segunda-feira, fevereiro 23

COMENTÁRIOS AO TEXTO “CONSTITUIÇÃO DE SENTIDO E JUSTIFICAÇÃO DE VALIDEZ” DE KARL OTTO APEL (parte 02)


2. A contribuição de Heidegger a uma transformação da filosofia transcendental que desemboca finalmente em uma destruição

A) A “pré-estrutura” da abertura do ser-em-cada-caso-já-em-um-mundo como resposta à pergunta transcendental pelas condições de possibilidade da constituição de sentido do mundo

Afirma Apel (1997, p.16):
Uma consciência pura (isso significa, em sentido kantiano, uma consciência transcendental que está fornecida de faculdades como ‘intuição pura’ e ‘entendimento puro’, ou também uma consciência intencional pura no sentido de Husserl) não poderia ganhar do mundo em geral significação alguma; não poderia constituir mundo da vida algum como mundo de conexões significativas.

              Apel sinaliza que a filosofia transcendental clássica é insuficiente em seus fundamentos, sobretudo no sentido postulado por Husserl da “constituição transcendental de sentido”. Assim, ao menos na perspectiva apeliana, parece que essa possibilidade de constituição do sentido do mundo pode ser visualizada na “pré-estrutura” do ser-no-mundo analisada por Heidegger, na medida em que ela é vista como a priori, de uma “transformada filosofia transcendental”. A partir de um ponto de vista, Apel (1997, p.17) sustenta que “a análise heideggeriana mostra que a relação sujeito-objeto da consciência científica do objeto está sempre já embutida na conexão estrutural do ser-no-mundo”, pois o ente intramundano não é “presente” originariamente como um “objeto da observação” científica, assim como a determinação predicativa é “sempre já” antepredicativamente compreendida como “algo”. Desse modo, o mundo não é um agregado de objetos presentes, nem tampouco – tal como para Kant – “a existência das coisas que configuram uma conexão conforme a lei” (KANT apud APEL, 1997, p.17); mas, conforme Heidegger, “aquele-dentro-do-qual (Worin) do compreender referindo-se, enquanto aquilo-sobre-o-fundo-do-qual (Woraunfhin) do permitir que hajam frente a entes na forma de ser da conformidade” (HEIDEGGER, 1941, p.86 apud APEL, 1997, p.17).    
              Na esteira do conceito de Heidegger de mundo, as perguntas “gnoseológicas-críticas” oriundas da reflexão transcendental, a saber: da objetividade do ente – a qual supõe a pergunta pela existência dos entes e sua inteligibilidade – tornam-se “problemas aparentes”, “porque as formas do ser-no-mundo aqui supostas [...] podem ser compreendidas por nós só como ‘modos deficientes’ do ser-no-mundo como ser cabe os entes e ser-com os outros em geral” (APEL, 1997, p.17). As conclusões a que chega Heidegger são também compartilhadas pela análise pós-wittgensteiniana, em especial a análise do “entretecimento” dos jogos de linguagem, a interpretação do mundo e as atividades como componentes de uma forma de vida. Essas conclusões, afirma Apel (1997), comungam que tais problemas do conhecimento são frutos da dependência “parasitária” dos paradigmas idealistas da consciência e solipsistas da certeza cartesiana.
Desse modo, exemplifica Apel (1997) que tanto o famoso argumento cartesiano da existência dos objetos independentes à consciência – sendo produtos de seu sonho – quanto o “escândalo” da filosofia, exposto por Kant, da carência de uma justificação da existência do mundo externo são refutados respectivamente por Wittgenstein e Heidegger. Apel (1997, p.18) lembra que “a dependência parasitária do sentido da frase ‘tudo o que vale como real é, talvez, meramente meu sonho’” é provada “com respeito ao jogo de linguagem paradigmático da diferença essencial entre o mundo externo e aquilo que é ‘meramente meu sonho’”; bem como a refutação de Heidegger ao argumento kantiano que afirma ser escandaloso não o fato da carência de uma prova do mundo externo, mas a própria exigência de tal prova. Deste modo, reafirma Apel
A reflexão fenomenológico-hermenêutica sobre o ser-em-cada-caso-já-no-mundo evidencia sua prioridade com respeito à reflexão pós-cartesiana sobre a consciência do objeto no mesmo sentido em que também a análise pragmaticamente orientada dos jogos de linguagem da ‘linguagem ordinária’, entretecidos com a práxis da vida, se evidencia como pressuposto dos jogos lingüísticos, também, por exemplo, das linguagens artificiais da lógica da ciência (1997, p.18)

