quarta-feira, outubro 1

RESENHA: COMO LER O LIVRO DO ECLESIASTES



STORNIOLO, Ivo e BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o Livro do Eclesiastes. Trabalho e Felicidade. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1990.

            O presente texto tem a pretensão de apresentar os pontos mais relevantes da obra supracitada, preservando, também sua estrutura formal de abordagem do tema.
            Por aquilo que os autores denominam O Tempo do Eclesiastes, tem-se a contextualização histórica do conteúdo do texto. Por Coélet, termo hebraico que intitula o livro sacro tem seu significado na expressividade da comunidade ou na quele que reúne esta comunidade para se pronunciar. Este é o sentido que a sapiência de Israel toma: o sábio ou a sabedoria se encontra quando reuni, articula e dá forma si mesma no povo. Mesmo que o livro tem por atribuição a sua confecção por Salomão, no fundo, segundo os autores, é uma crítica ao velho estilo sapiencial salomônico, onde poucos possuíam muito e muito, poucos. Os indícios históricos apontam para o século III a.C, provavelmente nos anos 250 a.C., na qual a Palestina estava sob o julgo do governo Ptolomaico.
         O governo Ptolomaico por ser pequeno em extensão se baseou no aparato ideológico egípcio em que, na identificação do monarca com a divindade, todas as coisas, seja animadas ou não pertenciam a ele. O sistema funcionava de modo a canalizar todo o dinheiro para a capital, Alexandria, dessa forma, o Egito se tornou uma verdadeira máquina de se fazer dinheiro. O Estado judaico, dependente do Egito estava dividido em distritos e quem governava era a família dos sumo sacerdotes que eram famílias hereditárias. Estas famílias estavam profundamente vinculadas ao governo Ptmomaico e possuía um notável status social. O modo violento e exploratório do governo dos Sumo Sacerdotes, principalmente da família dos Tobíadas, provocou uma série e insatisfações na Palestina.
            O primeiro capítulo tem por título: O que a Felicidade não é. Abrindo-o com um conceito ontológico de felicidade: “A vida humana contém uma ânsia de realização e plenitude. Costumamos dar o nome de felicidade à posse dessa realização plena” remete-o a pergunta fundante do livro, se a vida é uma penosa e ofegante “lida diária”, o que resta ao povo? Com tal pergunta os autores percebem que existem várias propostas de felicidade, mas a questão é elas dão conta daquilo que propõem? As propostas estão no nível do conhecer, do prazer, da prosperidade e do trabalho em função do enriquecer. Contudo, segundo os mesmos, nenhuma delas são capazes de responder pela pergunta fundante da vida, i é, a felicidade. E as razões são de duas ordens: a) a fugacidade da vida leva-nos a compreender que a perenidade e a constância não fazem parte da vida e que tais propostas não conseguem anular tal fugacidade; b) as condições sociais de possibilidade de acesso a tais propostas são inviáveis, uma vez que o povo não tem acesso a elas.
            O segundo capitulo é a pergunta pelo local da felicidade. Partindo da realidade da “lascabilidade” do povo, o Eclesiastes tenta mostrar, segundo os autores, qual é a “porção”que lhe cabe da felicidade. Em alguns textos, como este: “A felicidade do homem está em comer e beber, desfrutando o produto do seu trabalho” (Ecle 2,24) pode levar a uma compreensão hedonista do autor sacro, mas não é, de fato, a sua real intenção. Segundo os autores existem três expressões chaves na compreensão do texto: Porção ou Felicidade, Trabalhar e usufruir, e Comer e beber. A primeira tem sua importância, pois, localiza, teologicamente sua reflexão, i. é, fala a partir de quem trabalha não por prazer mas por necessidade, remetendo a este estado de efemeridade e fugacidade da vida do trabalhador. A segunda se refere ao agente teológico, o trabalhador, não por vocação, mas pela necessidade da vida. Por isso a terminologia usufruir tem esta conotação de atender as necessidades. E a última apresenta a fruição imediata do trabalho que é o necessário para a sobrevivência. Nestas três expressões estão a chave de compreensão da felicidade para o Eclesiastes, partindo de uma realidade que muito não tem o que se alternar, i. é, não possui alternativas de trabalho e oportunidades de escolhas, a porção que lhes resta é tentar, a partir de suas necessidades básicas, usufruir o máximo da fonte de seu trabalho.
