terça-feira, julho 15

O DASEIN COMO CONDIÇÃO DE POSSIBILIDADE PARA A COMPREENSÃO DA PERGUNTA PELO SENTIDO DO SER


Comentários dos primeiros quatro parágrafos de Ser e Tempo

            A questão ontológica é uma temática muito discutida pelas metafísicas em toda a história da filosofia. Desde os Pré-Socráticos, de modo indireto com Parmênides e Heráclito (na discussão do ser e do devir); passando pelos clássicos gregos, Platão e Aristóteles (com a metafísica ideonômica platônica e a filosofia primeira aristotélica); entremeando a teologia cristã, com Tomás e Escoto (na briga entre a metafísica racionalista e voluntarista respectivamente); chegando à modernidade com Descartes, Kant e Hegel (na constituição ontológica do Cogito cartesiano, na emergência da subjetividade trasncendental kantiana e a logificação dialético-idealista hegeliana); todos estes se atreveram a dar sua contribuição para a constituição ontológica da temática do ser, questão esta, tão cara para a filosofia como um todo. Contudo, para Heidegger, o que se escreveu até então a respeito do ser, não satisfaz a obscura e problemática questão.
            Primeiramente, Heidegger afirma em sua obra Ser e Tempo que, a modernidade e seu prolongamento, nos afincos epistemológicos de Kant e toda a tradição tecno-científica contemporânea, de cunho positivista, obscureceu a temática que deu à filosofia clássica seu status de conhecimento, i. é, a “questão do ser” (Frage nach dem Sein). Isto significa que não se pode dar por satisfeito com o trabalho metafísico desenvolvido até então, a respeito desta temática, ao passo que ela apenas foi exposta, sem ser devidamente fundamentada.
            Dizer que, o ser “é o conceito mais universal e o mais vazio”, ou como Hegel o queria: “o imediato indeterminado” (Ciência da Lógica), não resolve fundamentalmente tal problema. Haja vista que, Tomás já havia “tocado” em algo que contribuiu sistematicamente para o desenvolvimento da pretensa questão, quando afirma que “uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se apreende”. Mesmo assim, os pré-conceitos atribuídos pela tradição, a saber: a universalidade, a indefinibilidade e a evidência, também não foram suficientes para se sustentar uma fundamentação dita “ontológica” do ser.
            É aí, no entanto, que Heidegger percebe que existe uma distinção fundamental entre SER (Sein) e ENTE (Seiendes), não observada pelos seus precursores. O ser, afirma Heidegger, “não pode ser determinado acrescentando-lhe um ente”. Portanto, negativamente, não é um ente. Nem mesmo a lógica formal deve ser utilizada para se determinar o ser, como se faz com o ente. Mesmo com toda a obscuridade em que se apresenta, o ser não pode ser negado, ele possui certo caráter de evidência, e é nesta evidência, que se emerge o problema do sentido (Sinn) do ser. Em outras palavras, a questão do ser, outrora tão debatida, deve ser reconduzida (Gestellt) de modo que o ser, não mais identificado com o ente, implique necessariamente a abertura da compreensão do seu sentido.
            Como estruturação formal na condução da pergunta pelo o sentido do ser, Heidegger, primeiramente, elenca os elementos que compõem o Questionamento fundamental. Compõe um questionamento, na qualidade da ação do questionar; (a) o Questionado (Gefragtes), aquilo que se quer perguntar, o objeto formal da questão; (b) o Interrogado (Befragtes), para quem se deve perguntar, o objeto material; e (c) o Perguntado (Erfragte), a finalidade da pergunta, a causa final. Tendo presente os momentos que tornam possível o Questionamento, pode-se, então, pensar a questão do ser em sua estrutura básica. Necessário se faz, porquanto, impor um fio condutor que oriente o Questionamento. Este, no entanto, se configura na premissa já intuída por Tomás, i. é, a compreensão do ser, imediatamente inclusa em toda apreensão. Esta premissa é denominada por Heidegger de Pré-compreensão do ser (Seinsverständnis), de modo heideggeriano: “nos movemos sempre numa compreensão do ser”.  Só assim, é que se podem preencher com os conteúdos as estruturas que formam os momentos do Questionamento, que são: para o Questionado, o próprio ser; o Interrogado, se concretiza no ente, em seu ser; e para o Perguntado, o sentido do ser.
