quinta-feira, outubro 9

NOTAS SOBRE O LIVRO: A NEGAÇÃO DA MORTE DE ERNEST BECKER


BECKER, Ernest. A negação da Morte. Uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. Trad. Luiz Carlos do Nascimento Silva. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.


RELAÇÃO: HEROÍSMO-EGOÍSMO

  • A ânsia por IDÉIAS VITAIS: “Em épocas com a em que vivemos existe uma grande pressão para que se apresentem conceitos que ajudem os homens a compreenderem o seu dilema; há uma ânsia por idéias vitais, por uma simplificação da desnecessária complexidade intelectual” (19/1)
  • GRANDES MENTIRAS E VERDADES VITAIS: “Às vezes esse desejo de simplificar engendra grandes mentiras, desde que elas resolvam as tensões e facilitem que a ação prossiga exatamente como as racionalizações de que as pessoas precisam. Mas também tende a retardar o descobrimento de verdades capazes de ajudar os homens a adquirirem uma certa compreensão do que acontece com eles e de lhes dizer onde realmente estão os problemas” (19/1)
  • HEROÍSMO: “Uma dessas verdades vitais, conhecida há muito tempo é a idéia do heroísmo, mas em épocas eruditamente ‘normais’, nunca pensamos em considera-la importante, em exibi-la, em usa-la como conceito central. No entanto, a mente popular sempre soube o quanto ela era importante” (19/2)
  • A COMPREENSÃO DO HEROÍSMO PELO NARCISISMO: “Um dos conceitos-chave para compreender a ânsia do homem pelo heroísmo é a idéia de narcisismo. Como Erich Fromm nos lembrou tão bem, essa idéia é uma das grandes contribuições de Freud. Freud descobriu que cada um de nós repete a tragédia do Narciso da mitologia grega: estamos perdidamente abosrtos em nós mesmos”. (20/2)
  • OBS: Buscar Schopenhauer Quanto aos comportamentos básicos do ser humano: egoísmo. As Dores do Mundo. Disponível: http://groups.google.com.br/group/digitalsource. Acesso: 16/09/2009b.
  • O HOMEM ACHA QUE NÃO VAI MORRER: “É esse narcisismo que faz com que, nas guerras, homens continuem marchando até serem atingidos por tiros à queima-roupa: no fundo do coração, o indivíduo não acha que ele vai morrer, apenas sente pena daquele que está a seu lado. A explicação de Freud para isso era de que o inconsciente não conhece a morte ou o tempo: nos seus recessos orgânicos fisioquímicos mais íntimos, o homem se sente imortal” (20/2)
  • EGOÍSMO FISIOQUÍMICO: “Através de inúmeras eras de evolução, o organismo tem precisado proteger a sua integridade. Uma vez dada sua identidade fisioquímica, ele dedicou-se a preservá-la. Este é um dos principais problemas do transplante de órgãos: o organismo se protege contra a matéria estranha, mesmo que se trate de um novo coração que pode mantê-lo vivo (...) Se tomássemos um organismo cego e mudo e lhe déssemos uma consciência de si mesmo e um nome, se fizéssemos com que ele se destacasse da natureza e soubesse que era inigualável, teríamos o narcisismo” (21/1)
  • ASPECTO NECESSÁRIO DO EGOÍSMO: “No entanto ela é demasiado absorvente e incessante para apenas uma incomoda aberração. Ela expressa o âmago do ser: o desejo de se destacar, de ser algo na criação. Quando se combina o narcisismo natural coma necessidade básica de amor próprio, tem-se uma criança que precisa se sentir objeto de valor fundamental: a primeira no universo, representando em si mesma a vida toda” (22)
  • NATURALIDADE DO HEROÍSMO HUMANO E A IGNORÂNCIA DAS NECESSIDADES: “Quando notamos como é natural o homem lutar para ser um herói, como é profunda a penetração disso em sua constituição evolutiva e organísmica e com franqueza ele o demonstra quando criança, fica ainda mais curioso o grau de ignorância que a maioria de nós tem, conscientemente, daquilo que realmente queremos e de que precisamos” (22/1)
