domingo, fevereiro 22

COMENTÁRIOS AO TEXTO “CONSTITUIÇÃO DE SENTIDO E JUSTIFICAÇÃO DE VALIDEZ” DE KARL OTTO APEL (parte 01)


1)  Introdução ao problema: A desconstrução da filosofia (transcendental) é uma consequência necessária, condicionada pela ideia de tempo, na posição de Heidegger?

Apel (1997, p.11) se pergunta qual a força e o interesse atual da filosofia de Heidegger e a sua percepção o leva a crer que ela passa pela:
“... la pretensíon de uma superacíon (Überwindung) qua ‘torsíon’ (Verwindung) del esquematismo onto-lógico que, desde Platão, há debido predisponer al pensar occidental para el ‘Gestell’ de la ciência técnica en el sentido de la relacíon sujeto-objeto del hacer disponible el mundo”. Em outras palavras:
[...] reconstruccíon y destruccíon críticas de todas las formas usuales del pensar de la metafísica y la ciencia, retroceder pensando tras los inicios de la filosofia clásica de los griegos y, así, em cierta medida, reconquistar el espacio de juego – aún existente en el mito y, posiblemente, en los pensadores presocráricos – de un ‘pensar inicial’: un espacio de juego que, al mismo tiempo, podría establecer, para un pensar postmetafísico y postécnico, los presupuestos conformes a la historia del ser, con tal de que estén a la vez decididos como posibilidad en el inmemorial ‘acaecimiento apropriador’ del ‘despejamiento del ser’.” (APEL, 1997, p.12)

Esse interesse, no entanto, ocorre “Especialmente la referencia insinuada en último lugar a un pensar postmetafísico, incluso post-filosófico y, en esa medida, también postradicional (si bien – según Heidegger – no irracional) es lo que ha provocado, em mi opiníon, la más grande fascinacíon en las últimas décadas...” (APEL, 1997, p.12). Apel recorda, ainda, que esse interesse não está desvinculado a um “giro hermenêutico-linguístico, ou semiótico e pragmático” da própria filosofia que pode ser convergido sob três aspectos: [1] convergência entre a hermenêutica do Dasein orientada pelo “público estado de interpretado” da cotidianidade do “ser-no-mundo” e a versão de Ryle da “ordinária linguagem filosófica”, bem como a filosofia tardia de Wittgenstein dos jogos de linguagem e as formas da vida; [2] convergência entre a hermenêutica filosófica de Heidegger e de Gadamer e a teoria “pos-empirista” da ciência de Thomas Kuhn e outros representantes da “Nova Filosofia da Ciência”; [3] convergência com o pós-modernismo e neo-pragmatismo de Rorty na disjunção retórico-estética do discurso filosófico frente ao discurso argumentativo da ciência.   
Frente a esses interesses, Apel (1997, p.13) se pergunta: “en qué, es decir, en qué formas del pensar de la filosofía de Heidegger pueden apoyarse las actualizaciones de la historia efectual heideggeriana antes insinuadas”. E para responder a essa questão, ele elabora uma tese:

“... la fascinacíon y la amplia recepcíon de su pensamiento en el post-modernismo franco-italiano y el neopragmatismo post-wittgensteiniano del oeste se deben ante todo a la des-transcendentalizacíon e historizacíon tendenciales del problema cuasitranscendental de la constituicíon de sentido propia del mundo de la vida” (APEL, 1997, p.13).

