terça-feira, julho 1

RESENHA CRÍTICA DO TEXTO: "NOME PRÓPRIO DE DEUS"


RESENHA CRÍTICA

Victor Hugo de Oliveira Marques

CASTILLO, José Maria. O nome próprio de Deus. In: Deus e a nossa felicidade. Trad. Alda da Anunciação Machado.  São Paulo: Loyola,2006.

CREDENCIAIS DO AUTOR
José María Castillo Sánchez[1] (Puebla de Don Fadrique, Granada; 1929). Teólogo da libertação, espanhol , jesuíta até maio de 2007, ano que abandonou a Companhia de Jesus. Doutor em Teologia, tem sido professor na Facultade de Teología de Granada, ademais, tem sido professor convidadodo na Universidade Pontifícia Gregoriana de Roma, na Universidade Pontifícia de Comillas em Madrid e na Universidade Centroamericana "José Simeón Cañas" de El Salvador.
Sustenta uma visão muito crítica da hierarquia eclesiástica. Em 1988 foi castigado junto a Juan Antonio Estrada com a retirada do “placet” da herarquia como catedrático de Teologia da Universidade de Granada, segundo Joseph Ratzinger, atual papa, por suas opiniões sobre a natureza da Igreja e sobre o mistério da Santíssima Trindade.  Em Deus há três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, sem dúvida, não há três Deuses, senão, um somente. E a Congregação para a Doutrina da Fé considerou seus critérios incompatíveis com o magistério da Igreja.
Sem dúvida, Jose María Castillo assume os dogmas, porém não renuncia a discussão de questões não dogmáticas. [Tem sido vice-presidente da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII. Atualmente se dedica a coordenar, organizar, e ministrar cursos, conferências, congressos, seminários, etc. por toda Espanha e Latinoamérica. Em  2010 foi nomeado Filho Predileto de seu povo natal, Puebla de Don Fadrique (Granada).


PERSPECTIVA TEÓRICA DO TEXTO
              A obra “Deus e a nossa felicidade” (Dios y nuestra felicidad), publicada pela Editorial Desciée de Brouwer em 2001, traduzida por Alda da Anunciação Machado, e publicada pela Loyola em 2006; é posterior às obras: El reino de Dios : por la vida y la dignidad de los seres humanos (1999) e Símbolos de libertad : teología de los sacramentos (2001); e anterior às obras: La Iglesia que quiso el Concilio (2001) e El futuro de la vida religiosa : de los orígenes a la crisis actual (2003)Já o texto “O nome próprio de Deus”, objeto desta resenha, compõe o quarto capítulo desta obra de Castillo, sendo precedido pela Introdução e mais dois capítulos intitulados: “Deus funde-se com o humano” e “Matar o fariseu”; e sucedido por outros dois: “O Deus da Igreja” e “Reflexão final: que Deus eu creio?”.
              Do ponto de vista formal, o texto é bastante simples e de linguagem bem acessível, recheado de exemplos (facilitando a compreensão) e justificado, sem muito exagero, com citações de grandes nomes de teólogos como Joachim Jeremias, Küng, Rahner, Domínguez, entre outros, que fazem a fundamentação necessária. Do ponto de vista do conteúdo, o texto é denso e expressa uma pesquisa cuidadosa, principalmente no que diz respeito às interpretações teológicas recentes. Destaca-se também, o rico material bíblico e sua atualizada exegese.
              A leitura teológica de Castillo, como lhe é bem próprio, possui um fio condutor mais próximo da “Teologia da Libertação”, do que uma leitura mais tradicional e ortodoxa. Contudo, este não se prende a ela, mas a amplia com dados teológicos distintos (como Rahner, J. Jeremias) e atuais dando um corpo interpretativo mais denso teologicamente e menos pretensamente sociológico. Isto deixa sua obra com uma riqueza teológica distinta: um conteúdo libertador em molduras teológicas ao estilo europeu.