  • NECESSIDADE DE ADMISSÃO DO HEROÍSMO: “A ânsia pelo heroísmo é natural, e admiti-la é um gesto de honestidade. Se todo mundo a admitisse, é provável que isso liberasse uma força tão represada que seria devastadora para as sociedades atuais” (23)
  • HEROÍSMO ANTROPOLÓGICO: “O que os antropólogos chamam de “relatividade cultural” é, na verdade, a relatividade dos sistemas de heróis em todo mundo. Um sistema cultural é uma dramatização de seres heróicos sobre a terra. Cada sistema cria papeis para a realização de vários graus de heroísmo...” (23/1)
  • CRENÇA HERÓICA QUE SUPERA A MORTE: “A esperança e a fé estão em que as coisas que o homem cria em sociedade tenham um valor e um significado duradouros, que sobrevivam ou se sobreponham à morte e à decadência, enfim, que o homem e seus produtos tenham importância” (24/1)
  • CRENÇA DA MODERNIDADE: “Quando Norman O. Brown disse que a sociedade ocidental, mesmo a partir de Newton, por mais científica ou secular que alegue ser, ainda é tão religiosa quanto qualquer outra, eis o que ele queria dizer: a sociedade ‘civilizada’ é uma esperançosa crença de que a ciência, o dinheiro e os bens façam com que o homem valha mais do qualquer outro animal. Neste sentido, tudo aquilo que o homem faz é religioso e heróico e, no entanto, corre o perigo de ser fictício e falível” (24/1)
  • OBS: Sobre a mitologização da modernidade: Texto: Conceito de Iluminismo, Horkheimer-Adorno.
  • A POSITIVIDADE DO HEROÍSMO: “O homem dará a vida pela sua pátria, sua sociedade, sua família. Tomará a decisão de atirar-se sobre uma granada para salvar seus camaradas; ele é capaz da mais alta generosidade e do mais elevado auto-sacrifício. Mas tem que sentir e crer que aquilo que está fazendo é verdadeiramente heróico, transcendente ao tempo e externamente significativo” (25/2)
  • CRISE DA MODERNIDADE: “A crise da sociedade moderna está precisamente no fato de que os jovens já não se sentem seres heróicos no plano de ação preparado pela sua cultura. Eles não acreditam que este plano seja verdadeiro para os problemas de suas vidas e de sua época” (25/2)
  • OS ANTI-HERÓI: “Surgem os anti-heróis, aqueles que seriam indivíduos heróicos à sua maneira (...) A grande perplexidade e agitação de nossa época é que os jovens percebem – sabe-se lá as conseqüências – uma grande verdade sócio-histórica: assim como há auto-sacrifícios inúteis em guerras injustas, também existe uma ignóbil atividade heróica de sociedades inteiras...” (26)
  • CRISE NA RELIGIÃO: “Se a crise da sociedade também é, claro, a crise da religião organizada: a religião já não é válida como um sistema de heróis, e por isso a juventude a despreza. Se a cultura tradicional fica desacreditada como atividade heróica, a igreja que apóia essa cultura se desmerece automaticamente. Se a igreja, por outro lado, preferir insistir na sua própria atividade heróica, poderá verificar que em pontos cruciais, terá que agir contra a cultura, recrutar jovens para serem anti-heróis em relação às formas de viver da sociedade em que vivem. Este é o dilema da religião na nossa era.” (26/1)


MEDO DA MORTE: INATISMO OU CONSTRUÇÃO CULTURAL?

  • TERROR DA MORTE: “Apresentamos aqui, de imediato, uma das grandes redescobertas do pensamento moderno: de todas as coisas que movem o homem, uma das principais é o seu terror da morte” (31/1)
  • A MORTE E O HEROISMO: “O heroísmo é, antes de qualquer coisa, um reflexo do terror da morte. O que mais admiramos é a coragem de enfrentar a morte; damos a esse valor a nossa mais alta e mais constante adoração” (31/1)
  • OBS: Sobre a Morte Buscar Heidegger, Ser e Tempo II. Ver também: Black, Escatologia da pessoa.
