quarta-feira, julho 2

CARTAS PASTORAIS (1 TIMÓTEO)


 
  1. Introdução

            É consenso entre os biblistas que naquilo se denominou “Corpus Paulino” os textos de 1 e 2 Timóteo e Tito são em si um grupo de escritos homogêneos[1]. São também chamadas de Cartas Pastorais (ou Epístolas Pastorais)[2] desde o início do século XVIII por D. N. Berdot e P. Anton (BÍBLIA TEB, 1994, p.2317). Segundo Fabris (2001) esta denominação pastoral tem a ver com seus destinatários: tanto Timóteo e Tito são discípulos e colaboradores do Apóstolo Paulo. Também é importante notar que, com exceção de Filemon, estas são as únicas cartas endereçadas a pessoas. Tem por conteúdo, de modo geral, as “normas relativas aos <<pastores>> das igrejas” (BÍBLIA TEB, 1994, p. 2317) e se detém em “fórmulas abstratas e menos imagens e metáforas” (RUIZ, 1999, p.177). O objetivo geral destes textos está centrado na organização das comunidades com a ausência do Apóstolo e a preocupação de sistematizar a doutrina. Neste sentido, segundo Cothenet (1995) está o germe daquilo que mais tarde será intitulado Direito Canônico. A grande importância dos textos pastorais está na sua originalidade de mostrar quais são as qualificações dos pastores e qual é o seu ministério. Não se pode negar o fato de que tais textos  ensinam que há uma “verdade” a ser promovida, e “erros” a serem combatidos e             que Cristo se acha no centro desta verdade (CHAMPLIN, 1986, p.275).

  1. Destinatário

            O que se sabe de Timóteo está diretamente dito tanto por Paulo ou indiretamente por Lucas em sua obra dos Atos. Para Cothenet (1995), de todos os colaboradores de Paulo, Timóteo é o mais conhecido. Esta personagem aparece pela primeira vez no Segundo Testamento em At 16,1: “Havia ali [Listra] um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia que abraçara a fé e de um pai que era grego”[3]. Segundo relata os Atos, foi em Listra, cidade da Lacônia que se econtrava Timóteo. Pertencente à média burguesia, seu pai era heleno, sua mãe, Eunice, judia, convertida ao cristianismo e sua avó Loíde, “mulher de fé sem subterfúgios” (BÍBLIA TEB, 1994, 2317). Fala-se, também, que Timóteo era pagão, pois não fora circundado no oitavo dia, segundo a lei judaica.
            Seu ministério junto a Paulo começou já na sua mocidade[4] e sua saúde era precária, como atesta em 1 Tm 5,23 “Cessa de beber só água. Toma um pouco de vinho por causa do teu estômago e de tuas repetidas franquezas”. Segundo os Atos, Paulo o circuncidou, na tentativa de amenizar o embate dos judaizantes (At 16,3). Segundo a própria epístola, há uma alusão que seu ministério tenha sido de origem profética e confirmada pela imposição das mãos do colégio dos anciãos: “Eis a instrução que eu te confio, Timóteo, meu filho, consoante as profecias outrora proferidas sobre ti (...) Não descuideis o dom da graça que há em ti, que foi conferido por uma intervenção profética acompanhada da imposição das mãos pelo colégio dos anciãos” (1 Tm1,18; 4,14). Segundo Barbaglio (1993), tanto Timóteo quanto Tito são considerados “protótipos das autoridades eclesiásticas” do cristianismo da Ásia Menor.
 Esteve presente junto a Paulo em diversos momentos de sua atividade missionária principalmente na confecção de algumas cartas como: 1 e 2 Tessalonicenses (2 Ts 1,1), a 2 Coríntios (2 Cor 1,1), Romanos (Rm 16,21), Filipenses (Fl 1,1), Colossenses (Cl 1,1) e Filêmon (Fm 1). Estes e outros relatos mostram a amizade, o carinho e principalmente a confiança que Paulo tinha por Timóteo.  