            Se a metodologia utilizada por Heidegger é o Questionamento, no qual alguém interroga, cabe perguntar, a quem se deve perguntar na tentativa de se ver e fazer ver o sentido do ser? Levando em consideração que o ente pode assumir diversos predicados e sentidos (Aristóteles, Met IV 2 32), que ente é capaz de revelar o sentido do ser em seu ser? Perguntar pelo ser, é para Heidegger, mostrar em seu ser um ente que questiona a respeito de seu ser. O ente capaz de fazê-lo, sem dúvida, é o homem, portanto, é, neste sentido, um ente privilegiado, já que ele é o único entre a infinidade de entes capaz de elaborar a pergunta pelo ser. Esta, em contrapartida, revela ao ente privilegiado o seu ser, o que implica dizer que, o ser que aparece ao homem é sempre compreendido em sua modalidade, e não de um golpe só. Os modos de ser não são propriedades do ser como categorias metafísicas, mas são os condicionamentos da própria compreensão humana na relação com o ser.  Assim, a pergunta pelo ser revela ao homem o seu modo de ser. Este modo de ser do ente homem é denominado DASEIN, cuja tradução literal do alemão designa ser-aí. O homem é, portanto, identificado ao Dasein, na medida em que, ele é o seu modo de ser, distintamente do modo de ser dos outros entes.
Definindo-se o ente privilegiado capaz de pré-visualizar o ser em seu ser é necessário verificar se sua modalidade de ser (O Dasein) é em sua estrutura, uma condição de possibilidade para a compreensão da questão fundante, i. é, a do sentido do ser. Para tanto, percebe Heidegger que tal questão não é uma questão qualquer, mas possui certo primado frente outras questões. Na tentativa de comprovar tal afirmativa Heidegger desenvolve: todo ser, só o é de um ente; todo ente tem a possibilidade de se tornar um campo determinante para setores de objetos (Sachgebiete), que por sua vez, podem se transformar em temas e objetos de investigação. Estes setores de objetos, que são pesquisados preliminarmente pelas ciências, produzem aquilo que fundamenta toda e qualquer pesquisa, i. é, os conceitos. Os conceitos favorecem a dinâmica construtiva das ciências: “o nível de uma ciência determina-se pela sua capacidade de sofrer uma crise em seus conceitos fundamentais”. Por conceitos fundamentais, entende Heidegger: “determinações em que o setor de objetos que serve de base a todos os objetos temáticos de uma ciência é compreendido previamente de modo a guiar todas as pesquisas positivas”. O que garante uma válida fundamentação de um conceito fundamental é uma investigação prévia, que nada mais é do que a investigação do ente na sua constituição fundamental do seu ser que constitui o respectivo setor deste objeto.
Neste âmbito, o Questionamento Ontológico é mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências, já que, a tarefa de uma ontologia dos modos possíveis de ser deve compreender propriamente o que se entende pela expressão ser. Assim, o primado ontológico da questão do ser se faz de dois modos: dirigir as condições de possibilidade a priori das ciências que pesquisam os entes em suas entidades, a medida que se move numa pré-compreensão do ser; e se impor como condição de possibilidade das próprias ontologias que antecedem e fundam as ciências ônticas.