              Esta característica, que tanto chamou a atenção do pensamento pós-moderno, já estava implícita em Heidegger na concepção de verdade como ‘a-letheia’, ou ainda como “despejamiento” de sentido (Sinn-“Lichtung”) que precede a toda correção e falsidade judicativa. Tal concepção ocorre em Ser e Tempo quando Heidegger, ao analisar hermenêutico-existenciariamente a “pré-estrutura” de todo compreender o mundo do “em cada caso já”, o “sempre já” da “abertura” do ser-no-mundo. Contudo, de que modo a pré-estrutura do “em cada já” da “abertura” do “ser-no-mundo”, entendida por Apel como “quase-transcendental”, reflete essa “des-transcendentalização” em sentido de uma “historização”? Em primeiro lugar, Apel (1997, p.14) entende que essa pré-estrutura apontava para uma “transformacíon fenomenológico-hermenéutica de la filosofia transcendental” no sentido de que essa transformação “ampliava” e abria uma “nova contestação” na “pergunta pelas condições de possibilidade do compreender o mundo” e, nessa medida, na própria “constituição de sentido do mundo” (Welt-Sinn-konstitution).
              Por outro lado, após incluir reflexões sobre a Kehre, Apel (1997) percebeu que era necessário reconsiderar que a “reconstrução e a nova contestação” – sugeridas por Heidegger em Ser e Tempo, mas, de modo especial, em Kant e o problema da Metafísica – da pergunta de Kant pelas condições ontológico-fundamentais de possibilidade da metafísica afetava, desde sua origem, a um aspecto das condições transcendentais da verdade, ou seja, somente a uma “metade” do objetivo kantiano. Afirma Apel (1997, p.14-15),   
A Heidegger le interesó siempre, ciertamente, sólo la constituicíon de sentido del ser iluminadora-ocultadora, posibilitada en el ‘ahí’ de la ‘ec-sistencia’ humana. De ella há dicho en último término que, ciertamente, no es todavia la verdad, sino la condicíon de posibilidad de los juicios verdaderos (esto es, correctos) y falsos. También este planteamiento de la cuestión puede, em verdad, ser todavia entendido como reconstruccíon de la pregunta transcendental kantiana, porque tampouco Kant há perguntado inmediatamente por las condiciones de posibilidad de los juicios verdaderos y falsos, sino por las condiciones de posibilidad de la ‘objetividad’, que para Kant es la única que hace posible el conocimiento especifico de la verdad.

O que Apel percebe é que, para Kant, a pergunta – e a própria possibilidade de contestação da mesma – pelas condições de possibilidade da constituição do objeto, ou seja, da “constituição do sentido da objetividade” era idêntica à pergunta pelas condições de possibilidade da “validez intersubjetiva do conhecimento verdadeiro”. Essa identificação, por outro lado, não se sustenta em Heidegger, já que em Ser e Tempo ele leva sua reflexão, de modo irrepreensível, do “projecto” do ser-no-mundo “em cada caso já” aberto na direção de um “fazer contingente particularizado” radicalmente histórico. À medida que a resposta pelas condições de possibilidade da constituição de sentido contesta a pergunta pela validez intersubjetiva, a verdade judicativa depende, “sempre já”, do “despejamiento” e ocultamento precedente do sentido do ente.
Em suma, conclui Apel(1997, p.15):
la transformacíon de la filosofia transcendental introducida a través de Heidegger debe conducir, como parece, a la ‘des-transcendentalizacíon’ de la filosofia postulada por Rorty – o debería ser posible y necesario poner de outra forma en relacíon la pregunta (y la posible contestacíon a la pregunta) por la validez intersubjetiva de nuestro comprender el mundo com la pregunta por la constituicíon de sentido del mundo, esto es, de forma que la contestacíon a la primera pregunta deba conduzir ya, como justificacíon de su propia validez, a una re-transcendentalizacíon de la filosofia, y de manera que la insistência en la validez universal de los juicios verdaderos sea conciliable com la historicidad de toda constitucíon de sentido iluminadora-ocultadora?

Apel pergunta se a reflexão heideggeriana a respeito da filosofia transcendental – a despeito da validez intersubjetiva universal absoluta admitida por Kant e sua dependência do despejamiento e ocultamento precedente do sentido do ente – deve ser assumido como uma mera des-transcendentalização da filosofia (tal como pensa Rorty) ou se a própria dúvida pela validade intersubjetiva do nosso compreender do mundo, a partir da constituição de sentido, já não deva ser assumido como uma re-transcendentalização da filosofia a fim de conciliar validade universal e historicidade de constituição de sentido. Apel tende a ver que o posicionamento de Heidegger não leva a uma conclusão necessariamente de desconstrução, mas de uma re-transcendentalização a partir do problema da perspectiva da transformação da filosofia transcendental.

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