  1. O Problema da Historicidade e da Autenticidade

            Tanto as cartas a Timóteo quanto a de Tito, possuem um extrato comum, do ponto de vista do conteúdo e do estilo. Há de se suspeitar que tais textos devem ser contemporâneos e possuírem o mesmo ou os mesmos redatores. No caso de 1 Timóteo, o autor diz que: “Conforme [eu Paulo] te recomendei ao partir para a Macedônia, permanece em Éfeso...” (1 Tm 1,3). Nos Atos, há um relato que informa uma viagem de Paulo a Macedonia, que seria a “terceira viagem paulina”: “Quando o tumulto se acalmou, Paulo mandou chamar os discípulos e os encorajou. A seguir despediu-se deles e tomou o caminho da Macedônia” (At 20,1). Segundo a Bíblia TEB (1994, p.2319), tal ligação não seria possível, uma vez que Timóteo acompanhara Paulo em tal empreitada. O que pensar então? Segundo o mesmo comentador da TEB (1994) duas alternativas poderiam ser recorridas: a) ou se despreza os dados históricos do texto; ou b) acredita-se que após o primeiro cativeiro em Roma, que terminou por volta de 63, tenha recomeçado o seu ministério apostólico e redigido a epístola depois de 63 e antes da 2 Timóteo.
            É importante ressaltar que, ao que se refere à vida da Igreja, as Pastorais refletem uma situação que parece posterior à que se encontra nas grandes cartas paulinas, o que novamente põe em xeque a historicidade de tais textos, é o que diz Ruiz (1999) A organização das comunidades é algo bem diferente das realidades das cartas paulinas, onde a palavra presbítero não se encontra nunca e os bispos e diáconos não são mencioandos, com exceção em Fl 1,1: “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Jesus Cristo que estão em Filipos, com os seus epíscopos e diáconos”. Para Champlin (1986) os termos “bispos e diáconos” se referem à funções na igreja e não sobre ofícios formais, como atesta as pastorais.
            Outro argumento utilizado para discutir a historicidade, colocando os textos pastorais para a posterioridade de Paulo são as heresias. Para o comentador da TEB (1994, p.2320), as heresias combatidas pelos textos, não são oriundas dos gnósticos e sim dos judaizantes: “Os falsos doutores, que parecem atuar no âmago mesmo da Igreja, são influenciados mormente pelas doutrinas judaizantes (...) Mas não é possível descobrir também, no seu ensinamento o germe do dualismo gnóstico, como a iterdicao do casamento e certos tabus alimentares”. Entretanto, para Champlin (1986) as heresias são fruto do gnosticismo judaizante, realidade esta que se difere das realidades de Colossenses, já que, “o gnosticismo do território em foco, nos tempos de Paulo, era essencialmente ascético (Cl 2,20ss) ao passo que aquele tipo atacado  nestas epístolas pastorais é definidamente libertino”.
            Contudo, isto só é, também possível se se aceita que tal escrito é de Paulo. Neste sentido, entra-se em outro problema, o da autenticidade do texto. Este é um problema que não há uma singularidade de pensamento, mas a maioria caminha para uma não autenticidade dos textos pastorais. Segundo a tradição cristã, as primeiras Igrejas do cristianismo atestavam a canonicidade dos Textos Pastorais. Contudo, mesmo consideradas inspiradas, o problema da autoria não estava resolvido. Segundo o comentador da TEB (1994) há vários motivos em hesitar na confirmação da autoria destes textos. Partindo da crítica externa, tanto Clemente de Roma, Policarpo de Esmirna como Inácio de Antioquia confirmava a canonicidade das Pastorais. Por volta da segunda metade do século II elas já eram consideradas autênticas de Paulo, pois já eram citadas por Teófilo de Antioquia e Irineu de Lyon, conforme relata Ruiz (1999).  A prova clássica disto é a inclusão destas no Corpus Paulino no “Cânon de Muratori”, antiga lista de escritos recomendados para a leitura litúrgica na Igreja, no ano de 180. Entretanto, opondo-se ao Cânon de Muratori, tem-se o Cânon de Marcião, que não aceita os Textos Pastorais[5]. Nas listas canônicas do século IV as epístolas pastorais estão anexadas às outras epístolas de Paulo sem que ocorra qualquer crítica a respeito.
            A crítica interna trata da problematicidade do vocabulário. Segundo a Bíblia TEB (1994), das 902 (podendo variar 901 ou 900) palavras usadas nos textos pastorais, 305 (ou 306) não se encontram em parte alguma dos outros escritos de Paulo e 175 (Há quem diga 335[6]) que não são próprias do contexto neotestamentário. Outra forma de entender tais mudanças, ainda pelo mesmo comentador, seria a possibilidade da mudança do pensamento do autor ou mesmo o seu escrito envelhecido, considerando que, de fato, Paulo tenha escrito as pastorais:

O autor mudou, desde a época das grandes epístolas. É normal que um pensamento tão vigoroso quanto o de Paulo esquive-se à esclerose e que esta evolução imprima o seu cunho na do vocabulário. Isso não é peculiar às Pastorais, mas se verifica em todo o evoluir da constituição do corpus paulino. Já não é fácil provar que 1 Tessalonicenses e Colossenses provenham da mesma pena que 1 Coríntios. Por outro lado, Paulo envelheceu. O seu estilo tornou-se lento e empanado, inclinado a moralizar (...) Tal evolução lingüística é normal num escritor que envelhece. (BÍBLIA TEB, 1994, p.2321)

            Também, mediante o mesmo comentário uma terceira via é possível: a influência do secretário. Conforme J. Jeremias apud TEB (1994, p.2321), o “amontoamento dos prisioneiros, a sujeira e a deficiência de iluminação dos calabouços, a dificuldade de escrever com a técnica antiga permitem supor que a influência do secretário tenha sido considerável”. Mesmo com estes argumentos fechar em uma decisão quanto a autenticidade é muito arriscado. Os que atribuem as Pastorais a Paulo, conforme Ruiz (1999) não podem abster de alguns critérios: a) seu estilo e seu vocabulário; b) seu contexto histórico; c) seu ponto de vista teológico. Já os que não acreditam que Paulo tenha sido seu autor, o mesmo comentador alerta para algumas considerações: a) a dificuldade de provar, por estatísticas, o caráter apócrifo de um texto; b) as grandes lacunas que existem em nossa informação sobre o cristianismo do século I; e c) a prudência que nos aconselham casos paralelos, ocorridos com a literatura clássica. Para Ruiz (1999, p.179): “por um lado, vê-se neles um grande fundo paulino, tanto no conteúdo como na expressão; mas, por outro, notam-se claramente algumas diferenças de estilo e de organizacao eclesiais”.
            A posição de Barbaglio (1993) é a de que tais escritos fazem parte do conjunto pseudepígrafos[7]. O autor destes textos conseguiu articular em três epístolas um verdadeiro “corpus epistolar” que mediante tal comentador, é denominado tritopaulinismo. Tal denominação se difere do deuteropaulinismo (Cl, Ef, e 2Ts) e do protopaulinismo das Epístolas autênticas[8]. Não somente se atribui sua autoria a Paulo, como também escolhe dois nomes importantes para serem seus destinatários: Timóteo e Tito. A data mais provável deste escrito é a de 100 d.C, contrariando Gass (2008) que a remete ao século II. A hipótese da autoria seria um chefe eclesiástico devido aos objetivos das cartas, i é, a organização hierárquica das comunidades. Para Baur apud Fabris (2001, p.688) a composição das cartas pastorais é atribuída aos discípulos de Paulo em Roma:

