quinta-feira, setembro 18

DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS (Dt 10, 17-21)

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O fragmento retirado do Deuteronômio faz parte do chamado “Segundo Discurso” (Dt 5 – 11,32) que integra a moldura antes do Código Deuteronômico (12 – 26). O Segundo Discurso é composto, substancialmente, pelo Decálogo e por várias admoestações atribuídas a Moisés. O capítulo décimo de Deuteronômio, em específico, trata da reconstrução das tábuas da lei logo depois do episódio do “bezerro de ouro” e das admoestações que o próprio Senhor tem para o povo: “E agora, Israel, o que o Senhor, teu Deus espera de ti?” (Dt 10,12a).

A essas palavras, segue-se um longo discurso que tem como tema central: a fidelidade a Deus, tal como diz o autor sagrado: “Ele espera apenas que temas o Senhor, teu Deus, seguindo todos os seus caminhos, amando e servindo o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, como todo o seu ser...” (Dt 10, 12b). Entretanto, essa fidelidade é visualizada num compromisso moral com esse Deus, nas palavras do autor sagrado: “... guardando os mandamentos do Senhor e as leis que hoje te dou para a tua felicidade” (Dt 10, 12c). Isso significa que aquele que é fiel a Deus (fidelidade esta caracterizada pelos verbos: teme, segue, ama e serve) mostra essa fidelidade guardando os seus mandamentos, i. é, comprometendo-se moralmente com tal dever.

Os versos 17 a 21, fragmento proposto para essa liturgia, fazem parte desses “mandamentos” que o Senhor pede para guardar, mostrando-se assim fiel a Ele. Essa parte dos mandamentos, por sua vez, levanta duas importantes características do rosto divino que servem de chave de leitura para compreender todo o resto desses mandamentos. Nesse sentido, sabe ser fiel a Deus quem, por primeiro, conhece o Deus que segue. A primeira característica é que Deus “não faz acepção de pessoas” e a segunda é o fato de Deus não ser subornável.

Segundo o autor sagrado, aquele que teme ao Senhor deve, em primeiro lugar, saber que Ele é o “o Deus dos deuses” (v.17) e por assim ser “não faz acepção de pessoas” (v.17). Para provar que ele assim o é, segue o autor sagrado: “[o Senhor] faz justiça ao órfão e à viúva, e que ama o migrante...” (v.18). Com efeito, essa característica exige uma explicação. Quando o autor sagrado afirma que Deus não faz acepção de pessoas, ele não está querendo dizer que todos são iguais para Deus. Tanto é assim que o autor diferencia: órfão, viúva e migrante. Estes, mais que pessoas singulares, são tomados como “tipos” ou “categorias” que, em geral, são rechaçados pela sociedade israelita. Logicamente, o autor sagrado está se referindo ao seu próprio grupo, ou seja, sabendo que os textos deuteronômicos são oriundos da tradição Eloísta do Reino do Norte e que foram escritos pelos chamados “povo da terra” – povo este composto por pessoas geralmente rejeitadas pela tradição Javista do Reino do Sul – é fácil pensar que o autor deuteronomista creia em um Deus que acolhe todos aqueles que são socialmente não aceitos, conferindo-lhes dignidade de povo de Deus. Assim, quando o autor diz que Deus não faz acepção de pessoas, na verdade, quer dizer que Deus não distingue valores entre as pessoas. Todos são iguais para Deus em dignidade e não em substância. Para Deus, não há privilegiados, pois todos têm o mesmo valor.



A segunda característica divina apresentada pelo autor sagrado é a incorruptibilidade. De acordo com a tradição deuteronomista, que está calcada mais na tradição profética do que na tradição do Templo, o rosto de Deus não pode ser identificado com a lógica da retribuição, muito presente em Jerusalém. A relação de fidelidade a Deus deve pressupor que Deus não é subornável e, por isso mesmo, não estabelece relações comerciais, a qual a retribuição e o poder de troca seriam a lógica regente. Assim, ser fiel a Deus é não querer ver em Deus uma grande oportunidade de barganha espiritual, onde o prestígio financeiro teria uma certa predominância. Tampouco a fidelidade a Deus passa pela ideia de que Deus tem a obrigação de recompensar os justos e destratar os humanamente considerados injustos. Não é esse o rosto pelo qual o autor sagrado apresenta ao povo. Pelo contrário, o Senhor está acima das relações tributáveis e das recompensas, ele é “o Deus dos deuses” (v.17) que “fez por ti grandes e terríveis coisas” (v.21).  

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