  • HEROÍSMO NA HISTÓRIA ANTROPOLÓGICA: “O herói era o homem que podia entrar no mundo espiritual, no mundo dos mortos, e voltar vivo. Tinha seus descendentes nos cultos misteriosos do Mediterrâneo Oriental, que eram cultos de morte e ressurreição. O herói divino de cada um desses cultos era alguém que tinha voltado dos mortos. E como sabemos, hoje, com base na pesquisa de mitos e rituais antigos, o próprio cristianismo era um concorrente dos cultos misteriosos e saiu vencedor – entre outras razoes – porque também tinha destaque um homem que curava, tinha poderes sobrenaturais e havia ressuscitado” (32/1)
·      A MORTE E O SEU LUGAR CENTRAL: “Todas as religiões históricas se dedicavam a este mesmo problema, ou seja, como suportar o fim da vida. (...) quando a filosofia assumiu o lugar da religião, também assumiu o problema central da religião, e a morte se tornou a verdadeira ‘musa da filosofia’, desde seus primórdios na Grécia, até Heidegger e o existencialismo moderno” (32/1)
·      ARGUMENTO DA MENTE SADIA: “Há pessoas ‘de mente sadia’ que afirmam que o medo da morte não é uma coisa natural para o homem, que não nascemos com ele. (...) A criança vive em um mundo que está cheio de coisas vivas, que se mexem respondendo a ela, distraindo-a, alimentado-a. ela não sabe o que significa a vida desaparecer para sempre, nem teoriza para onde deveria ir. Só aos poucos reconhece que há uma coisa chamada morte, que leva algumas pessoas embora para sempre; com muita relutância, passa a admitir que mais cedo ou mais tarde ela leva todo mundo embora, mas esta percepção gradativa de inevitabilidade da morte pode vir a ocorrer só pelo nono ou décimo ano de vida” (33/1).
·      O ABANDONO: “Se a criança fosse abandonada à própria sorte, seu mundo iria despencar, e seu organismo deve perceber isso em determinado nível; chamamos isso de ansiedade pela perda do objeto. Não será essa ansiedade então, um medo natural, orgânico, de aniquilamento?” (33/2)
·      A IMPORTANCIA DO AFETO MATERNO: “Acreditam eles que, se a mãe tiver cumprido sua tarefa de maneira carinhosa, que inspire confiança, as ansiedades e culpas naturais da criança irão desenvolver-se de forma moderada, e ela conseguirá coloca-las firmemente sob controle de sua personalidade em desenvolvimento.” (33/2)
·      A EXPERIÊNCIA DA ANIQUILAÇÃO: “O psiquiatra Rheingold garante que a angústia de aniquilação não faz parte da experiência natural da criança, mas é formada por experiências adversas com uma mãe que lhe causou privações” (34)
·      ARGUMENTO DA MENTALIDADE MÓRBIDA: “Um grande número de pessoas concordaria com essas observações sobre as experiências do início da vida e admitiria que elas podem aumentar as ansiedades naturais e os temores que vem mais tarde, mas essas pessoas também iriam argumentar, com muita ênfase que, apesar de tudo, o temor da morte é natural e está presente em todos os indivíduos” (35/1)
·      RAZÕES DE GREGORY ZILBOORG: “Zilboorg [psicanalista] diz que a maioria das pessoas pensa que o temor da morte está ausente porque raramente mostra a sua verdadeira face. Mas por baixo de todas as aparências, afirma o autor, o medo da morte está universalmente presente: Porque por trás da sensação de insegurança diante do perigo, por trás do sentimento desanimo e depressão, sempre se esconde o medo básico da morte, um medo que sofre elaborações muitíssimo complexas e se manifesta de muitas maneiras indiretas (...) Em outras palavras, o temor da morte deve estar presente por tas de todo o nosso funcionamento normal, a fim de que o organismo possa estar armado em prol da autopreservação. (...) Se esse temor estivesse constantemente no plano consciente não teríamos condições de funcionar normalmente (...) ao mesmo tempo que o temor da morte está sempre presente no funcionamento psicológico normal do nosso instinto de autopreservação, também é total o nosso esquecimento desse temor em nossa vida consciente” (36/1)