Elas teriam sido escritas no contexto da polêmica que os representantes da tradição paulina tinham de sustentar em duas frentes: contra os gnósticos, que recorrem ao epistlório paulino para defender suas posições e, contra os judaizantes, que combatem as teses antilegalistas de Paulo

Com efeito, segundo Champlin (1986), a grande questão das pastorais não é o de autoridade. Por mais que se debata sobre tal assunto “com imenso dispêndio de energia e muito material escrito” este seria o menor dos problemas levantados pelas pastorais, uma vez que, estas já são reconhecidas como canônicas desde os primórdios do cristianismo e utilizada na formação da fé cristã.

  1. Conteúdo

            Que há uma espécie de homogeneidade no tocante ao conteúdo, isto não é discutido. Segundo a Bíblia TEB (1994) o que se deve levar em conta é a relação que há entre as pastorais e o paulinismo. Conforme autor, existem semelhanças e dessemelhanças entre ambos. As semelhanças apontam que, o autor é um profundo conhecedor da teologia paulina. Os temas principais são tocados: a) a misericórdia divina manifestada em Jesus, que veio para salvar os pecadores (1Tm 1,12-17); b) o homem salva-se pela graça e por meio da fé (1Tm 1,16); c) a salvação dos homens efetua-se de conformidade com o plano eterno de Deus (1Tm 3,16); d) exortação aos escravos (1Tm 6,1-2); e) atitudes frente às autoridades (1Tm 2,1); f) a recordação dos sentimentos do apóstolo como a humildade (1Tm 1,12-14) e seu afeto para com Timóteo (1Tm 1,2.18; 5,23).
Contudo as dessemelhanças se manifestam tanto na concepção soteriológica quanto no vocabulário. São elas: a) a fé agora vista como fidelidade à doutrina e não mais ao Cristo (1Tm 4,1; 6,1); b) a “santa doutrina” (1Tm 1,10); c) depósito transmitido a homens escolhidos como Timóteo (1Tm 6,20); d) insistência de boas obras (1Tm 2,10; 5,10; 10,25); e) em lugar da fé a piedade (1Tm 4,7b); f) a não primazia do amor frente as virtudes (1Tm 4,12) g) enfraquecimento escatológico e necessidade de se viver piedosamente (1Tm 5,


Semelhanças


1 Timóteo
Paralelos Paulinos
Misericórdia Divina
“Mas foi-me concedida misericórdia, porque agi por ignorância, não tendo fé. De fato, para mim superabundou a graça de nosso Senhor...” (1Tm 1,13b.ss)
“Quanto à lei, ela interveio para que proliferasse a falta, mas onde proliferou o pecado superabundou a graça...” (Rm 5,20)
Salvação pela Graça[9] e Fé
“Mas, se me foi concedida misericórdia, foi para em mim por primeiro Cristo Jesus demonstrasse toda a sua generosidade, para que eu servisse de exemplo aos que creiam nele...” (1Tm 1,16)
“Mas quando Aquele que me pôs à parte desde o seio de minha mãe e me chamou por sua graça...” (Gl 1,15)
Salvação e o Plano Eterno de Deus
“Grande é, com certeza, o mistério da piedade. Ele foi manifestado na carne, justificado pelo Espírito, contemplado pelos anjos, proclamado pelos pagãos, acreditado no mundo, exaltado na gloria” (1Tm 3,16)
“Pois eu não quero, irmãos, que ignoreis este mistério, a fim de que não vos tomeis por sábios: o endurecimento de uma parte de Israel vai durar até que haja entrado a totalidade dos pagaos. E assim todo o Israel será salvo...” (Rm 11,25)
Exortação aos escravos
“Todos aqueles que estão sob o julgo da escravidão devem considerar seus senhores como de todo respeito, a fim de que não sejam blasfemados o nome de Deus e a doutrina” (1Tm 6,1)
“Escravos, obedecei aos vossos senhores deste mundo com temor e tremor, de coração simples, como a Cristo...” (Ef 6,5)
Atitudes de oração frente às autoridades
“Antes de tudo, pois, eu recomendo que se façam pedidos, orações, suplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e todos os que tem autoridade...” (1Tm 2,1)
“Que o Espírito suscite a vossa oração sob todas as suas formas, vossos pedidos, em todas as circunstâncias; empregai as vossas vigílias em uma infatigável intercessão por todos os santos” (Ef 6,18)
Afetividade Paulina: a)Humildade
b) Amizade
a) “Estou cheio de gratidão para com aquele que me deu força, Cristo Jesus nosso Senhor: foi ele que me julgou digno de confiança, tomando-me a seu serviço, a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e violento” (1Tm 1,12-13)



b) “...a Timóteo, meu verdadeiro filho na fé...” (1Tm 1,2)

a)”Pois eu vo-lo declaro, irmãos: este Evangelho que eu vos anunciei não é de inspiração humana (...) mas por uma revelação de Jesus Cristo. Pois vós ouvistes falar do meu procedimento, outrora, no judaísmo: com que arrebatamento eu persegui a Igreja de Deus...” (Gl 1,11-13)

b) “Espero no Senhor Jesus enviar-vos em breve Timóteo (...) Não tenho ninguém mais que compartilhe os meus sentimentos (...) qual filho junto de seu pai, ele se pôs comigo a serviço do Evangelho” (Fl 2,19-22)