SÍNTESE DO TEXTO
              O quarto capítulo da obra de Castillo – “O nome próprio de Deus” – é longo (em torno de 60 páginas), possuindo treze divisões e trata, de modo geral, da questão de Deus enquanto Pai. A primeira parte, “o Pai”, introduz o tema da paternidade divina trazendo presente a experiência, tanto de Jesus como das primeiras comunidades cristãs, de Deus como Abbá. Contudo, alerta Castillo que quando se fala do Pai não se refere à primeira pessoa da Trindade, pois esta formulação é posterior às experiências bíblicas, sendo definidas nos embates dos Concílios do século IV. Neste sentido, o Pai, remete à pessoa de Deus que está sob a tensão da transcendência e da encarnação.
              A segunda parte o autor trabalha “a complexa relação com o Pai”, ou seja, justamente aquilo que se experimenta quando se pensa na figura do Pai. Quatro são as possíveis representações da imagem paterna: proteção, segurança, explicação e autoridade. Não obstante, tais representações quando remetidas a Deus possuem suas respectivas dificuldades: o sofrimento da vida invialibiza a representação tanto da proteção quanto da segurança; o avanço científico, derruba o papel divino de explicar a realidade; e a experiência da punição retira a confiança da autoridade divina. De modo geral, a vivência da paternidade humana é barreira para a vivência da paternidade divina.
              A terceira parte discute a influência que uma cultura caracterizada pela predominância masculina (e com isto a preferência pelos valores da força e da violência) em detrimento da femilinidade (da sensibilidade e da compreensão) causa na expressão da fé em Deus. Isto, portanto, reflete na repressão sexual, moralmente negativante, tão comum em todas as grandes religiões, pois, o pai é aquele que desfaz a imagem prazerosa construída durante a gestação de uma fusão entre a criança e a mãe. A quarta parte tenta dar uma primeira resposta às “falsas imagens de Deus” construídas. Para tanto retoma a “Parábola dos Talentos” mediante a exegese de J. Jeremias que relê esta não mais com um olhar “exortativo” ou moralizante, senão com um olhar teológico que identifica qual tipo de Deus deve ser evitado, i. é, o Deus que se comporta como o “Senhor do Talentos”, que pede contas, pregado pelos fariseus. Este, sem dúvida, não é o Abbá de Jesus.
              A quinta e sexta parte, por sua vez, falam das características que se aproximam do Deus de Jesus. A primeira é feita pelo estudo exegético da “Parábola do Filho Pródigo”. A intenção desta parábola é de rebater os fariseus na sua concepção de Deus. Enquanto estes estão presos no merecimento (figura do Filho mais velho), o Deus de Jesus é aquele que acolhe aqueles que estão necessitados e desamparados. Isto quer dizer que, a parábola é uma resposta aos fariseus de “como é Deus” na visão de Jesus. A segunda pela exegese da “Parábola do Administrador da Vinha”, que refuta a concepção dos fariseus de Justiça Divina a partir do olhar e da lógica humana. O Deus de Jesus não é aquele que age segundo “méritos”, mas segundo sua “generosidade”.
              A sétima, a oitava e a nona parte Castillo discutem a questão do mal. Se o Deus de Jesus é sumamente bondade e não castiga ninguém (como resultado da quebra da lógica do merecimento farisaica), como explicar a origem do mal? Para o autor, esta antinomia não é possível ser respondida, pois, tanto culpabilizar a Deus (o querer divino) como o homem (o permitir divino) incorrem em ter de admitir uma falsa imagem de Deus que não corresponde à imagem passada por Jesus. Neste sentido, o melhor a fazer é admitir que a questão do mal relacionada com a questão de Deus não possui uma solução acessível.
              A décima parte é uma síntese fruto da antinomia a questão Deus e a origem do mal, exposta nas três partes anteriores. Esta síntese é caracterizada por seis tópicos: 1) a fé em Deus como aquilo que brota da experiência; 2) a transcendência de Deus como impossibilidade de responder sobre a questão do mal; 3) o conhecimento de Deus por meio de Jesus de Nazaré; 4) a afirmação de que Deus não é o autor do sofrimento humano; 5) a questão de Deus não pode estar relacionada com a origem do mal; 6) o problema da eficácia da oração. Afirmados este seis portulado, Castilho se pergunta, na décima primeira parte sobre a existência do Inferno. Para ele, o inferno também é um problema que afronta a imagem de Deus passada por Jesus. Assim, o mais prudente é, por um lado, recorrer aos textos neotestamentários que em nada mencionam sobre uma “geografia do mundo do além” e, por outro, ter a consciência que não se sabe se a justiça divina reage como a humana diante de tanta injustiça.
              A décima segunda parte reafirma a tese central deste capítulo: “Deus é sempre bom” mediante a citação de Mt 5,44-48, na qual alguns dados são analisado pelo autor (não em sentido moral, mas sob a ótica teológica de quem é Deus) como: o amor aos inimigos, a perfeição como sinônimo de bondade, e a bondade de Deus sobre justos e injustos. A partir da exegese desta perícope, Castillo afirma que: “Deus não reage diante do mal ou diante do bem como nós reagimos”, pois ele é transcende as categorias de bom e de mal. Isto significa que “Deus nos quer sempre”. Tais afirmações não ficam ilesas das críticas de Feuerbach sobre a projeção divina, porém, com as seguintes ressalvas, não seria o próprio Deus uma “projeção humana”, mas na compreensão humana de Deus, se projeta nela suas experiências profundas como a limitação. E por fim, Castillo faz sua conclusão: “Não importa o caso, fique claro que a mensagem central de Jesus não se refere ao castigo e à ameaça, mas sim à vida e à esperança”.

