terça-feira, fevereiro 4

NATUREZA E PERTINÊNCIA DE UMA FILOSOFIA DO MUNDO



O que se pode entender por “Cosmologia Filosófica”? Do que se ocuparia uma “Filosofia do Mundo”? A resposta mais óbvia seria: “uma filosofia que se ocupa do mundo!” Entretanto, essa não é uma resposta tão simples de se dar. Considerando-a, há dois lados envolvidos nessa resposta. O primeiro, o lado da filosofia e o segundo, o lado do mundo. No que diz respeito ao primeiro lado, a primeira coisa que temos que nos indagar é: que filosofia daria conta do mundo? Que compreensão hermenêutica é capaz de traduzir e expressar a complexidade do sentido da palavra mundo? Haveria uma única filosofia do mundo, haja vista que não existe uma única filosofia? Que sentido tem falar de uma reflexão racional do mundo? Por outro lado, ao falarmos “mundo”, outra gama de problemas salta aos olhos. O que é o mundo? Onde experienciamos o mundo? Que experiências me atestam a veracidade de uma totalidade? Em que sentido a palavra mundo deve ser empregada? Quantos mundos existem, se é que existem mais de um? Essas são apenas algumas questões que podem ser levantadas numa conversa inicial. Se falar de filosofia e de mundo, falamos de dois grandes âmbitos de compreensão cuja complexidade seria a única coisa em comum entre ambos, haveria, portanto, uma “filosofia do mundo”? E se houver, que importância tem ela para a compreensão de nossa realidade?

Essas são as duas questões chave desse curso. Entender o que significa falar de uma reflexão filosófica sobre o mundo e, por conseguinte, correlacionar esse entendimento com a realidade de hoje. Para tanto, é importante, antes de qualquer coisa, localizar esse tipo de conhecimento. Mundo é uma palavra que tem uma vasta significância, abrange diversos tipos de entes, desde os entes materiais quanto os entes imaginários, imateriais ou mesmo transcendentais. Nesse sentido, por mundo, queremos dizer da totalidade dos entes ou da totalidade do real. Essa totalidade, por sua vez, é acessada de diversas formas. A mais comum é a experiência espontânea feita pela percepção, pela qual vivenciamos os mais diversos tipos de entes. Outra forma de acessar esse real é pela teoria científica, cujas mais variadas ciências se apresentam como a biologia, a física, a química etc. Dessa compreensão científica, nasce as chamadas ciências naturais ou ciências da natureza, que tipificam os fenômenos mediante seus respectivos métodos e técnicas. Contudo, esse mundo não é composto somente de entes experimentáveis sensorialmente, mas existem entes que escapam as vias sensórias e são operacionados pela pura razão como é o caso das matemáticas e das metafísicas que trabalham com entes idéias e transcendentais.

Mutatis mutandi, qual seria o lócus, dentro da perspectiva do conhecimento, de uma filosofia do mundo (filosofia da natureza ou ainda cosmologia filosófica)? Deveria estar alocada dentro das ciências naturais pelo fato de tratar de entes materiais? Ou deveria estar situada numa metafísica por se tratar de uma reflexão filosófica? Ao que parece, situá-la dentro de uma dessas possibilidades, seria fazer nada de novo, haja vista que, por um lado, na antiguidade, a filosofia aristotélico-tomista compreendia que as questões físicas e metafísicas deveriam ser vistas sob um mesmo prisma, i. é, dentro de um viés metafísico; por outro lado, as ciências modernas, com Galileu, Descartes e Newton, reformularam essa relação redirecionando o pêndulo para o outro lado, i. é, para um viés mais físico. Essa polaridade na relação física-metafísica criada pela evolução natural da compreensão do mundo implicava ainda o fato de que entre as questões físicas e as metafísicas nada podiam subsistir, sendo necessariamente uma subsumida pela outra.

Consequentemente, essa compreensão engendrou uma desconfiança sobre esse tipo de conhecimento e sua fundamentação passou a ser cada vez mais impossível, para não dizer inútil. É o caso da postura positivista e da filosofia idealista que tem em Comte e Kant, respectivamente, seus representantes mais profícuos. O primeiro, nega a possibilidade de qualquer filosofia do mundo pelo simples fato de que todo ente só o é enquanto ente material e por isso mesmo deve ser teorizado e compreendido pelas ciências naturais, questionando, inclusive, a própria possibilidade da filosofia em si mesma. A negação dos objetos metafísicos, na visão positivista, implicaria na própria impossibilidade de abordagem filosófica do mundo. O último, delineando os limites da razão, reconhece que a experiência é a fonte originária do conhecimento fenomênico e que a idéia da totalidade (síntese dos fenômenos) lha escapa, tendo que ser considerada uma idéia transcendental, ou seja, de ordem epistemológica. Nesse sentido, uma filosofia do mundo é seria uma filosofia que não teria respaldo fenomênico, i. é, fundamento no real e sim na subjetividade. Com efeito, tanto o kantismo quanto o positivismo abrem uma gama de dificuldades relevantes para a fundamentação de uma filosofia do mundo, pois ambos percebem a dificuldade de acesso ao ente que pode ser considerado como “mundo” e reconhecem que o acesso fenomênico é limitado, parcial e finito, ficando assim relegado às ciências físicas, quando muito a uma epistemologia idealista, o acesso ao conhecimento das coisas do mundo. 