  1. Estrutura[10]

I – Saudação (1,1-2)
II – Necessidade de Refutar os Falsos Ensinamentos (1,3-7)
III – O Uso apropriado da Lei (1,8-11)
IV – Paulo, Ministro Ideal e suas Experiências (1,12-17)
V – A Comissão de Timóteo (1,18-20)
VI – A Fé Cristã é para todos os homens (2,1-7)
VII – A Adoracao Pública e as Mulheres (2,8-15)
VIII – Qualificações dos Pastores (3,1-7)
IX – Qualificações dos Diáconos (3,8-13)
X – A Igreja em seu Caráter Ideal (3,14-16)
XI – Os Adversários da Igreja (4,1-5)
XII – O Ministro Ideal de Cristo (4,6-10)
XIII – O Exemplo de um Bom Ministro (4,11-16)
XIV – A Função do Ministro quanto a Grupos Específicos (5,1-2)
XV – As Viúvas e a Igreja (5,3-16)
XVI – O Sustento dos Ministros (5,17-25)
XVII – Injunções Miscelâneas (6,1-19)
a)     Sobre os escravos e os senhores (1-2)
b)    Sobre os falsos mestres (3-5)
c)     Sobre o dinheiro (6-10)
d)    Sobre os motivos de um homem de Deus (11-16)
e)     Sobre o dinheiro, novamente (17-19)
XVIII – Exortações Finais e Apelo a Fidelidade (6,20-21)


I – Saudação (1,1-2)

PauloV  apostoloV  Cristou  Ihsou  kat  epitaghn  Qeou  swthroV  hmwn  kai  Cristou    Ihsou ths  elpidoV  hmwn[11]. (1,1)

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, conforme a ordem de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança...”

            Segundo Cothenet (1995), a saudação dos Textos Pastorais tem muito a ver com a questão do cuidado e o zelo de conservação do que de evangelização. Necessariamente, possui uma estrutura: a) nome e títulos do remetente; b) destinatário;  e c) votos.


II – Necessidade de Refutar os Falsos Ensinamentos (1,3-7) e XI – Os Adversários da Igreja (4,1-5)


wn  tineV  astochsantes  exetraphsan  eiV  mataiologian,  qelontes  einai  nomodidaskloi, mh noountes  mhte  a  legousin  mhte  peri  tinwn  diabebaiountai. (1,6-7)

“Por terem apartado desta linha, alguns se extraviaram num palavreado oco; pretendem ser doutores da lei, ao passo que não sabem o que dizem, nem o que afirmam com tanta veemência.”

            Segundo Cothenet (1995), um dos grandes objetivos de 1 Timóteo é o combate às heresias, sendo, portando, sua grande missão. O texto de Timóteo se utiliza do termo grego << mataiologίan >>  para designar palavreado oco, discursos vãos, ou mesmo loquacidade frívola, que se contrapõe à “Sã Doutrina” que do grego se tem <<‘ugiainoύswh didaskalίa>> (1Tm 1,10)., que é um ensinamento conforme a piedade (1Tm 6,3). Barbaglio (1993, p.313) questiona: “qual é o critério que permite discernir entre a verdadeira e a falsa doutrina?”. A resposta é um tanto quanto sombria, pois seriam aquelas que Paulo zelosamente confiara a Timóteo e Tito de modo que este, como um depósito, deve ser preservado e fielmente transmitido. Neste ponto, tem-se uma mudança substancial com a doutrina paulina. Enquanto que as comunidades geradas ou animadas por Paulo eram convidadas a experimentar da graça de Deus mediante a fé em Cristo, pelo Espírito, agora, a preocupação não é a fé na graça experimental, mas na graça já transmitida e depositada em pessoas especialmente escolhidas para transmiti-las. Tem-se aqui a figura nítida do mediador, aquele que faz a ponte entre a Graça e os homens, de modo que esta não se perca em erros. Tem-se aqui, o início daquilo que se pode chamar de Tradição. (BARBAGLIO, 1993, p.313). As doutrinas que são  mataiologian, referem-se a mitos e genealogias sem fim. Seus autores se julgam a “doutores da Lei” (nomodidaskaloi), termo este, utilizado pelos fariseus (Lc 5,17 e At 5,34) em seus discursos vãos. O combate às heresias não é prerrogativa das Pastorais, umas vez que em Colossenses e Efésios Paulo não poupou críticas as especulações em torno das potências intermediárias entre Deus e o mundo. Tal prática acompanhou todo o cristianismo pos-apostólico com os apologistas do século II.
Conforme Barbaglio (1993), a frente inimiga não é tão clara de se definir, mas poderia se tratar de um movimento sincretista de tonalidades gnósticas e fundamentado em elementos judaicos. O autor de Timóteo não se mostra preocupado em dialogar com seus adversários de modo intelectual ou dialeticamente, contudo, diferenciando-se de Colossenses, sua polemica se limita em rejeitar denunciando a apostasia de modo a descartar e reprovar seus erros bem como seus “epítetos infames”. O comentador da Bíblia TEB descarta a possibilidade de gnose, tratando-se muito mais de um movimento judaizante (BIBLIA TEB, 1994, p.2320). Para Cothenet (1995), quando Timóteo fala de pseudociências poderia se pensar em alguma espécie de gnose, contudo, segundo textos antigos, não se tem nenhum escrito gnóstico antes do século II. Poderia se pensar que tal heresia combatida em 1Timoteo, seria a de Marcião, mas a ligação destas com a Tora, descartaria a possibilidade Marcião, pois este desprezava o AT. Com efeito, Champlin (1986) parece ser mais sensato e percebe que no fundo não existe um inimigo só, do qual, na epistola de Timóteo vai se tratar, mas a vários grupos. Dentre eles destacam-se dois grandes grupos: a) heresias judaico-cristãs e b) heresias gnósticas. Uma coisa é importante, seja quem for, o essencial em 1Timóteo e das pastorais em si é a fidelidade à mensagem paulina, aquilo que se denomina Depósito (1Tm 6,20), pois, o fundamental é exercitar com piedade aquilo que foi transmitido por Paulo a Timóteo.    


