segunda-feira, setembro 1

COMENTÁRIOS AO TEXTO a Metaphysical Freendom: Heidegger‟s Project of a Metaphysics of Dasein DE FRANCOIS JARAN. Parte II


A Metafísica do Dasein

É sabido que, propositalmente, Heidegger deixa seu mais famoso tratado SZ incompleto. Os anos que se seguiram a SZ, ao contrário de oferecer respostas às lacunas que ficaram abertas, fez Heidegger buscar novos rumos. Em conformidade com a leitura de Jaran (2010), Heidegger nos anos de 1928 e 1929 procurou desenvolver um conceito bem específico que mui discretamente apareceu em SZ: a “transcendência do Dasein”. Esse conceito, por sua vez, recolocava sob a égide da metafísica a questão do ser.

 O interesse do filósofo pela transcendência do Dasein, explica Jaran (2010), deve ser posto juntamente com base de compreensão das influências que ele recebera das leituras de Kant feitas nesse mesmo período, em especial, Jaran (2010) destaca a preleção Phänomenologische Interpretation von Kant Kritik der reinen Vernunft (PKrV) do inverno de 1927/28. Para esse comentador, Heidegger lia a Crítica da Razão Pura, ao contrário do Neokantismo, como um esforço explícito de investigação das condições de possibilidade da metafísica. Esse modo de compreender Kant, portanto, inclina Heidegger a querer rever a metafísica e recolocá-la em uma base mais autêntica. Assim, na preleção de verão Die Grundprobleme der Phänomenologie (GP) de 1927, Heidegger esboça, pela primeira vez, seu novo conceito de transcendência que dominaria os anos seguintes. Além das influências da leitura de Kant, é relevante os diálogos ocorridos nesse período com Scheler, em especial o texto publicado um ano antes de sua morte: O lugar do homem no mundo (1928). Com efeito, não é sem razão que o nome, “Metafísica do Dasein”, surja justamente em 1928 na preleção de verão Lógick (L)

A caracterização do Dasein, a partir do conceito de transcendência encontrado em WG, recoloca a discussão do Dasein não mais nos mesmos termos de SZ. O Dasein, agora, é aquele que deve ultrapassar os entes em direção ao ser. Essa transcendência, por sua vez, é vista como o próprio fundamento do Dasein. Tal redefinição do Dasein – de Sorge, como foi exposta em SZ, para Transzendenz, dentro da perspectiva da Metafísica do Dasein – como mostra Jaran (2010), não constitui uma refutação propriamente dita de SZ, mas apenas quer garantir que o Dasein, a partir de então, deve ser visto dentro de uma compreensão “metontológica”. Para Heidegger, entender o Dasein metonotologicamente é desvelá-lo dentro de um horizonte que ultrapassa ou transcende a própria linguagem ontológica, ou seja, é o processo de ultrapassamento da ontologia fundamental para a Metafísica do Dasein.

A análise feita por Heidegger da transcendência, assevera Jaran (2010), desembocou no conceito de Liberdade. A compreensão da transcendência exposta na L e aprofundada na WG leva Heidegger a delinear um conceito metafísico de liberdade que perpassou os anos de 1929 e alcançou os anos 30 com a preleção de verão Vom Wesen der menschlichen Freiheit (WF) e a conferência Vom Wesen der Wahrheit (WW).

A tematização da liberdade sob o horizonte da Metafísica do Dasein confirma a tese de Jaran (29010) de que o final da segunda década do século XX bem como o início da terceira são períodos marcados por um empreendimento verdadeiramente metafísico de Heidegger. Nos termos de Jaran (2010), o ano de 1929 era para ser “o ano mais metafísico” do filósofo, haja vista a preleção de inverno Die Grundbegriffe der Metaphysik. Welt - Endlichkeit – Einsamkeit (GM) e a conferência Was ist Metaphysik? (WM). Apesar desses grandes textos metafísicos, Jaran (2010) ressalta que é na preleção do semestre de verão Der Deutsche Idealismus (Fichte, Hegel, Schelling) und die philosophische Problemlage der Gegenwart (DI), desse mesmo ano, que realmente a metafísica teria um destaque especial, na medida em que Heidegger faz um confronto entre sua proposta de uma metafísica da finitude com a metafísica do absoluto de Hegel.

Com efeito, o projeto de uma Metafísica do Dasein, como é sabido, não vai muito longe. Jaran (2010) calcula que a conferência Hegel und das Problem der Metaphysik de março de 1930 seria a última tentativa positiva do filósofo em sustentar tal projeto. Nessa conferência, Heidegger faz a distinção entre a Leitfrage e a Grundfrage e, por fim, mantém a perspectiva da recuperação da metafísica. Entretanto, a preleção de inverno Hegels Phanomenologie des Geistes (HPG) de 1930/31 expõe uma mudança radical do filósofo. De acordo com Jaran (2010), HPG é uma preleção que carrega algumas marcas importantes como: o abandono definitivo da fenomenologia husserliana bem como o vocabulário ontológico que até então havia sustentado toda sua produção intelectual. Outra marca de igual importância foi a cunhagem do termo “onto-teologia” que introduziu no pensamento heideggeriano a mudança da “recuperação” para a “superação” da metafísica – que só aparecerá explicitamente na preleção Aristoteles: Metaphysik IX (A) no verão de 1931.

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