Como então considerar uma filosofia do mundo? Haveria sentido em insistir em tal proposta? Aqui se encontra a contribuição de Selvaggi (2001) para a constituição e justificação de uma filosofia de mundo. Em primeiro lugar, o problema de uma filosofia do mundo não se encontra nela mesma, mas, ao contrário, na compreensão filosófica do acesso ao real. As oposições se dão pelo fato de que tanto a metafísica quanto a epistemologia estabelecem um tipo de acesso ao real. A metafísica reconduz todo ente à sua relação com seu fundamento primeiro, que seria a compreensão aristotélico-tomista do ser. Enquanto que as epistemologias se asseguram na compreensão materialista do ente, a qual se pode ter acesso apenas pela percepção sensorial, como faz a tradição moderna de ciência. Assim sendo, uma filosofia do mundo deveria ser aquela que consiga dar conta tanto dos objetos metafísicos (na relação com o ser e suas propriedades) quanto dos objetos físicos (na relação com a extensão e suas propriedades). Isso quer dizer que uma filosofia do mundo deva dar conta da totalidade do real sem privilegiar um tipo de acesso, senão acessar o próprio real. O fato de que nem a metafísica nem a epistemologia tratam da totalidade do real, pelo contrário, são específicas em seu modo de acesso, justifica a necessidade de postular uma filosofia que “dê conta do real”. Retomando uma intuição wolffiana, Selvaggi (2001) entende que tanto as epistemologias quanto as metafísicas necessitam de um solo comum de compreensão, um solo que as agregue numa totalidade de sentido. Essa compreensão do todo que abarca tanto os elementos físicos quanto metafísicos seria uma filosofia do mundo.

Mesmo reconhecendo a necessidade de uma compreensão filosófica da totalidade, as compreensões metafísicas e físicas não devem ser desconsideradas, uma vez que a totalidade não pode ser simplesmente a justaposição ou a síntese do real. O que faz o todo ser o todo é as partes e vice e versa. Desse modo, as compreensões físicas e metafísicas são de relevantes para a sustentação de uma filosofia do mundo que, especificadamente, deve ser compreendida como uma ontologia. O que isso significa? Dizer que uma filosofia do mundo só se sustenta enquanto ontologia é o mesmo que dizer que é uma filosofia que se pretende tratar da relação originária entre os entes metafísicos e físicos. Essa relação dada, por sua vez, implica em considerar tanto os entes materiais como objetos materiais da cosmologia filosófica quanto os entes metafísicos na sua relação com o ser como objetos formais. Efetivamente, uma filosofia do mundo seria capaz de mostrar a originariedade tanto da metafísica quanto da epsietmologia de modo que ambas se complementem a partir de um fundamento comum que é o mundo. Nas palavras de Wolff, as quais é tomada de empréstimo por Selvaggi (2001), a cosmologia filosófica é a ciência do ente sensível e móvel enquanto ente, na medida em que o ente é levado em consideração tanto nos seus aspectos sensoriais quanto nos seus aspectos metafísicos, i. é, na sua entidade de ente, configurando-se numa totalidade.

Todavia, essa definição de uma filosofia do mundo que tem por base as intuições de Selvaggi (2001) a partir da questão do mundo como totalidade originária do real não é algo tão simples. Uma vez que se estabelece uma filosofia do mundo como fundamento do real, pressupõe-se não só que se pode realmente ter acesso a essa relação como também que essa relação originária exista necessariamente. Os questionamentos de Kant e de Comte ainda são para essa disciplina uma reflexões pertinentes que devem sempre alertar aos possíveis dogmatismos. Sobretudo no que diz respeito ao problema da centralidade. A filosofia contemporânea aponta para o problema de se postular um centro e aposta muito mais na descentralização de todas as instâncias do real: na democracia, como proposta política; construtivismo, proposta educacional, sociedades alternativas e sustentáveis, proposta social; multiculturalismo, proposta cultural, pluralismo religioso, proposta religiosa; filosofias da finitude, como proposta filosófica etc. Caberia hoje uma reflexão filosófica que postule a possibilidade da instalação da centralidade, como pretende uma filosofia do mundo? Que mundos seriam convidados a dialogar e a partir de quem seria sustentada uma centralidade? A virtualidade hoje não se constitui um mundo quase que paralelo ao mundo tido real? A proposta de Selvaggi daria conta de relacionar os entes virtuais e seus impactos sobre os entes sensoriais, uma vez que os entes virtuais nem são físicos nem metafísicos? Seria necessário uma cosmologia virtual? Estas e outras são questões que se impõe numa abordagem com tamanha pretensão como a de uma filosofia do mundo ou cosmologia filosófica. 

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