III – O Uso apropriado da Lei (1,8-11)

Oidamen  de  oti  kaloV  o  nomoV  ean  tiV  autw  nomimoV  crhtai       (1,8)

“Sabemos, com efeito, que a lei é boa, na medida em que é acatada como lei”

            Conforme a TEB (1994), estas palavras são eco do que já relatava na epístola aos Romanos (Rm 7,12.14.16). Mas, no contexto das pastorais o sentido da lei não é mais visto como função de desmascarar o pecado do homem, e sim de condição de possibilidade para a disciplina para aqueles que vivem na desordem. Um dado interessante deste bloco sobre a lei, é justamente que aqui há uma dessemelhança com a teologia paulina. Enquanto Paulo lutou contra o legalismo judaico por uma vivencia de uma fé mais livre na graça, em Timóteo há uma clara intenção de reforçar o aspecto legal, principalmente sob um olhar moralizante.


IV – Paulo, Ministro Ideal e suas Experiências (1,12-17)

uperepleonasen  de  h  cari tou kuriou  hmwn  meta  pistewV  kai    agaphV  thV  en  Cristw  Ihsou. (1,14)

“De fato, para mim superabundou a graça de nosso Senhor, bem como a fé e o amor que há em Cristo Jesus.”


            Este bloco quer fazer aparecer a figura de Paulo. O rosto paulino, conforme Cothenet (1995) está ligado com o aspecto vocacional. Toda e qualquer vocação deve, por autenticidade, possuir duas características: a iniciativa do Cristo que acredita na força daquele que é chamado, dado-lhe um apelo à uma reviravolta espiritual e o encaminhamento missionário frente a liberdade de assumi-lo ou não. Este rosto paulino, de um agente indigno, mas confirmado na graça de Deus e colocado em missão, quer ressaltar o aspecto da função organizacional da Igreja. Quem deve assumir uma função ou um serviço na Igreja? Aquele que, chamado por Deus responde se confiando uma missão específica. Seria uma separação elitista da hierarquia? Cothelet (1995, p.27) vai dizer: “Aqui o tempo de Jesus acha-se diretamente ligado ao tempo da Igreja, a história de Paulo ilustrando a gratuidade do Evangelho”. Parece que existe uma tentativa de ligação entre a figura de Paulo, como aquele que obteve a graça e a missão divina com as representações administrativas da Igreja neste período. Nas Cartas protopaulinas, há uma insistência de Paulo em se auto-afirmar Apóstolo, para de certa forma legitimar seu ministério. Mas nas pastorais teria o mesmo sentido? Não seria uma forma de colocar na boca de Paulo aquilo que se gostaria de dizer dos dirigentes das comunidades, uma vez que é claro a preocupação com a organização eclesial?

V – A Comissão de Timóteo (1,18-20)

Tauthn  thn  paraggelian  paratiqemai  soi,  teknon  Timoqee,  kata  taV  proagousaV  epi  se  profhteiV,  ina  starateun  en  thn  kalhn  strateian,  ecwn  pistin  kai  agaqhn  suneidhsin,  hn  tineV  apwsamenoi  peri  thn  pistin  enauaghsan. (1,18-19)

“Eis a instrução que eu te confio, Timóteo, meu filho, consoante as profecias outrora proferidas sobre ti, a fim de que, fortificado por elas, combatas o bom combate, com a fé e boa consciência. Alguns a rejeitaram e sua fé naufragou.”

            Ruiz (1999, p.179) diz:

O começo da Primeira Carta a Timóteo destaca algo muito especial em toda a eclesiologia paulina: os ministérios provem da vontade de Deus; a Igreja não é uma reunião puramente democrática, onde a origem do ministério se deva a uma simples delegação da comunidade àquele que a exerce. Ao contrário haverá um fato misterioso, proveniente de Deus, que é a última razão da responsabilidade eclesial.

            Para tal comentador a intenção desta mistificação eclesial, como aparece em 1Tm 1,18-19, não deve levar a uma separação entre aqueles que foram escolhidos para a dirigência da comunidade e os demais. Ao contrário, deve ser sinal de união, pois foram escolhidos pela graça de Deus e não pelas mãos humanas. Será de fato que a intenção da pastoral 1 Timóteo é fortalecer os laços de toda comunidade ou tem a algo mais que isto? Pela própria realidade vivida por esta comunidade, recheada de heresias, dá-se a entender que existe uma intenção de separação daquilo que é doutrina, da não doutrina. Esta, por sua feita, deve ser feita por aqueles que foram chamados pela graça para guardar o depósito da fé.
            Para Champlin (1986) a intenção manifesta dos versos 18 a 20 é de que assim como Paulo, que com autoridade recebida de Deus foi capaz de defender a fé contra as heresias, assim ele também tem a mesma autoridade para conferi-la a pessoas fidedignas capazes de fazer o mesmo que ele em nome da fé cristã. A autoridade de Timóteo é, portanto, conferida a Paulo, não para ressaltar a unidade dos cristãos no mistério divino, mas está relacionada com a força combatente na luta contra a falta de unidade.