O Dasein, por ser um ente privilegiado e primeiro ontologicamente, na visão de Heidegger, não é um ente qualquer, mas é um ente que “SENDO” (em seu ser), do ponto de vista ôntico, está em jogo seu próprio ser. Este modo de ser SENDO, implica que tal ente privilegiado mantém relações com seu próprio ser. E nesta relação, este se compreende a si próprio no seu ser. Esta compreensão em seu ser se configura na abertura e manifestação de si próprio. Assim, a determinação de seu ser se faz na sua pré-compreensão do ser. Com efeito, a primazia ontológica do Dasein, outrora já observada, se abre para uma primazia, também em caráter ôntico. Contudo, Heidegger ressalta que, a primazia ontológica do Dasein não garante a este a propriedade de ontológico em si mesmo, mas de pré-ontológico, já que, tal pensador prefere utilizar a terminologia ontológica para designar o questionamento a respeito do sentido do ser. Nesta afirmação, já se alude à condição de possibilidade para a questão do sentido do ser com o Dasein, pois, este por ser pré-ontológico, conduz a questão do ser como um ente de capacidade modal capaz de produzir o Questionamento fundamental.
O modo de ser do Dasein enquanto pré-compreensão é condição de possibilidade da relação que há entre si mesmo com seu ser. Ela também, garante uma relação SENDO com outros entes. O conjunto de relações possíveis do ente privilegiado é o que Heidegger vai denominar de existência (Existenz). O conceito de existência é um pressuposto fundamental para a ontologia heideggeriana, já que, este se converge na própria “essência” do ente privilegiado, que somos nós mesmos, em seu modo de ser. Com efeito, a mesma autocompreensão sendo do Dasein só se dá a partir da existência, modo de ser este, que se estrutura em seu ser como possibilidades. Estas últimas podem se dar assim dispostas: optadas por ele; condicionadas no meio em que caiu; ou condicionadas pelo meio que nasceu e cresceu. A assumência de uma possibilidade bem como a manutenção de um núcleo de relações SENDO, é o que Heidegger irá chamar de existenciário (Existenziell), ou seja, a autocompreensão SENDO que cada Dasein faz de sua existência. Neste aspecto, o autor quer garantir a subjetividade ontológica existente em cada processo existencial de escolhas de possibilidades. Toda esta estrutura básica que fundamenta o modo de ser do Dasein na existência é denominada de existencialidade (Existenzialität) e se compreende também como a “estrutura ontológica de um ente que existe”.
A existencialidade é, portanto, como foi visto, a estrutura fundante ontológica do Dasein e esta só é possível ser apreendida de modo fundamental mediante uma analítica existencial ou ontológica, pois Dasein o ente existente por excelência, capaz de conduzir a questão do sentido do ser. A analítica existencial só se cumprirá como tarefa ontológica quando encontrar uma ontologia fundamental capaz de sustentar as demais. Sendo assim, o Dasein assume um tríplice primado: (a) ôntico, como um ente que é determinado em seu ser pela existência; (b) ontológico, uma vez que é a própria determinação da existência, ele compreende em seu ser, o ser de todos os entes que não possuem o modo se ser do Dasein; (c) ôntico-ontológico, na medida que este é condição de possibilidade para as demais ontologias. Em última instância, a analítica existencial deve possuir raízes existenciárias, i. é, ônticas, já que, só se pode falar de estrutura existencial da existência, com possibilidade ontológica mediante um ente existenciariamente existente.
Uma ressalva é feita quando Heidegger trata do primado do Dasein. Tanto Aristóteles quanto Tomás, em sua determinação universal do ente, conferem à alma o privilégio ontológico por conter e convir a todos os entes. Neste sentido, o pensador alemão dispensa tal reflexão, não aceitando-a como proposições válidas para o primado ontológico do Dasein. Para tanto, se utiliza da primazia ôntico-ontológico do Dasein para afirmar seu primado frente as demais ontologias, dispensando a afirmação aristotélico-tomista. Concluindo, Heidegger percebe que muito mais que um ente privilegiado, o Dasein, é o ente que SENDO, possui a condição de possibilidade estrutural para que se possa “radicalizar” a “tendência ontológica essencial da compreensão pré-ontológica do ser”.

Fonte: HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1988. v.1, §1-4.




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