terça-feira, julho 29

DO SENSO COMUM AO DISCURSO CIENTÍFICO


NB: Esse texto é uma homenagem ao falecimento de um dos maiores epistemólogos brasileiros: Rubem Alves. 


“O cientista virou mito”, constata Rubem Alves (1981). E tudo que se transforma em mito é perigoso, pois “induz o comportamento e inibi o pensamento”. Para muitos, é assim mesmo. O cientista é uma classe especializada e cabe somente a ela pensar e decidir o que é correto, enquanto que os demais estão desobrigados de pensar. Basta apenas fazer aquilo que os cientistas mandam... Para Alves (1981), essa mitologização das ciências se deve ao fato de as pessoas acreditarem que os cientistas pensam melhor que os outros. Na verdade, segue o autor, os “cientistas são como pianistas que resolveram especializar-se em uma técnica só” (ALVES, 1981), ou seja, a impressão ou a falsa impressão que os cientistas passam a seus interlocutores é que possuem muitos conhecimentos sobre muita coisa. Efetivamente, o que ocorre é que as ciências optaram por recortar a realidade e aprofundar nesse recorte. As ciências, portanto, seriam grandes recortes do real.
Esse recorte, ou seja, essa especialização das ciências, argumenta Alves (1981), tinha como propósito, a partir dos diversos estilos musicais de cada cientista, recriar a “sinfonia” do real. A ideia era: a partir de cada especialidade, muita coisa poderia ser descoberta daquele pequeno pedaço do real de modo tal que, quando se juntasse os pedaços, se alcançaria um conhecimento coeso e profundo de toda a realidade. Porém, não foi isso que se sucedeu. Nos termos de Alves (1981): “cada músico é surdo para que os outros estão tocando”, i. é, a especialização, na verdade, acirrou ainda mais a individualização das ciências.
Como então se devem ver as ciências a fim de evitar sua mitologização? Para Alves (1981), a ciência nada mais é do que uma “especialização”, ou também um “refinamento de potenciais”. De acordo com o epistemólogo brasileiro, a ciência funcionaria como uma espécie de “hipertrofia das capacidades que todos têm”. O que um cientista faz a partir de seu discurso é potencializar um tipo de experiência em detrimento de outras experiências. Essa potencialização, por sua vez, não pode ser assumida, em termos de valor, como um conhecimento melhor do que os demais, ao contrário, ela deve ser visto como um conhecimento que foi recortado e aprofundado. Nesse sentido é que Alves (1981) lança mão de sua tese: “a ciência é um processo de desenvolvimento progressivo do senso comum”. Para compreendê-la é necessário trazer à luz o que é senso comum.
Em primeiro lugar, não foram as pessoas que possuem um discurso ligado ao senso comum que intitulou seus conhecimentos com esse termo. A expressão “senso comum” foi criada por pessoas que se julgam acima do senso comum. Essa expressão, ao ser criada, foi carregada de preconceitos e de julgamentos de valor de modo que ela deveria abarcar todos aqueles conhecimentos julgados “inferiores”, e por isso mesmo, não-científicos. Desse modo, acostumou-se a definir o discurso científico como aquele que desmistifica e corrige o senso comum. Entre senso comum e ciência deveria haver uma relação de ruptura, à medida que a verdade deve reinar sobre a superstição. Essa postura, pelo visto, não assume critérios epistemológicos propriamente ditos, mas baseia-se em crenças e valores, muitas das vezes, subjetivos.
Contrário a essa postura, Alves propõe que a ciência seja uma “metamorfose do senso comum”, i. é, sem ele não há ciência. O senso comum, portanto, não seria valorativamente inferior ao discurso científico, ao contrário, o discurso científico assumiria, em pé de igualdade com o senso comum, o “mesmo valor”: o valor de buscar soluções para problemas, pois ambos assumem a mesma necessidade básica de compreender o mundo. Em segundo lugar, não há somente uma relação de ruptura entre ambos, mas há também continuidades, pois todo discurso científico começa com um discurso não-científico e por isso mesmo é-lhe imprescindível. E por fim, ao assumir a continuidade, assume-se, na verdade, uma relação dialética entre o discurso científico e o senso comum. A cientificidade, por conseguinte, é construída, nos termos de Hegel, a partir da Aufhebung: a partir da negação e da assunção do senso comum.
Para marcar bem essa semelhança/continuidade existente entre ciência e senso comum Alves (1981) apresenta alguns pontos de toque: (a) a necessidade de problematização da vida; (b) a necessidade da imaginação; (c) o poder de simular o real; (d) tentativa de dar ordem. E o que demarcaria as rupturas? As descontinuidades seriam observadas em seus aspectos metodológicos, como o rigor e o controle sobre os métodos, bem como em sua delimitação temática própria da especialização, enquanto que o senso comum não se preocuparia tanto com o específico.

Referências


ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras. São Paulo: Brasiliense, 1981. (501 A474f).

0 comentários:

Postar um comentário