Com respeito a essa conclusão, Apel (1997) declara que alcançou o “ponto central” da abertura heideggeriana daquilo que Husserl posteriormente chamou de “mundo da vida” e de sua relação de fundamentação com aquilo que as ciências abstratamente denominam mundo. Isso porque, prossegue o filósofo, a análise de Heidegger do ser-em-cada-caso-já-no-mundo, que não parte mais de ma autoreflexão da consciência do objeto, senão de da pré-estrutura da consciência do objeto, é registrada por “evidências” que conduzem à colocação em liberdade de elementos necessários de um “a priori quase-transcendental da constituição do sentido do mundo”. Portanto, em consonância com a reflexão feita por Apel (1997) a respeito do pré-reflexivo “estado de yecto” do Dasein em um mundo que é sempre já “publicamente interpretado” é adequado uma relação entre fenomenologia do mundo da vida e a análise dos jogos de linguagem. Nesse ponto, pondera o filósofo, está a correspondência entre a análise do “estado de yecto” com a descoberta, já implícitos e renovados por John Searle, dos pressupostos do “transfundo” da compreensão normal da linguagem em Wittgenstein.
Não obstante à subsunção da relação sujeito-objeto da consciência objetiva científica e filosófica no mundo da vida, Apel (1997, p.19) nota que não é totalmente claro o alcance do “em cada caso já” da pré-estrutura do ser-no-mundo, porque essa alusão à subsunção em cada caso já presuposta “poderia ser entendida também no sentido puramente estático-sistemático de um pressuposto necessário” e se “poderia falar baseando-se nesta compreensão de um aprofundamento da problemática filosófico-transcendental da constituição de sentido”. Caso assim seja, prossegue Apel (1997), a dimensão da temporalidade existenciária, indicada por Heidegger mediante o “em-cada-caso-já” da “pré-estrutura” do ser-no-mundo, não deveria ser considerada. Porém, o Dasein pensado por Heidegger não depende de sua “pré-estrutura” apenas como um “pressuposto” em sentido lógico-transcendental, senão que o “pré” é “em cada caso já” temporalmente. Nesse sentido, acresce Apel (1997), a análise da estrutura da temporalidade do ser-em-cada-caso-já-nesse-mundo levada a cabo na última parte de Ser e Tempo põe em manifesto a “historicidade” finita do Dasein e de sua possível compreensão. Aqui nesse ponto, estão, na opinião do filósofo, os “efeitos mais radicais da filosofia heideggeriana”: “aqueles efeitos que, precisamente como evidências dos pressupostos quase-transcendentais da constituição de sentido do mundo, mais têm contribuído para a des-transcendentalização tendencial da filosofia do presente” (APEL, 1997, p.20).
Para Heidegger (apud Apel, 1997, p.20):
A pré-estrutura temporal e historicamente condicionada de todo compreender – tanto na vida cotidiana como também na ciência – pertence a uma “pré-compreensão” do mundo que é também sempre já linguisticamente articulada no sentido do “público estado de interpretado” do mundo do Dasein.

              Esse modo de compreender o “em cada caso já” – i. é, como uma pré-estrutura articulada com uma “pré-compreensão” do mundo já interpretada publicamente – do ser-no-mundo o clarifica de tal modo que distingue a fenomenologia “hermenêutica” de Heidegger da fenomenologia da evidência de Husserl de orientação “óptico-pré-linguística”; bem como torna possível a convergência entre fenomenologia hermenêutica com o desenvolvimento pós-wittgensteiniano da filosofia analítica da linguagem. (Apel, 1997). De modo semelhante a hermenêutica filosófica de Gadamer, a partir de sua “reabilitação dos preconceitos” e da retomada da necessidade aristotélica de pressupor já no discurso um “acordo” com o destinatário da elocução sobre o “aceitável por todos, a maioria ou os sábios, ou uma plausibilidade, também contribui para a convergência no sentido hermenêutico-pragmático da filosofia ocidental.
              Destarte, questiona Apel (1997, p.21):
Em que medida há ainda algo que ver as evidencias esboçadas da temporalidade e historicidade da “pré-estrutura” do ser-no-mundo com a possível reconstrução e transformação da filosofia transcendental? Com esta pergunta se expõe a dimensão propriamente “digna de questionar-se” e “discutível” de nosso tema.

Em primeiro lugar, Apel (1997, p.21) entende que as condições de possibilidade do compreender o mundo que estão caracterizadas pela pré-estrutura do “em cada caso já” têm sido posta em conexão e discutidas como “pergunta pelas condições transcendentais de possibilidade do compreender ou do falar” e isso tanto no caso da fenomenologia hermenêutica (Heidegger-Gadamer) quanto da filosofia anglo-saxônica. Do ponto de vista da filosofia anglo-saxônica, Apel (1997) nota que o “em cada caso já” pressuposto no “compreender a fala” é enfrentado sobre o título de “pressuposições necessárias” por Peter Strawson e a discussão dos argumentos transcendentais de um lado, e por outro na discussão das “pressuposições (metafísicas)” de Collingwood, que faz um contraponto à problemática heideggeriana da “pré-estrutura do compreender” no sentido da historicidade.
Aqui, escreve Apel (1997, p.22) que
[...] pela primeira vez – como no último Heidegger – a ideia dos pressupostos transcendentais, ou melhor, metafísicos, facticamente insuperáveis do poder pensar, é pensada em relação com a ideia do condicionamento histórico-epocal desses mesmos pressupostos, e, nesse sentido, resulta relativizada em sua pretensão de validez universal. Ademais aparece também, pela primeira vez, evidentemente, o problema carregado de paradoxos de como era ou deve ser possível a filosofia conceber, por assim dizer, por cima da história dos pressupostos metafísicos do pensar, respectivamente insuperáveis, a ideia dessa história (que, evidentemente, aparece com pretensão universal de validez) – e certamente de modo que essa verdade de reflexão não deva modificar nada na confirmação da insuperabilidade das pressuposições metafísicas historicamente condicionadas do pensar.


              Porém ainda não é claro a relação entre a pré-estrutura da compreensão do ser-no-mundo, enquanto abertura do mundo pressuposta no em cada caso já com a problemática da filosofia transcendental.         

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