VI – A Fé Cristã é para todos os homens (2,1-7)

eis  gar  qeos,  eis  kai  qeou  kai  anqrwpon,  anqrwpoV  CristoV     IhsouV (2,5)

“Pois há um só Deus e também um só mediador entre Deus e os homens, um homem: Cristo Jesus”

            Esta fórmula que parece reproduzir uma profissão de fé na comunidade primitiva (BÍBLIA TEB, 1994, p.2324) reflete um estilo comum nas Pastorais: a Doxologia[12]. Esta doxologia destacada, com caráter de credo, faz emergir a mentalidade sobre Deus que se desenvolveu no judaísmo tardio, diz Cothenet (1995). Para eles, Deus era o “Soberano Inacessível”, isolado dos outros, em uma sala do trono. Este discurso, que mais tarde na escolástica medieval se denominou de Teologia Apofática ou Negativa, implica o aparecimento da mediação. Assim, tem-se tal doxologia de cunho confessional apontando para Jesus como aquele que é o único mediador. Outro modo de entender o bloco é mediante aquilo que Cothenet (1995) chama de Oração Universal. Este bloco formaria uma espécie de conjunto de dispositivos para regulamentar a oração e determinar as condições necessárias para alguém se tornar presbítero ou diácono.
            Para Champlin (1986) tais textos, além do vínculo litúrgico, possuem um caráter apologético. Para os gnósticos, o homem era trifacetado em categorias: os materiais, os psíquicos e os espirituais. A penas os espirituais estariam prontos para a salvação pois estes estariam totalmente desvinculados da matéria. Ainda, Deus, por ser totalmente imaterial e inacessível, não poderia ter contanto com os seres materiais, admitindo a existência de “eons” que emanados de Deus fariam as mediações. A Carta Pastoral de Timóteo tem em mente esta realidade e para combater tal postura reforça a única mediação de Jesus homem diante dos homens e diante de um único Deus. Com a afirmação da unicidade divina, tema também encontrado em Rm 3,28-30, Paulo, ao contrário dos judeus, que afirmando a unidade divina excluía os estrangeiros, afirmava que a salvação era universal independente de situação social, religiosa ou étnica.

VII – A Adoração Pública e as Mulheres (2,8-15)

gunh  en  hsucia  manqanetw  en  pash  upotagh. didaskein  de  gunaiki  ouk  epitretw,  oude  auqentein  androV   all  einai  en  hsucia (2,11-12)

“Durante a instrução, a mulher deve guardar silêncio, com toda submissão. Não permito à mulher que ensine, nem que domine o homem. Mantenha-se, portanto, em silêncio.”

            Cothenet (1995, p.64) afirma que: “Esta é uma das passagens que mais contribuíram para manter as mulheres numa situação de submissão na Igreja”. Este bloco, que fala do comportamento de homens e mulheres no âmbito litúrgico, tem como destaque tal posição que não condiz com outras afirmações autenticas de Paulo como 1Cor 11,11s; 14,34-35. O autor de 1 Timóteo quer ressaltar o lugar da mulher na sociedade judaico-cristã, a partir de um contexto judaico e também greco-romano. Porém sua forma tão dura, não se adequa com as afirmações autenticas de Paulo, mesmo as mais negativas. Neste sentido, uma saída, segundo este comentador está na crítica literária, na qual é imprescindível perguntar se tal texto é mesmo paulino, e o que tudo indica a resposta caminha para o negativo.
            Já para Champlin (1986) o autor de 1 Timóteo é profundamente influenciado pelo pensamento judaico: “O texto à nossa frente, sobre as mulheres, reflete uma mentalidade que não concorda totalmente com aquela revelação superior, pois continua alicerçada sobre o judaísmo.” Ressalta-se também a não tentativa de assumir tal versículo como verdade isolada e aplica-lo em nossa realidade, bem como tentar enxergar nele aquilo que ele não diz. O importante seria perceber a intenção epocal do texto e aplica-lo assim a sua exegese necessária sem criar dogmatismo seobre ele.
           

VIII – Qualificações dos Pastores (3,1-7)

mh  neofuton,  ina  mh  tufwqeiV  eiV  krima  empesh  tou  diabolou.  dei  de  kai  marturian  kalhn  ecein  apa  twn  exwqen, ina  mh  eiV  oneidismon  kai  pagida  tou  diabolou.
 (3,6-7)

“Não seja recém-convertido, para que não suceda que, cegado pelo orgulho, caia sob a condenação infringida contra i diabo. Ademais, é preciso que os de fora lhe prestem bom testemunho, a fim de que não caia no opróbrio, ao mesmo tempo que nas redes do diabo”

            Este bloco trata da responsabilidade dos epíscopos. Esta palavra tem uma ressonância na literatura grega, que tratava de um “tipo de custódia responsável”, que se excercia em diferentes ocasiões e por motivos bem diversos. A distinção dos epíscopos dos Apóstolos, missinários, profetas e mestres, estava no fato de que estes circulavam em função do anúncio do evangelho, enquanto aqueles eram mais estáveis junto às comunidades. O texto alude, por um lado, segundo Ruiz (1999), uma leitura democrática da função episcopal. Dá-se a entender que este serviço era escolhido mediante eleição. Não se sabe, porém, quem eram os eleitores, se a comunidade como um todo ou se apenas grupos (presbíteros, talves?). Por isso a insistência do autor sagrado para aqueles que se candidatatem a tal função, “se alguém aspira ao epsicopado” (1Tm 3,1), devem ter um comportamento moral adequado e principalmente seja bem quisto pelos de fora. Esta prerrogativa dá à função um caráter de compromisso comunitário. Por outro lado, Champlin (1986) percebe que o texto é mais abrangente, sendo de caráter mais universal, ou seja, não está destinado somente aos bispos, como função ou serviço administrativo da Igreja, mas a todos os líderes da comunidade, independente de sua função, no que concerne as qualificações necessárias para bem exercerem o ministério.

