proposta Semiótica e Sistêmica (Editora Mérito, 2008)
[7] Primeiro, verifica-se que, de facto, algumas das grandes epistemologias do nosso tempo permaneceram estreitamente associadas a uma filosofia, quer sugerindo-a, quer confirmando-a [...] [2] Acontece ainda que ao lado, ou antes, acima das epistemologias regionais, subsistem problemas de epistemologia geral que o cientista pode certamente abordar, mas que ultrapassam a sua competência privilegiada de especialista. [3] Uma epistemologia interna [...] não pode ser de maneira nenhuma ao mesmo tempo geral senão através de um recurso a uma interdisciplinaridade que permitisse ao filósofo não se encontrar deslocado [...] [4] Enfim e sobretudo, as epistemologias internas e regionais dificilmente podem deixar de desembocar [...] em questões que poderíamos classificar de paracientíficas, na medida em que continuam a dividir os cientistas, cujos métodos não permitem anulá-las, e a que se deve chamar também filosóficas, visto inscreverem na tradição da filosofia.

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