·      RAZÕES DE DARWIN E OS EVOLUCIONISTAS: “Os animais, para sobreviverem, tem tido de se proteger mediante reações de medo, em relação não apenas a outros animais, mas à própria natureza. Tiveram que perceber a proporção verdadeira as suas limitadas forças diante do mundo perigoso em que viviam. A realidade e o medo andam juntos, naturalmente” (38/1)
·      RAZÕES DA PSICANÁLISE: “Poderíamos dizer que o medo é programado, nos animais inferiores, por instintos que já vêm prontos; um animal sem instinto não possui medos programados. Os temores do homem são formados com base na maneiras pelas quais ele percebe o mundo.” (38/2)
·      A REPRESSÃO COMO RAZÃO PARA O INATISMO DO TEMOR DA MORTE: “O argumento daqueles que acreditam na universalidade do terror inato da morte baseia-se, em sua maioria, naquilo que sabemos sobre o quanto a repressão é eficiente. É provável que a discussão nunca possa ser decidida com clareza: se você alega que um conceito não está presente porque está reprimido, você não pode perder. Não é um jogo justo, intelectualmente falando, porque você tem sempre o trunfo nas mãos. Esse tipo de argumento faz com que a psicanálise pareça não-científica para muitas pessoas, já eu seus proponentes podem alegar que se alguém nega um de seus conceitos, é porque está reprimindo a consciência da verdade daquele conceito” (41/2)
·      RELAÇÃO REPRESSÃO-NARCISISMO COM A MORTE: “A criança que é bem alimentada e amada desenvolve, como dissemos, um sentido de onipotência mágica, de indestrutibilidade, de poder comprovado e de apoio seguro. Ela pode imaginar-se, lá no fundo, eterna. Poderíamos dizer que a sua repressão da idéia da morte lhe é facilitada porque ela, a criança, na sua vitalidade muito narcisista, está fortalecida contra tal idéia. Esse tipo de caráter provavelmente ajudou Freud a dizer que o inconsciente não conhece a morte” (43)
·      A ESTABILIDADE DIANTE DA MORTE: “...o homem molda para si mesmo um mundo governável: ele se lança à ação sem usar de crítica, sem pensar. Aceita a programação ditada pela sua cultura, que lhe diz para onde ele deva olhar (...) Usa todos os tipos de técnicas, que chamamos de ‘defesa de caráter’; aprende a não se destacar; aprende a inserir-se no jogo dos poderes externos, tanto de pessoas concretas como de coisas e ordens de sua cultura. O resultado é que ele passa a existir na imaginada infalibilidade do mundo que o cerca. Ele não precisa ter medo quando seus pés estão fincados com solidez e sua vida está mapeada em um labirinto pronto para ser usado. Tudo o que tem a fazer é lançar-se à frente, em um estilo compulsivo de impetuosidade (...) Ou então sofrer um choque prematuro que o deixe com uma percepção muda (...)” (44/1-45)
·      Sobre o espanto para com a morte ver: Marcio Bolda Metafísica e Assombro.


A DUALIDADE HUMANA E O LIMITE ANTROPOLÓGICO

  • ESSÊNCIA DO HOMEM: “Durante muito tempo, sempre que os filósofos falavam do âmago do homem, referiam-se a ele como a ‘essência’ do homem, algo fixado em sua natureza, bem no fundo, como uma qualidade ou substancia especial. Mas nunca se encontrou alguma coisa que parecesse com isso; a peculiaridade do homem continuava sendo um dilema. O motivo pelo qual ele nunca foi encontrado, como expôs Erich Fromm num excelente exame, é que não há essência alguma. A essência do homem é, na verdade, sua natureza paradoxal, dado o fato de ser ele metade animal e metade simbólico” (47/2-48)
  • PARADOXO EXISTENCIAL HUMANO: “Poderíamos chamar esse paradoxo existencial de condição de individualidade dentro da finitude. O homem tem uma identidade simbólica que destaca nitidamente da natureza. Ele é um eu simbólico, uma criatura com nome, uma história de vida” (48/1).
