quarta-feira, abril 30

O QUE SIGNIFICA PENSAR DESDE A AMÉRICA LATINA?




Sou professor de filosofia somente há 4 anos, mas há 10 anos, desde minha graduação, que mexo com filosofia. Nesses 10 anos de contato com a filosofia, nunca vi nos maiores manuais de História da Filosofia qualquer linha que fosse sobre a existência de filosofia na América Latina, ou mesmo, do pensamento latino-americano.


É mui comum, hoje, reincluir, na história do pensamento universal o pensamento oriental, sobretudo, depois que o Islamismo "invadiu" o Ocidente em todos os aspectos (ainda que essa invasão não seja das melhores formas ou com as pessoas certas). A entrada da existência do Islã em nossa sociedade, obrigou-nos - nós ocidentais - a rever nossa forma de olhar para o mundo e, principalmente, para a história do mundo. Contudo, essa mudança de "mirada" ainda não foi levada a cabo totalmente, pois ainda hoje a América Latina não foi ontologicamente reconhecida nem pelo Ocidente, muito menos pelo Oriente.

Reconduzir os modos de pensar dos latinos ao mero modo de pensar do Ocidente, como é costume fazer, não é um modo coerente com o que representa a América Latina nem para si nem e para a compreensão de mundo. Historicamente, a Latino-América já mostrou que tem modos mui próprios de compreensão de si mesma, do modo como ela foi forjada e para onde ela pretende ir. Só a título de ilustração, as seguidas eleições de representantes de esquerda `a presidência nos países da América Latina e os subsequentes golpes advindos dos chamados "países desenvolvidos" (como ocorreu no Paraguai, por exemplo, com a deposição do presidente Lugo apoiado pelo Vaticano) evidenciam que nossa maneira de agir e pensar incomoda muita gente. E se incomoda é porque não somos meros "Ocidentais"....

Essa compreensão histórico-social também deve se estender para o campo do pensamento. Não podemos continuar  a acreditar que na América Latina o pensamento aqui produzido seja unicamente a mera reprodução do pensamento europeu, ou seja, que a produção de conhecimento aqui desenvolvida seja unicamente uma produção que reproduza as categorias desenvolvidas na Europa. É claro que, em termos de tradição de produção de conhecimento, o pensamento europeu possui muitos anos a frente, pelo simples fato de que eles já produzem conhecimento muito tempo antes de nós. Contudo, isso não quer dizer que enquanto os europeus produziam conhecimento nós não fazíamos nada... Esse, talvez, seja o nosso maior equívoco: acreditar que tudo o que sabemos deve exclusivamente da Europa.

Estudos recentes de Desenvolvimento Sustentável juntamente com toda a reflexão atual sobre ecologia, partem, quase em sua totalidade, de princípios desenvolvidos pelos indígenas da América Latina. O modo de lidar com a Natureza de modo a manter sua sustentabilidade é hoje uma lição aprendida com aqueles que "nada faziam" enquanto os que "tudo faziam" produziam conhecimentos aos moldes cartesianos. Isso significa, mais uma vez, que a produção de conhecimento está muito ligada com a relação daqueles que estabelecem o poder econômico. Nesse sentido, a América Latina só passou a ser conhecida, em termos de conhecimento, quando começou a falar de filósofos, pensadores, modelos e paradigmas europeus. Ou seja, quando um latino estudava na Europa e falava para Europa, aí sim, ele poderia ser ouvido. Prova disso é toda a história da filosofia na América Latina. A filosofia desenvolvida na América Latina é literalmente uma filosofia somente desenvolvida aqui, pois foi toda importada da Europa. Isso, ao contrário de ferir o que estamos dizendo, atesta que nesse desenvolvimento, há um modo de ser livre agindo sobre ele. Esse modo de ser é o modo latino.

Temos de nos apropriar de nosso modo de ser, SER-LATINO. Portanto, a pergunta que dá título a esse post - o que significa pensar desde a América Latina? - não é, na verdade, uma pergunta, mas uma necessidade. Urge sempre mais o reforço dessa necessidade que "pelos caminhos da América..." (como diz a canção) vai desvanecendo e perdendo-se pelos meandros da história. O pensamento latino não é uma pergunta, pensar a partir de cá não é uma mera hipótese, mas é algo perfeitamente factível. Basta olhar exemplos como: Bondy, Leopoldo Zea, Enrique Dussel, Miró Quesada e tantos outros que assumem o pensar como algo intrínseco à cultura e a história e não como um faculdade transcendental a lá Kant. É nos limites da cultura e da história social de um povo que seu pensar se instaura e faz morada, com suas linguagens e e seu modo de ser. Se "a linguagem é a morada do ser", já alertava Heidegger, linguagem e pensamento do ser também co-pertencem à cultura e à história. É somente nessa base de compreensão que podemos pensar a partir de cá, a partir daqueles que sempre foram negados o direito de pensar, daqueles que foram ditos que não sabemos pensar.

Sobre isso quero posteriormente me delongar mais!   

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