segunda-feira, setembro 29

UMA POLÊMICA - UMA FALA


Como foi dito acima, esse post é uma "fala". Uma fala que fala a partir da "toca da coruja", ou seja, que fala a partir de um lugar do olhar. Isso porque a metáfora da coruja é justamente isso: um discurso que fala por intermédio de um olhar posicionado, estrategicamente, acima da realidade, um acima que na verdade é um abaixo, de modo a "ver o real". Assim fazia a Coruja de Minerva, assim fazia a Coruja de Minerva de Hegel. Um lugar para olhar, esse é o krités dessa fala.

Essa fala, por sua vez, fala de uma "polêmica". O pólemos, desde os gregos, referenciava-se a arte da guerra, que mormente significa combate. Polêmica, da qual fala essa fala, é realmente um combate! Mas o que ela combate ou do que combate essa fala? Por que essa fala combate? O que uma fala combatente fala? 

Essa fala combatente fala de um combate que não é novo. É um combate que, pelo menos, tem a mesma idade e a mesma importância de todos os outros combates.  É o combate dos iguais. É o combate contra os iguais. É o combate do combate. Em uma sociedade que a fala se caracteriza pelo acirramento das diferenças e pela supervalorização das especificidades, um igual é para ser combatido. Não é permitido hoje ser igual, e nunca o foi. Mais do que nunca, o diferente é assumido como valor, não como aquele valor que agrega, mas como aquele valor que agride e separa. É um diferente que mata para ser diferente.

O combate dos diferentes frente os iguais é palco dessa fala. Uma fala combatente que mostra o combate dos iguais contra os diferentes e dos diferentes contra os iguais. Ora mas se não há iguais não haveria também de diluir os diferentes? E o mesmo não ocorreria com o contrário? Por que será que iguais e diferentes não compreendem que um necessita do outro como faces de uma moeda, como a negação necessária do espírito dialético, como a circularidade hermenêutica entre ser e ente? O que faz um igual ser menor ou maior que um diferente?

Nunca se viu tanta luta, tanto combate pelo diferente e ao mesmo tempo pelos iguais. Chamo aqui de iguais aqueles que escolheram o mesmo sexo para chamar de "meu amor" e de diferentes aqueles que acreditam que podem ser felizes assomando-se com sexos diferentes. A luta do diferente contra o igual e vice versa é o combate entre Homo-afetividade e Homo-fobia. Por que será que os diferentes não vêem que os iguais são tão iguais a eles: "Homo-Homo". E por que os diferentes não percebem que os diferentes são tão iguais a eles: afficere-phobos (o medo afeta e ser afetado dá medo)?

Não obstante as diferenças e as semelhanças, há um combate que impede a fala. Esse combate dos diferentes é bem antigo e foi motivado por ambiências que só se prestaram ao desserviço. Ambiências das mais divinas às mais mundanas que só procuraram mostrar que, seja Deus ou o Diabo o culpado, os iguais só serviriam para uma única coisa: ser combatido. Esses diferentes, que tanto se amavam, não conseguiam ver que o amor é como um morcego e não consegue ver onde ele pousa, apenas é teleguiado pelas ondas da paixão. Talvez os iguais não foram tão culpados assim, como pensavam os diferentes, sobre seu destino. Talvez muitos iguais padeceram de uma sina que eles mesmos não pediram.... Malditos deuses!

Mas os iguais não se contentaram. O combate é como uma faca de dois gumes e o outro gume corta tal qual o primeiro. Injuriados, humilhados, expurgados como quem tira um demônio do corpo, os iguais se levantaram contra os diferentes. Esse levante foi de tal proporção que a sociedade viu nascer um muro tão grande como o de Berlin e tão áspero como a cortina de ferro. Um muro dos iguais. Os iguais usaram da fala combatente e fizeram da fala seu combate. Tomando as ruas, as mídias, os juris, as leis, as mentalidades, os iguais se insurgiram, com um ódio dos diabos, contra os diferentes. O mostro da lagoa, cantado por Chico, surgiu e amedronta a sociedade. Não mais o monstro dos cassetetes e dos canhões, mas o monstro dos iguais... Malditos diabos!

O que vemos hoje? Vejo o combate, não mais a fala combatente. A fala, principio e fim que aos poucos foi se tornando uma fala combatente, hoje foi engolida pelo combate. Não há mais fala, há combate. E no combate ninguém fala. Se não há fala, não há nada. É memorável a equidade entre fala e nada. Ou fala ou nada. E fala, e nada. Sem nada não há fala, sem fala não há nada. Essa é a condição dos iguais e dos diferentes na atualidade: nada; porque não há fala. Diferentes não querem falar, querem nada! Iguais querem nada, não querem fala! Que resultados chegamos com essa fala combatente: a nada! Porque nem iguais e nem diferentes se percebem, apenas se nadificam em uma ideologia vazia de marchas para isso e marchas para aquilo, de curas para isso e para aquilo, de moral disso e daquilo etc etc etc... Quando veremos a fala ao invés de diferentes e iguais?

Solução?! Nada, só a fala. Pensem nisso!    

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