  • DUALIDADE ANTROPOLÓGICA: “...o homem é um verme e um alimento para os vermes. Este é o paradoxo: ele está fora da natureza e inevitavelmente nela; ele é dual, está lá nas estrelas e, no entanto, acha-se alojado num corpo cujo coração pulsa e que respira (...) tem consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque na natureza, dotado de uma dominadora majestade, e no entanto retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre” (48/2-49)
  • Sobre a dualidade antropológica: Boff, Águia e a galinha
  • O PESO E A COMLEXIDADE DA EXISTÊNCIA HUMANA: “O conhecimento da morte é reflexivo e conceitual (...) Só quando você deixa que todo o peso desse paradoxo penetre em sua mente e seus sentimentos você pode perceber como é impossível um animal viver semelhante situação. Eu acredito que tem razão, aqueles que acham que uma plena compreensão da condição humana levaria o homem à loucura. (...) Acho que essas coisas ilustram o significado da assustadora observação feita por Pascal: ‘homem é necessariamente louco, porque não ser louco resultaria em outra forma de loucura’ (...) Louco porque como iremos ver, tudo o que o homem faz no seu mundo simbólico é uma tentativa de negar e vencer o seu destino grotesco” (49)
  • O LIMITE DO CORPO NA ANALIDADE: “As reinterpretações de Freud num contexto existencial dão à sua compreensão uma verdadeira estatura científica. Esse objetivo foi recentemente alcançado de maneira brilhante por Norman O. Brown em sua reinterpretação da idéia de analidade e seu fundamental papel na teoria psicanalítica. (...) Por mais que a criança tente realizar os maiores vôos da sua fantasia, ela deverá sempre voltar ao seu corpo. O mais estranho e humilhante de tudo é a descoberta de que seu corpo tem, localizado na extremidade traseira inferior e fora do alcance dos olhos, um orifício do qual saem cheiros fétidos e, ainda mais, uma substância fétida – muitíssimo desagradável para todos os demais e até para a própria criança (...) O ânus e o seu incompreensível e repulsivo produto representam não apenas determinismo e sujeição físicos, mas também o destino de tudo o que é físico: deterioração e morte. Agora compreendemos que aquilo que os psicanalistas chamaram de ‘analidade’ ou traços de caráter anal são, na realidade, formas de protesto universal contra o acidente e a morte. (...) O que perturba na analidade é que ela revela que toda cultura, todos os estilos de vida criativos do homem são, em alguma parte básica, um protesto que se criou contra a realidade da natureza, uma negação da verdade da condição humana, e uma tentativa de esquecer a criatura patética que o homem é. ” (53. 54. 56)
  • EPÍGRAFE: “No mais alto trono do mundo o homem senta-se sobre o traseiro” (Montaigne)

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  • O HOMEM COM UM SER COVARDE: “Certa vez escrevi que achava que a razão pela qual o homem era naturalmente covarde era que ele sentia sentia não ter autoridade e a razão de ele não ter autoridade estava na própria maneira pela qual o animal humano é formado: todos os nossos significados nos são inculcados pelo lado de fora, pelas nossas relações com os outros. É isso que no dá um ‘eu’ e um superego. Todo nosso mundo de certo e errado, bom e mau, nosso nome, exatamente quem somos, tudo isso é enxertado em nós. Nunca sentimos que temos autoridade para oferecer coisas por nossa conta.” (72)
  • TEORIA DE MASLOW PARA A COVARDIA HUMANA (SÍNDROME DE JONAS): “Tememos nossa mais elevada possibilidade (assim como as mais baixas). Em geral, temos medo de nos tornarmos aquilo que podemos vislumbrar em nossos momentos mais perfeitos (...) Apreciamos e até nos emocionamos com as possibilidades divinas que vemos em nós mesmos em tais momentos culminantes. E, no entanto, trememos simultaneamente de fraqueza, pasmo e medo diante dessas mesmíssimas possibilidades” (72/2)
  • A NÃO SUPORTABILIDADE DO SUPERLATIVO: “Tudo se reduz a uma simples fala de força para suportar o superlativo, para abrir-se à totalidade da experiência – uma idéia que era muito apreciada William James e, mais recentemente, foi desenvolvida em termos fenomenológicos na obra clássica de Rudolf Otto. Otto discorreu sobre o terror do mundo, a sensação de espanto, o assombro e medo avassaladores diante da criação – o milagre dessa criação, o mysterium tremendum et fascinosum de cada coisa isolada, do simples fato de existirem coisas. O que Otto fez foi chegar descritivamente ao sentimento natural de inferioridade que o homem tem diante da maciça transcendência da criação; ao seu verdadeiro sentimento de criatura diante do esmagador e anulador milagre do Ser.” (73/5-74)