PRINCIPAIS TESES E CRÍTICAS DESENVOLVIDAS NO TEXTO
              O texto aqui resenhado possui uma tese central, a saber, a identificação da imagem de Deus como Pai com o Abbá de Jesus: “Jesus desmonta o ‘fantasma do pai’, que pesa e oprime na intimidade de muitas pessoas”. Para tanto, Castillo faz um caminho de desconstrução e reconstrução. As quatro primeiras partes do texto, aqui consideradas como desconstrução, fazem a discussão da imagem do pai no ser humano. Sob a égide das quatro representações: poder, autoridade, explicação e autoridade; a imagem do pai, além de se constituir como necessária, se mostra também como castradora, principalmente sob o ponto de vista sexual.
Castillo, em sua desconstrução, apresenta muito bem o problema da “complexa relação com o Pai”, e como esta interfere nas relações com Deus. Contudo, peca em não apontar uma possível saída para este embate, primeiramente em ordem humana, uma vez que, a saída encontrada por este autor, na fase construtiva, é, de imediato, a substituição da imagem de Deus pelo Abbá de Jesus, o que não significa que a imagem do pai será automaticamente substituída. De outro modo, se o problema da relação com Deus está sendo afetado pelas experiências humanas de paternidade, é suficiente apenas mudar o conceito de Deus Pai para o Abbá de Jesus? É suficiente a mudança teológica para um problema de ordem cultural? E o que fazer com a lacuna da imagem do pai, o Abbá de Jesus responderia a estas angústias humanas? Por mais que se fale que o Abbá seja não só um conceito, mas uma experiência, haveria ele de escapar daquilo que Feuerbach já alertou e que o próprio Castillo concorda, ou seja, que a recepção de Deus não é pura mas projetada pelas experiências humanas?
              Uma possível saída para este problema da imagem do pai em níveis humanos, Catillo “toca”, mas não desenvolve. Quando este menciona o dado cultural da ausência da femilinidade, o faz de modo justificativo do problema da imagem do pai. Porém, neste dado, há não só uma justificação, mas também, uma saída possível. Se o autor tivesse aproveitado o dado da “ausência da mãe” e o desenvolvido como um modo cultural de equilibrar a imagem humana do pai, e não somente como uma justificativa da falência da paternidade, acredita-se que se construiria uma base mais sólida nas experiências humanas, não deixando a lacuna da imagem do pai para ser resolvida no plano teológico, como faz o autor. A isto deve ser acrescido também o fato de Castillo só mencionar o famoso argumento de Freud sobre o “complexo de Édipo”, no qual Queiruga (1993)[2] faz uma excelente abordagem, que, poderia também ser uma alternativa para recuperar a experiência da paternidade.
              A fase reconstrutiva é marcada por uma apresentação exegética de duas parábolas e uma perícope, a saber: “Parábola do filho pródigo” (Lc 15, 11-32), “Parábola do administrador da vinha” (Mt 20,1-15) e a perícope do Sermão da montanha (Mt 5, 44-48). A primeira parábola, Castillo trabalha o modo como o Abbá de Jesus se comporta frente aos “desamparados” e “perdidos”; a segunda trabalha o modo como o Abbá concebe a justiça; e a perícope ressalta o modo como o próprio Abbá é. Nas três passagens, salienta o autor, que há uma intenção clara de confronto com a imagem de Deus dos fariseus. Sob a perspectiva exegética de Castillo, que retoma J. Jeremias, nada há que dizer, apenas aplaudir.
Contudo, ao trabalhar o modo de compreensão do Abbá de Jesus, este entra num embate que depois se vê obrigado a abandonar, a questão da origem do mal. A solução encontrada por este teólogo, e que ele mesmo reconhece, não é suficiente para abordar tamanha briga (como é a questão do mal), mas possui uma dose de prudência. O simples fato de dizer que em perspectiva humana nada se pode dizer a respeito do mal e que esta temática deve ser desvinculada da questão de Deus é tão insuficiente quanto a posterior afirmação categórica da bondade de Deus como reconhecimento de sua não autoria do mal. Ao afirmar que nada se sabe sobre a questão do mal  seguida de uma afirmação que Deus não é autor do mal, parece muito mais um argumento que queira salvaguardar a imagem do Abbá do que uma conclusão teológica suficiente. Como dizer que Deus não é o autor do mal se nada sabemos sobre isso? Como o problema do mal pode contribuir para resolver a lacuna da imagem do pai? São problemas que Castillo não responde. Talvez, o melhor seria não ter entrado neste assunto. Entende-se que a intenção era afirmar que Deus não castiga nunca, mas mesmo assim, tocar num assunto tão denso e tão problemático e dar uma solução tão pobre e sem propósito como dada pelo autor, não valeria a pena nem ter tocado neste assunto.
Por fim, o autor acredita que reconhecendo o modo como o Abbá de Jesus se manifesta, a imagem de Deus Pai pode ser recuperada sem prejuízos. Do ponto de vista teológico, há de se concordar com Castillo, mas quando se entra no plano da experiência diária, há ainda algumas lacunas que carecem de melhores explicações. Mesmo assim, as reflexões de Castillo são válidas e merecem uma séria consideração, principalmente pela mudança de paradigma que este teólogo busca embrenhar.    




[1] As breves informações biográficas do autor podem ser conferidas online em: http://es.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Mar%C3%ADa_Castillo_S%C3%A1nchez . Acesso: 20/09/2010.
[2] Cf. QUEIRUGA, A. T. Creio em Deus Pai: o Deus de Jesus como afirmação plena do humano, 1993.

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