IX – Qualificações dos Diáconos (3,8-13)

gunaikas  wsautwV  semnaV,  mn  diabolouV,  nhfaliouV,  pistas  en  pasin. (3,11)

“As mulheres igualmente, devem ser dignas, não maldizentes, sóbrias, fieis em tudo.”

            A passagem relativa aos diáconos está como que interrompida por uma observação relativa às mulheres. De per si o texto não poderia ter em mira as esposas dos diáconos, associadas, entao, ao ministério do seu marido. Mas dever-se-ia esperar um possessivo: “suas mulheres”. Por isso é bastante provável que se trate de mulheres que exerçam um ministério análogo aos dos diáconos. Exemplo disto tem Febe diaconisa de Cencréia (Rm 16,1) e Cloé (1 Cor 1,11).

X – A Igreja em seu Caráter Ideal (3,14-16)

kai  omologoumenwV  mega  estin  to  thV  eusebeiaV  musthrion. OV   efanerwqh  en  sarki, edikaiwqh  en  pneumati,  wfqh  aggeloiV,         ekhrucqh  en  eqnesin,  epusteuqh  en  kosmw, anelhmfqh  en  doxh.  (3,16)

“Grande é, com certeza, mistério da piedade. Ele foi manifestado na carne, justificado pelo Espírito, contemplado pelos anjos, proclamado pelos pagãos, acreditado no mundo exaltado na glória”

Segundo Champlin (1986), este bloco possui três intenções: a) reafirmar a intenção do autor sagrado de enviar aos destinatários um momento de reconforto e calor amigável mediante as instruções e admoestações; b) lembrar aos destinatários que todas as admoestações expressas neste texto possuem sua validade sustentada nas funções da Igreja cristã que subsiste na finalidade de proteger a verdade revelada; c) uma declaração lírica e exaltada de fé, como forma apologética contra as heresias.
            Para Ruiz (1999), o bloco trata da Igreja como casa de Deus, que não possui sentido topográfico e sim se refere à comunidade eclesial que suporta a superestrutura da verdade. A verdade não possui o sentido filosófico grego, mas remete à idéia de autenticidade. Autenticidade é, no fundo, reconhecer o mistério da piedade. A expressão mistério não tem um sentido de algo escondido ou não revelado, mas pelo contrário é algo que é apresentado como a própria revelação divina (CHAMPLIN, 1986, p.316). Assim, o grande mistério, ideal da Igreja é o Cristo.


XII – O Ministro Ideal de Cristo (4,6-10); XIII – O Exemplo de um Bom Ministro (4,11-16) e XIV – A Função do Ministro quanto a Grupos Específicos (5,1-2)

alla  tupoV  ginou  twn  piswtwn  en  logw , en  anastrofh,  en  
agaph, en  pistei, en  agneia. (4,12b)

“...Muito pelo contrário, sê para os fiéis modelo nas palavras, no comportamento, no amor, na fé, na pureza.”

            Alguns pontos importantes para um Ministro Ideal ou um Bom Ministro:

P Alimentar com as palavras da fé e da boa doutrina (Escrituras e Tradição); (4,6)
P Rejeição de fábulas e conversas vãs (fofocas); (4,7a)
P Exercitar na piedade (vida em Cristo, segundo TEB, 1994, p.2326); (4, 7b)
P Não supervalorizar o exercício físico; (4,8)
P Lutar com esperança em Deus que é Salvador; (4,10)
P Ser testemunha nas palavras, no comportamento, no amor, na fé e na pureza; (4,12b)
P Ler as Escrituras, exortar e ensinar; (4,13)
P Não descuidar da Graça que há em cada um; (4,14)
P Perseverança para que os outros percebam a melhora; (4,15)
P Auto-percepção  de si e do próprio ensinamento; (4,16)

XV – As Viúvas e a Igreja (5,3-16)

ChraV  tima  taV  ontwV  chraV (5,3)

“Honra as viúvas, as que de fato o são”

            O fato de o autor dedicar um bloco todo a um grupo – o das viúvas – é porque, com certeza merecia um destaque. Fora uma breve indicação dos Atos (9,39-41), é o único texto do N ovo Testamento a atestar a constituição desse grupo. A existência deste grupo é um fato inquestionável no contexto das Pastorais e responde a uma necessidade social. As viúvas estão na folha de pagamento da comunidade (1 Tm 5,16). Diante do aumento dos encargos, o autor faz saber que é necessário distinguir entre as verdadeiras viúvas, sem recursos, e as viúvas que podem e devem ser sustentadas por suas próprias famílias. A responsabilidade cabe em primeiro lugar aos filhos ou netos (v.4), mas também a toda família (v.16). a verdadeira viúva, após um compromisso de que a comunidade é testemunha, leva vida de oração segundo o modelo da profetisa Ana.


