terça-feira, setembro 2

UMA ABORDAGEM GERAL DA NOÇÃO GREGA DE EPISTEME


Fonte: http://migre.me/lpPy3
Não há como entender a ciência ou mesmo a própria epistemologia se não se compreende o léxico grego “πιστήμη”. Muito mais que uma simples etimologia, é necessário dialogar com os gregos. Nos termos de Heidegger:
O diálogo com os pensadores gregos [...] não significa, contudo, uma nova renascença da Antiguidade. Também não visa uma curiosidade historiográfica do que já passou [...] O pensamento e a poesia na aurora da Antiguidade grega atuam ainda hoje e são atuais a ponto de sua essência...[1]   

Desse modo, é importante dizer que a grande contribuição grega para o conhecimento considerado “epistêmico”, independentemente das influências que estes sofreram dos egípcios, mesopotâmicos, micênicos entre outros, é o fato de os gregos separarem do horizonte de compreensão da πιστήμη os aspectos religiosos por um lado e a técnica por outro (ROSA, 2012). Essa dissociação, por sua vez, conferiu à πιστήμη um caráter mais especulativo e menos ligado às atividades manuais. Uma das razões dessa dissociação, argumenta Rosa (2012), está ligada à mentalidade elitista grega de que os trabalhos manuais são indignos ao ser humano livre e, por isso mesmo, deve ser adquirido mediante um adequado processo de educação e instrução.
Com efeito, a compreensão grega de πιστήμη remete a um tipo muito específico de conhecimento que atenderia a critérios rigorosos. Para tanto, deveria ser um contraponto à mera e frágil δόξα do homem comum (OLIVEIRA, s.d.). Essa contraposição, segue Oliveira (s.d.), à medida que não permitia ser relativa, deveria garantir que o conhecimento fosse tomado com um fundamento, caso contrário, dependeria sempre de algum outro anterior, incorrendo em uma regressão ao infinito. Assim, dois critérios são centrais para o reconhecimento de um conhecimento do tipo epistêmico: a validade e a demonstrabilidade.
 O critério da validade grega rezava que “ou o conhecimento possui validade para todos os seres inteligentes, homens, deuses e anjos, etc., ou não poderá reivindicar um status maior do que o de ser uma simples opinião” (OLIVEIRA, s.d.). Isso significa dizer que um conhecimento só é tomado como válido (epistêmico) quando ele atinge o grau de universalidade, ou seja, quando sua extensão não for limitada pela temporalidade. Sobre a universalidade para os gregos, explica Cano (2009) que ela era tida, no caso de Platão, como algo tão real como qualquer outra coisa do real, e seu acesso era propriedade da νοειυ, uma espécie de entendimento que permitia alcançar os primeiros princípios (ἀρχαι). Nesse sentido, a πιστήμη seria um tipo de conhecimento resultante da νοειυ, na medida em que esta última garante a validade exigida pelos gregos: a universalidade.
Juntamente com a universalidade, a validade epistêmica ainda recorria ao caráter de necessidade. De acordo com Oliveira (s.d.), não basta que um conhecimento seja universal se ele permite conjuntos de conhecimentos alternativos contrários a si. Desse modo, o caráter de necessidade garante que um conhecimento é válido porque não há outra explicação que não ele: “a episteme fala daquilo que é assim mesmo, por não poder ser diferente” (OLIVEIRA, s.d.). Destarte, a validade de um conhecimento epistêmico fica condicionada tanto à sua universalidade, ser reconhecido por todos independentemente do tempo, e à sua necessidade, ser reconhecido como algo que não pode ser diferente.
O segundo critério da πιστήμη é sua demonstrabilidade. Oliveira (s.d.) explica que além das condições de validade (universalidade e necessidade) é necessário também “mostrar que realmente aquilo que afirma merece o crédito de todos”. Esse “mostrar” é o que nosso autor denomina por demonstrabilidade. Mas o que seria esse “mostrar”? Seria, acima de tudo, um procedimento racional a fim de constranger qualquer um que prossiga em manter uma posição contrária àquela que está se afirmando. Nos termos de Oliveira (s.d), é um tipo de argumento para o qual inexiste contra-argumentação razoável sem, no entanto, cair no ridículo ou no escárnio. Esse tipo de demonstrabilidade foi muito utilizado por Sócrates e conservado em alguns diálogos platônicos. Também Aristóteles recorreu à lógica, como instrumento de demonstrabilidade, para desestabilizar seus adversários sofistas.
Apesar da validade e da demonstrabilidade para o estabelecimento de um conhecimento epistêmico, Cano (2009) ressalta que todo saber grego co-participa do λογος, pois este é a lei que reflete as contínuas transformações do cosmo bem como a lei intersubjetiva dos homens sábios. Por outro lado, Oliveira (s.d.) lembra que, apesar da contraposição existente entre πιστήμη e δόξα, essa última não seria totalmente desprovida de valor epistêmico. Pelo contrário, naquelas situações em que a causalidade, a rigorosidade e a sistematicidade não estariam implicadas, ela seria um saber legítimo. Ademais, segue o nosso autor, a δόξα está subordinada à πιστήμη e teria, frente a essa última, uma disposição hierárquica diferenciada, ou seja, se diferenciaria pelo seu grau de importância.
A título de conclusão é possível dizer que o espírito helênico: a) estabelece um espírito crítico a partir dos pré-socráticos, que permitiu a evolução dos conhecimentos em geral; b) determina um conhecimento epistêmico a partir da universalidade e da generalidade, que permitiu a construção do saber objetivo; c) desenvolve uma metodologia lógica de análise dos dados, que permitiu o posterior tratamento matemático dos dados.

Referências
  • OLIVEIRA, D. B. A crise do conceito episteme. In: Revista Margens Virtual. s/d. Disponível em: http://www.ufpa.br/nupe/artigo12.htm .
  • CANO, J. M. U. De la episteme a la ousía. Una paradoja continuada. In: Conhecimento & Diversidade. Niterói, n.1, pp.75-85, jan/jun, 2009.
  • CHAUI, M. Diferenças entre a ciência antiga e a moderna. In: Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000, pp.253-256.
  • ROSA, Carlos Augusto de Proença. A civilização grega e o advento do pensamento científico e da ciência. In: História da Ciência. Da Antiguidade ao Renascimento científico. 2.ed. Brasília: FUNAG.


[1] HEIDEGGER, M. Ciência e pensamento de sentido. In: Ensaios e Conferências. 3.ed. Vozes: Petrópolis, 2006, p.41

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