sexta-feira, novembro 7

HUMANISMO: CRÍTICAS E APROXIMAÇÕES A PARTIR DA CARTA AO HUMANISMO DE HEIDEGGER

Na verdade, gostaria de começar dizendo que essa minha fala é mais um “pró-vocação”, ao estilo de Sócrates, do que propriamente uma “co-municação”. Isso porque, na contramão do próprio espírito do Congresso, quero abrir, juntamente com Heidegger, algumas reflexões propriamente filosóficas a respeito de sua própria motivação.

Em outras palavras, quero perguntar: sabemos realmente do que se trata quando falamos Direitos Humanos? Quem é este a qual dizemos que têm direitos?

E mais, o que o Humanismo – e entende-se Humanismo como todo e qualquer movimento de defesa do Humano do homem – tem contribuído para que se compreenda quem é o homem? Nesse sentido, quero dividir minha fala em três momentos: Constatação do problema, Justificativas do problema e Indicativos e Perspectivas. Tomarei como base o famoso texto de Heidegger A carta sobre o humanismo de 1946.

Constatação do Problema

Quando falamos de direitos humanos, estamos na verdade atribuindo dignidade suficiente a um ente a qual, em seu ser, acreditamos possuir o caráter de humano. Em outras palavras, estamos dizendo que existe algo capaz de receber o título de Humano e que, ao mesmo tempo, possa ser defendido, em termos de direitos. A garantia de que existe tal coisa que recebe o título de humano é a bandeira do movimento Humanista. Portanto, quando falamos de “Direitos Humanos”, imediatamente falamos de Humanismo. Ao falar de Humanismo, enquanto esse movimento da defesa do Humano do homem, acreditamos encontrar nele uma resposta sobre a essência humana. Mas quando olhado mais de perto, observamos que o lugar que menos se encontra alguma alternativa segura para o Humano do homem é no Humanismo. Isso porque, segundo seu próprio movimento histórico, o Humanismo se serviu de diversas orientações teóricas que pretenderam esgotar a compreensão humana. A título de exemplo, vale lembrar a famosa obra do humanista platônico renascentista Pico Della Mirandola, Discurso sobre a Dignidade do homem, as grandes reflexões de Kant na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, e o texto de Sartre O Existencialismo é um Humanismo. Entretanto, a pergunta que cabe é: que conceito de homem podemos tirar dessa obras? Nesse sentido, cabe dizer que não existe propriamente um Humanismo, mas sim “Humanismos”, e que neles encontramos várias respostas para a pergunta pela essência humana.

Nesse sentido vale questionar: o que significa dizer que uma coisa é humana? Em termos ontológicos, em que medida o Ser de um ente pode ser tomado por Humano? Essa pergunta ainda se justifica, como foi mostrado, pelo simples fato de que as teorias sobre o Humano do homem, ou seja, pela determinação da essência do homem são tão numerosas quantos os seus problemas. Ao que parece, o movimento Humanista prestou mais um desserviço do que seu contrário. Essa, por sua vez, é a posição de Heidegger em seu texto Carta sobre o Humanismo a qual merece alguns comentários.

Justificativas do Problema

Segundo Heidegger, o humanismo possui dois problemas de ordem fundamental. O primeiro problema está na base de uma compreensão mais “política”, se é que assim podemos dizer. Esse problema político, que não é o mais importante na leitura heideggeriana, diz respeito ao fato de que o Humanismo faz o jogo do “mercado da opinião pública”, ou seja, o Humanismo estaria comprometido com o discurso dos grandes clichês. Na onda dos grandes clichês e dos discursos vazios, à exemplo da ideia de que “só uma ética pode nos salvar”, o Humanismo denota uma perspectiva epocal de decadência do discurso e mais, uma decadência do próprio pensar. É interessante pensar nisso – e aqui faço um parêntese – pois, em um tempo como o nosso, em que há uma intensa busca pela popularização maciça da própria filosofia, essa busca, ao que parece, nada aponta para uma maior conscientização e ou intelectualização das massas. Pelo contrário, quanto mais popular fica a filosofia, mais se deprecia o conhecimento e sua capacidade de pensar e refletir as questões que não estão na ordem do dia. O que Heidegger sugere, então, é que um momento histórico que necessita enfatizar os “rótulos” das grandes questões, muito mais do que elas mesmas, demonstra mais a falência e o desgaste dessas do que propriamente um reforço racionalmente necessário; haja vista que os gregos não precisaram de títulos como os de “Filosofia” para pensar. O Humanismo, para Heidegger, não passaria de um grande “rótulo” sob a pretensa ideia definir e defender o ser humano, que mais serve às massas e às mídias do que propriamente um serviço filosófico ao homem.