XVI – O Sustento dos Ministros (5,17-25)

Oi  kalwV  proestwteV  presbuteroi  diplhV  timhV  axiousqwsan,  malists  oi  kopiwnteVen  logw  kai  didaskalia. (5,17)

“Os anciãos que exercem bem a presidência merecem ser duplamente honrados, sobretudo aqueles que se afadigam no ministério da palavra e no ensino”

O termo ancião (presbuteroi) possui aqui um sentido de título eclesiástico, diz Champlin (1986). Este significa um pastor, um dirigente da congregação local, juntamente com os bispos. Com efeito, é necessário a distinção entre bispos e anciãos. Os anciãos indicam uma classe ou um estado – membros de longa data e de caráter aprovado, e não titulares de oficio. Os bispos eram nomeados dentre os anciãos. Ao que tudo indica, ancião era um estado de vida de alto respeito na Igreja, exercendo funções administrativas, podendo também se ocuparem de pregação e ensino. Os bispos, por sua vez, nomeados entre os anciãos  possuíam maior autoridade.
Os anciãos recebiam algum pagamento da congregação local por seus serviços prestados. Haja vista que, se ainda exercessem a pregação e o ensino, deveriam receber um salário mais amplo. Porem, adverte que tais soldos deveriam ser dados aos Bons anciãos. Com tal admoestação, o autor quer chamar a atenção para a ganância entre este grupo.

XVII – Injunções Miscelâneas (6,1-19)
f)     Sobre os escravos e os senhores (1-2)
g)    Sobre os falsos mestres (3-5)
h)    Sobre o dinheiro (6-10)
i)      Sobre os motivos de um homem de Deus (11-16)
j)      Sobre o dinheiro, novamente (17-19)

XVIII – Exortações Finais e Apelo a Fidelidade (6,20-21)

W Timoqee,  thn  paraqhkhn  fulaxon, ektrepomenoV  taV  bebhlouV  kenofwniaV  kai  antiqeseiV  thV  yeudwnumou gnwsewV (6,20)

“Ó, Timóteo, guarda o depósito, foge dos falatórios ímpios e das objeções de uma pseudociência.”

            A saudação final retoma e sintetiza a preocupação geral da carta: a organização da Igreja (representada pelo depósito) e o combate aos erros (pseudociências).

Referências Bibliográficas


BARBAGLIO, Giuseppe. São Paulo. O homem do Evangelho. Petrópolis: Vozes, 1993.

BÍBLIA TEB. São Paulo: Loyola, 1994.

CHAMPLIN, R. Norman. O novo testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenuim, 1986, v.5.

COTHELET, E. As epístolas pastorais. São Paulo: Paulus, 1995 (Cadernos Bíblicos 63).

FABRIS, Rinaldo. Paulo. Apóstolo dos gentios. São Paulo: Paulinas, 2001.

GASS, I. Bohn. Quatro retratos do apóstolo Paulo. Caminhando com Itepa. São Paulo, n. 90. XXIII, setembro/2008.

RUIZ, J. M. Gonzalez. O evangelho de Paulo. Petrópolis: Vozes, 1999.

TAYLOR, W. C. Dicionário do NT Grego. 10.ed. Rio de Janeiro: JUERP, 2001.





[1] Cf. Bíblia TEB, p.2317; Ruiz, 1999, p.117; Barbaglio, 1993, p.311; Fabris, 2001, p.688; entre outros.
[2] Neste texto não pretendo entrar no mérito da questão da diferença entre Carta e Epístola, uma vez que tal distinção não contribui nem agrega o presente estudo, além de não ser o foco central do mesmo.
[3] Neste trabalho as traduções bíblicas serão extraídas da Bíblia Tradução Ecumênica (TEB).
[4] O termo mocidade, não pode ser tomado em sentido hodierno, mas deve ser interpretado na mentalidade neotestamentária, que opõe jovem ao velho, sem citar a idade adulta (BÍBLIA TEB, 1994, 2317).
[5] É importante ressaltar que a nao inclusao das cartas pastorais no Cânon de Marciao, se deve muito mais pelo fato que tais textos se fundamentam em textos veterotestamentários, que são totalmente rejeitados por Marcião (BÍBLIA TEB, 1994, p.2321).
[6] Cf.
[7] Pseudepígrafos (falso escrito) ou Pseudonímia (falso nome) são expressões que provocaram muitas dificuldades nos estudos exegéticos paulinos. A exegese católica e protestante conservadora, por muito tempo, hesitou o emprego de tais expressões, devido ao valor sacro que estas contêm. Contudo, é preciso por de lado qualquer juízo moral na apreciação de escritos considerados psdeudonímios ou pseudepígrafos. O procedimento era corrente tanto no mundo grego (cartas atribuídas a Sócrates) quanto no mundo judaico (livro de sabedoria atribuído a Salomão). No caso de Pedro e especialmente de Paulo, o problema se coloca de maneira diversa, pois pelos anos 80/90 não faltavam discípulos que tinham conhecido os apóstolos e ouvido os seus ensinamentos. Não era possível atribuir a eles uma obra em desacordo profundo com sua mensagem verdadeira, pois seria rejeitada como foi o caso de tantas produções gnósticas.
[8] Segundo Gass (2008), autênticas são aquelas cartas que foram escritas por Paulo e seus colaboradores em meados da década de 50 e são estas: 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses, e Filelon. As cartas 2 Ts, Cl e Ef, são escritos da segunda geração das comunidades paulinas pelos anos 70 e 100.  
[9] “A misericórdia, com grande freqüência, é paralela à graça, em seu significado; e seja como for a misericórdia faz parte da graça divina” (CHAMPLIN, 1986, p.287)
[10] Estrutura proposta por Champlin, 1986, p.276.
[11] Os textos gregos deste trabalho foram extraídos da obra de Champlin (1986).
[12] Proveniente da palavra grega doxa (glória), a doxologia é a forma de aclamação que tributa a Deus honra e louvor, com sentimento de adoração e submissão. (COTHENET, 1995, p.41)

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