            No próximo capitulo, os autores põem a pergunta daquilo que impede a felicidade ao povo lascado. Esta pergunta tem por base a pergunta mesma do autor sacro: “Que proveito tira o homem de todo o seu trabalho com que se afadiga debaixo do sol?”(Ecle 1,3; 3,9).  A estas questões os comentadores se utilizam dos argumentos sócio-políticos como forma de sustentar a não-felicidade. Sob o olhar social, tem-se a desigualdade exploratória na qual o povo que trabalha tem pouquíssimas oportunidades de sair de seu atual estado de vida, devido ao sistema político imposto, enquanto aqueles que possuem já seu “lugar ao sol” esbanjam e buscam acumular cada vez mais às custas dos que trabalham. Do ponto de vista político, tem-se a teocracia ideologiica que sustentava toda a ação sistemática de controle e exploração. Em relação ao autor sacro, os comentadores percebem que existem duas formas de se posicionarem intelectualmente: a) a favor dos que sofrem, e b) a favor dos que oprimem. Com esta classificação marxista, o autor sacro é visto como aquele que está ao lado daqueles que sofrem. Em conformidade com o autor sacro de Jó, ele critica a teologia retributiva, bem como a teologia conformista e fatalista. A ironia do autor sacro de Eclesiástico coloca em questão toda sabedoria tradicional bem como os sábios que são pagos para produzir conformidades.
            O quarto capítulo questiona se esta felicidade em quanto direito ontológico, pode ser recuperada e para tanto os comentadores aludem a crucialidade do drama vivido pelo povo do Eclesiástico, ou seja, a felicidade lhes são roubadas, justamente quando a significância e o sentido de se viver se concretizaria com os frutos do trabalho. Pistas para a mudança o autor sacro não deixa, mas a uma deixa que é a partir dos que estão sofrendo que deve vir a reação. Os comentadores percebem que o heroísmo como alternativa de mudança não é a solução mais eficaz. Mas, estes fazem alusão a uma metodologia do Não: dizer Não ao sistema econômico explorador, Não ao regime político opressor, Não à ideologia do dominador, Não à religião alienante. Mas para tanto é necessário haver a solidariedade para construir a nova partilha, mediante a consciência de classe.
            O último capítulo se refere ao dado teológico de que Deus quer a felicidade de seu povo. A crítica do autor sacro, no fundo está enraizada numa concepção de fé de que Deus não quer esta situação. Neste sentido, a relação com Deus passa pelo Temor. Por temor, o autor sacro, se baseando na concepção deuteronomista, quer dizer: “Deus é Deus e que o homem não é Deus”. Isto é uma consciência de que, nenhum homem pode se colocar como ou acima de Deus, como a ideologia dominante faz. Outro sentido do temor está no aspecto da finitude humana frente as obras de Deus. Somente Deus tem a totalidade sobre a criação, mesmo que o homem viva imerso nesta totalidade sua experiência é parcial, pontual e limitada. Surge, neste contexto a intuição: “Deus busca aquilo que foge”(Ecle 3,15) Aquilo “que foge”é sem dúvida o presente, pois é nele que se sucumbi a exploração. Neste sentido Deus busca este momento como modo de se anunciar presente. Este modo de entender Deus evita saudosismos e fatalismos fazendo a libertação acontecer no momento atual, pois é neste momento que Deus está.
            Deus, em seu eterno presente manifesta seu dom ao seu povo. E este conceito é caro para o autor sacro. Contudo, há, no processo de produção uma efetiva ação de furto deste dom. Este roubo, acontecia, uma vez que, a exploração se dava por povos estrangeiros. Outros deuses intervinham na graça de Javé e as conseqüências desta intervenção era a exploração que gerava miséria. Contudo, não estava tudo perdido, o caminha de volta a Javé está na solidariedade e na união.      
         

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