Contudo, esse não é o principal motivo pelo qual Heidegger tece críticas ao Humanismo. O segundo motivo pelo qual o filósofo rejeita o Humanismo está assentado na discussão filosófica do que se compreende por Humano do homem. Segundo Heidegger, apesar de ele reconhecer que não existe um padrão esquemático para as diversas definições de homem das diversas propostas humanistas, há sim uma tese geral que conduziu todos os humanistas, culminando, é claro, na Declaração Universal dos Direitos Humanos; essa tese é de que a Humanidade do Homem, ou seja, de que a relação entre Ser e Humano do homem, tem por essência a ideia de animal racional. Entender que o Ser do homem é animal racional é abrir, no mínimo dois problemas. A primeira ordem de problemas está na ideia biologizante do homem como animal. Além do achatamento reducionista a uma única esfera, se a ideia do Humanismo é entender e defender o Humano do homem, vê-lo sob a prerrogativa da Animalidade em nada contribui para esse propósito, pelo contrário o afasta, na medida em que não faz duas distinções basilares: não determina em que medida o humano se diferencia do não humano, nem se reflete em que grau uma racionalidade se relaciona a uma animalidade de modo específico a engendrar o Humano do homem. A segunda ordem de problemas está no fato de que entender a racionalidade como diferença específica do gênero Animalia também não resolveria o problema. Heidegger lembra muito bem que não há um único modelo de razão que deve ser pensado em conjunto com a animalidade. Que razão determinaria o Humano do ser humano? Ademais, vai alertar o filósofo em textos posteriores, as últimas expressões da racionalidade em seu desenvolvimento técnico-instrumental interpuseram entre o homem e o real uma separação radical. A racionalidade técnica, vista não a partir de instrumentos técnicos, mas como mediações ontológicas para o acesso ao real, reconfigurou o próprio modo de ser do homem. A manifestação da racionalidade técnica que transforma os meios em entes enquanto fins em si mesmo é concomitantemente a essência da técnica e o fim do ideia humanista que via o homem como fim em si mesmo, tal como já postulava Kant.

Desse modo, no entender de Heidegger, o Humanismo que, em tese geral, sustentou uma relação entre Ser e Humano do homem a partir da ideia de animal racional, foi quem mais contribuiu para a desumanização do humano, na medida em que privilegiou um modo de compreender o humano ao invés de por em questão a relação originária entre o Ser e o Humano do homem. Esse modo privilegiado de compreender o Humano do homem se centrou na busca da essência do homem, ou seja, na busca de um ente que fizesse o papel de humano. Esse modo de proceder, de acordo com Heidegger, retirou do Humanismo a oportunidade de compreender o verdadeiro significado do Homem resultando, ao invés disso, em uma desumanização por meio do achatamento ontológico, i. é, a redução do Humano às coisas simplesmente dadas. Essa é, portanto, a tese ontológica que Heidegger sustenta contra o humanismo: no humanismo a reflexão sobre o Ser e sua relação como o Humano do homem é substituída pela redução do Humano às coisas dadas. Que implicações teriam tal redução? Tal como foi falado, a redução do homem às coisas, a reificação na linguagem de Marx, permitiu que a essência da técnica tornasse manifesto. A racionalidade técnico-instrumental torna pleno o estágio de desumanização do humano à medida que oculta o modo de ser do homem e de suas relações. A compreensão do homem, na manifestação da essência da técnica, passa necessariamente por uma mediação, ou seja, para se compreender a essência do homem é necessário primeiramente compreender a mediação que permite o homem se manifestar, seja ela qual for. O Ser do homem, o Humano do homem fica condicionado às mediações de acesso ao real. É nesse sentido que o Humanismo é responsável pelas catástrofes contra o humano, pois declara-se direitos a um ente que não sabemos o que realmente é. A negação da pergunta pelo Ser do homem e como esse ser se relaciona com o Humano e sua substituição por um ente desencadeou um processo que pode não ter mais volta. Heidegger não se mostra muito otimista com a “era da técnica” e seus propósitos de superação da metafísica, a partir das leituras de Nietzsche, passa também pela superação do humanismo. Contudo, quanto a essas questões não me delongarei aqui.

Indicativos e Perspectivas

Não quero terminar essa fala com um tom apocalíptico, nem muito menos dar uma receita de como fazer o “bolo do homem”. Apenas quero, a partir de indicativos da perspectiva teórica de Heidegger, suscitar algumas questões práticas. Heidegger reforça em seu texto A carta sobre o Humanismo não uma definição de homem, mas um solo possível a partir do qual se pode falar do ser do homem. O filósofo, para tanto, recorre à metáfora da “clareira”. A clareira é um “espaço” de abertura que não é aberto por ninguém. Assim, pensar a clareira é pensar o homem sem mediações. A abertura circunscrita pela clareira não precisa de mediações, pois ela é inerentemente aberta, assim também é o homem, é um aberto. Nessa perspectiva, Heidegger convida a repensar o homem a partir sua própria condição de possibilidade de relações. Se o homem é inerentemente aberto, o que o torna fechado? As mediações são os principais motivos do fechamento do homem, pois as mediações ocultam a abertura da clareira a partir dos entes. Essa abertura é que permite ao homem ser o que sempre ele foi um “ser-em” e não uma substância que estanca o em do ser. Não obstante a essa clareira que é o homem, é importante lembrar, diz o filósofo, que o fato de o homem “encobrir” a sua clareira com alguma coisa não é culpa de alguém em específico, mas faz parte da própria compreensão da clareira. É natural o homem se identificar com aquilo que ele não é. Neste ponto é que entra a culpa do Humanismo: não levantar a questão do encobrimento da clareira. Será que, ao invés de criarmos “direitos” para os humanos, não refletirmos quem somos nós, os resultados não seriam outros? Quem garante que os direitos humanos não são mais uma forma de encobrir a pergunta pelo homem do que uma contribuição para o mesmo? Talvez, se nesse Congresso nos propuséssemos a pensar o homem não precisássemos mais de Congressos dos Diretos Humanos....      


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