sábado, agosto 16

“… EU OS FAREI JUBILAR NA CASA EM QUE SE ORA A MIM…” (Is 56,7A)


A liturgia do 10o Domingo de Pentecostes, segundo a tradição Anglicana, tem como proposta de reflexão o tema da “Universalidade de Deus”. Deus é o Deus de Todos e sua proposta tem que transcender todos os elementos da cultura.

Para refletir esse tema, a liturgia traz dois fragmentos importantes: o texto do denominado “Trito-Isaías” no capítulo 56, versos 1 ao 7; e a perícope encontrada no Evangelho de Mateus nos capítulo 15, versos 21 a 28. O primeiro texto, retirado da profecia ligada à tradição de Isaías, defende a ideia de que o Templo é um lugar comum. Isso significa que a Universalidade de Deus deve superar os limites de raciais e sociais. Já a proposta do Evangelho, oferece uma leitura de como deve ser feito o Ecumenismo e o Diálogo Interreligioso, ou seja, mediante a transcendência humana diante das Instituições Religiosas.

O texto de Isaías (56, 1-7) É um bom exemplo de como a Universalidade de Deus deve superar as barreiras raciais e sociais. O texto é escrito em um contexto pós-exílico, cuja ênfase estava centrada na erradicação do diferente – no caso do texto os estrangeiros e os eunucos – e na afirmação da identidade judaica. É justamente no meio das práticas de afirmação da identidade que a tradição profética entende que o diferente deve ser acolhido para a própria compreensão dessa identidade. A identidade afirmada mediante a fidelidade, a observação do direito e a prática da justiça deve também incluir aquele que é diferente: o estrangeiro e o eunuco. E o espaço de afirmação dessa identidade que deve necessariamente acolher o outro é a coisa mais cara para a tradição Judaica: o Templo. Há, portanto, nesse texto, uma resignificação  da ideia de Templo que Esdras e Neemias cultivava. O Templo deixa de ser o espaço dos privilegiados tanto pela sua raça quanto pela sua posição social, e passa a ser visto como: “Casa de oração para todos os povos”. Assim, a Universalidade de Deus é compreendida e acolhida na nova forma de ver o que o Templo: um espaço onde todos se unem pela oração e não pela sua condição cultural. Deus, na oração, não se reduz às implicações sócio-raciais, mas transcende-as.

O Evangelho complementa a Universalidade de Deus, como transcendência da própria religião. O diálogo posto por Mateus em seu Evangelho é de espantar, por se tratar que Mateus é judeu e escreve para judeus. Nesse texto, Jesus é interpelado duplamente: a) por uma mulher; e b) por uma “pagã” (Cananéia). Essas duas condições fazem daquela personagem uma pessoa duplamente perigosa para Jesus. Contudo, o mais espantoso é que Mateus, ao fazer acontecer esse “encontro demoníaco” de Jesus (um judeu e um Santo) e uma mulher cananéia (uma impura e pagã), coloca a ênfase não em Jesus, mas na pecadora. O encontro, por sua vez, ao invés de se tornar um sermão moralista de Jesus, transforma-se em uma lição de moral para o próprio Jesus. Aqui, em minha opinião, está o texto que melhor mostra a humanidade de Jesus e a Universalidade de Deus. Jesus recebe uma “paulada” da pecadora e é obrigado a rever sua própria fé. O fato de a mulher fazer Jesus cair a ficha que não há uma religião privilegiada, aponta para a Universalidade de Deus que transcende toda e qualquer religião. Essa transcendência, por sua vez, aponta um caminho para um verdadeiro ecumenismo e diálogo interreligioso. Ou seja, na medida em que a humanidade é compreendida como a maior graça de Deus, entendemos também que devemos superar os conceitos tradicionais de religião e ver a Universalidade de Deus na diversidade humana.

Para encerra essa breve reflexão, é interessante mostrar que os dois textos que falam dessa transcendência de Deus são escritos por tradições profundamente ligadas às suas questões religiosas, ou seja, a tradição de Isaías e a tradição de Mateus, que escrevem sempre em uma perspectiva judaizante.

Deo Gratia!

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