  • A DESPROGRAMATIVIDADE DO HOMEM: “Mas olhem para o homem, a criatura impossível! Aqui, a natureza parece ter deixado de lado a cautela e os instintos programados. Criou um animal que não tem defesa alguma contra a percepção do mundo exterior, um animal inteiramente aberto à experiência. (...) É estarrecedor o fardo que o homem suporta, o fardo experiencial” (75)
  • A ENIGMÁTICA EXISTÊNCIA DO HOMEM: “As próprias entranhas do homem – o seu eu – lhe são confusas. Ele não sabe quem é, por que nasceu, o que está fazendo no planeta, o que deveria fazer, o que pode esperar. Sua existência lhe é incompreensível, um milagre como o restante da criação, mais perto dele, bem perto de seu coração que bate, por isso mesmo ainda mais estranho. Cada coisa é um problema, e o homem não pode apartar de si coisa alguma. Maslow disse bem: ‘É precisamente em relação ao que há de divino em nós que nos tornamos ambivalentes, ficamos fascinados e temerosos, somos motivados e nos defendemos. Este é um aspecto da dificuldade básica do homem, o de sermos simultaneamente vermes e deuses” (75)
  • O HOMEM COMO AUTO-CRIAÇÃO: “O homem teve que inventar e criar, a partir de si mesmo, as limitações da percepção e a equanimidade para viver neste planeta. E por isso o cerne da psicodinâmica, a formação do caráter humano, é um dos estudos da autolimitação humana e dos assombros custos desta limitação.” (76)
  • CONTRIBUIÇÕES DE FREUD SEGUNDO MASLOW: “A maior descoberta de Freud, aquela que se acha na raiz da psicodinâmica, é que a grande causa da doença psicológica é o medo do autoconhecimento – do conhecimento de nossas emoções, nossos impulsos, nossas recordações, capacidades, potencialidades, nosso destino. Descobrimos que o temor do autoconhecimento é, com muita freqüência, isomórfico e paralelo ao medo do mundo externo” (76/1)
  • OBS: Sobre o medo do autoconhecimento ver existência própria e imprópria em Heidegger, Ser e Tempo.
  • A CONSTRUÇÃO DA SEGURANÇA: “O indivíduo tem de fazer uma repressão global, de todo o espectro de sua experiência, para ter uma acalentadora sensação de valor interior e segurança básica. Essa sensação de valor e apoio é algo que a natureza dá a cada animal por meio da programação instintiva automática e da pulsação dos processos vitais. Mas o homem, pobre criatura desnuda, tem de construir e obter o seu próprio valor interno e a sua segurança. (...) Com tudo isso e com muito mais que não mencionamos, terá que reprimir o assombro e o temor básicos diante do mundo externo.” (76/4-77)
  • OS DOIS TEMORES DO HOMEM: “Agora sabemos que o animal humano é caracterizado por dois grandes temores dos quais os outros animais estão protegidos: o temor da vida e o temor da morte. Na ciência do homem foi Otto Rank, acima de tudo, quem colocou em evidência, baseando todo o seu sistema de pensamento neles e mostrando o quanto são fundamentais para uma compreenssao do homem. Mais ou menos na mesma época em que Rank escreveu, Heidegger situou esses temores no centro de sua filosofia existencial. Ele alegava que a ansiedade básica do homem é a ansiedade por estar no mundo, bem como a ansiedade de estar no mundo. Isto é, temor da morte e temor da vida, da experiência e da individuação. ” (78/1)
  • O TEMOR DA VIDA: “O homem reluta em enfrentar o peso esmagador de seu mundo, os verdadeiros perigos desse mundo. (...) Como organismo animal, o homem sente em que tipo de planeta foi colocado – o apavorante, demoníaco frenesi no qual a natureza liberou bilhões de apetites de seres orgânicos individuais e todos os tipos. Isso sem falar em terremotos, meteoros e furacoes, que parecem ter seus próprios apetites infernais. (...) A vida pode sugar o indivíduo, solapar suas energias, submergi-lo, tirar-lhe o autocontrole, dar tanta experiência nova com tanta rapidez que ele irá explodir. Pode faze-lo destacar-se entre os outros, emergir em terreno perigoso, jogar-lhe por cima novas responsabilidades que precisam de grande força para serem suportadas, expo-lo a novas contingências, novas chances. A cima de tudo, há o perigo de um escorregão, um acidente, uma doença imprevista e, naturalmente, o perigo da morte, a sucção final, a submersão e a negação totais. (...) Não apenas sua impotência diante da morte, mas sua impotência de ficar sozinha, firmemente enraizada em seus próprios poderes” (78/1-79)
  • A MENTIRA VITAL: “Dissemos  que o estilo de vida de uma pessoa é uma mentira vital, e agora compreendemos melhor o motivo pelo qual dissemos que era vital: ele é uma desonestidade necessária e básica acerca da própria pessoa e de toda a sua situação. (...) Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere à realidade, que não controlamos realmente nossas próprias vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistema de idéias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta. (...) Todos nós somos levados a sobreviver de uma maneira desinteressada, ignorando quais as energias que realmente consumimos e que tipo de mentira criamos a fim de vivermos segura e serenamente.” (80)
  • O ESVAIMENTO DA AUTENTICIDADE: “As defesas que formam o caráter de uma pessoa sustentam uma grande ilusão, e quando percebemos isso podemos compreender aquilo que impulsiona o homem. Ele se deixa levar para longe de si mesmo, do autoconhecimento, da auto-reflexão. (...) Mas também é levado prcisamente para as coisas que o deixam ansioso, como meio de contorná-las com habilidade, de testar a si mesmo contra elas, de controlá-las ao desafiá-las. Como Kierkeggard nos ensinou, a angústia nos induz a prosseguir, incentivando grande parte de nossa atividade energética: namoramos o nosso próprio crescimento, mas também de forma desonesta. (...) Estabelecemos relações simbióticas a fim de obtermos a segurança de que precisamos, o alívio de nossas angústias, nossa solidão e nosso desamparo. Mas essas relações também nos prendem e nos escravizam ainda mais porque sustentam a mentira que criamos. Então lutamos contra elas para sermos livres. A ironia está em que travamos essa luta dentro de nossa própria armadura e com isso aumentamos a nossa impulsão e a ineficiência de nossa luta pela liberdade.” (81/1)
  • NEUROSE E SOFRIMENTO COMO MORTE E RENASCOMENTO: “Neurose é outro termo para descrever uma técnica complicada de evitar sofrimento, mas realidade é sofrimento. (...) A idéia de morte e renascimento estava presente em épocas xamanísticas, no pensamento zen, no pensamento estóico, no Rei Lear de Shakeapeare, bem como no pensamento judaico-cristao e no pensamento existencial moderno.” (82/1)
  • NASCER DE NOVO: “Para o homem, o que significa ‘nascer outra vez’? Significa estar sujeito, pela primeira vez, ao aterrorizante paradoxo da condição humana, já que se tem que nascer não como um deus, mas como homem, ou como um deus-verme, ou um deus que caga. Só que, dessa vez, sem o escudo neurótico que esconde a plena ambigüidade da vida do indivíduo. E por isso sabemos que a cada nascimento autentico é uma verdadeira expulsão do paraíso, como comprovam as vidas de Tolstoi, Péguy e outros.”
  • CRÍTICAS DA PLENA HUMANIDADE: “(...) de que adianta falar de ‘desfrutar a nossa plena humanidade’ – como insiste Maslow, acompanhado de tantos outros – se ‘plena humanidade’significa o desajuste primário em relação ao mundo? A pessoa abre mão de algo restritivo e ilusório [a armadura que cobre a mentira caracteriológica sobre a vida], é verdade, mas apenas para se ver face a face com algo ainda mais horrível: o desespero autêntico. Plena humanidade significa pleno medo e pleno tremor, pelo menos uma parte das horas em que o indivíduo está acordado. Quando você faz com que uma pessoa surja para a vida, longe de suas dependências e de sua segurança automática obtida ao abrigo do poder de outrem, que alegria poderá prometer a ela, portadora do fardo de sua solidão? (...) O que é que o homem comum faria com uma plena consciência do absurdo? (...) Sartre chamou o homem de ‘paixão inútil’, por ser embaraçado de maneira tão irremediável, por estar muito enganado a respeito de sua verdadeira condição. O homem quer ser um deus com equipamento de apenas um animal, e por isso vive de fantasias.(...) A defesa da existência é um jogo sério. Como tira-la das pessoas e deixa-las alegres?” (84-85)
  • COGNIÇÃO DO SER DE MASLOW: “Maslow chama este estado [de passar a ver o mundo em todo o seu assombro e esplendor e sentir a própria expansão interior livre e o milagre do seu ser] de ‘cognição do ser’, a abertura da percepção à verdade do mundo, uma verdade escondida pelas distorções e ilusões neuróticas que protegem o indivíduo de experiências esmagadoras”.

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