sábado, abril 25

COMENTÁRIOS INTRODUTÓRIOS AO AFORISMO I DO TEXTO A SUPERAÇÃO DA METAFÍSICA DE HEIDEGGER


De volta ao início do Aforismo I, quando Heidegger se pergunta: “O que se pode dizer por Superação da Metafísica?”[1], sua resposta é: “Im seinsgeschichtlichen Denken ist dieser Titel nur behelfsmäßig gebraucht, damit es sich überhaupt verständlich machen kann” (no pensar histórico do ser esse título é apenas provisório, a fim de que ele possa tornar-se compreensível de modo geral). Já foi refletido de modo suficiente sobre o seinsgeschichtlichen Denken, e visto que a Überwindung der Metaphysik é compreendida dentro dessa tese heideggeriana.

Há um porém: na perspectiva do seinsgeschichtlichen Denken, Überwindung é um título “behelfsmäßig” (provisório/temporário) usado apenas com fins “propedêuticos” (überhaupt verständlich). Isso quer dizer que a Überwindung, em princípio, não é um fim em si mesmo, mas apenas um título que serve de apoio. A que se deve essa provisoriedade desse título? Responde Heidegger: “In Wahrheit gibt dieser Titel zu vielen Missverständinissen Anlass“ (na verdade esse título é causa de más-compreensões), é um título que causa problemas de compreensão. E por essa mesma razão – de sua ambiguidade semântica – é que “er lässt die Erfahrung nicht auf den Grund kommen” (ele não deixa a experiência vir ao fundo). O título “Überwindung” impede a “Erfahrung”, no sentido de que essa última não chega aos fundamentos, pois, para que se compreenda a Erfahrung, é necessário que a Überwindung seja lida à luz de sua essência, “von dem aus erst die Geschichte des Seins ihr Wesen offenbart“, do qual apenas a história do ser revela sua essência. Explicando de outro modo, os problemas causados pelo título Überwindung, e que de algum modo justificam sua provisoriedade, só ocorrem quando não se leva em consideração a sua essência, que é revelada pela história do ser.
              Essa essência revelada pela história do ser e que permite que Erfahrung da Überwindung alcance seus fundamentos é “das Er-eignis, in dem das Sein selbst verwunden wird”, o Er-eignis, em que se toca o ser mesmo. Portanto, a Erfahrung da Überwindung, à luz do Er-eignis, em nada tem que ver com “Wegdrängen einer Disziplin aus dem Gesichtskreis der philosophischen Bildung”, retirar do caminho uma disciplina do horizonte da formação filosófica. Explicando, Überwindung não é eliminar no sentido de fazer com que uma coisa deixe de existir, mas é, no caso da metafísica, ir de encontro ao ser mesmo, ou seja, deixar de utilizar a mediação metafísica para dizer do ser mesmo. Mas por que uma Überwindung em termos de um Er-eignis seria necessária para a metafísica? A que questões a metafísica foi acometida a ponto de, agora, ter de passar por essa ErfahrungResponde Heidegger: “»Metaphysik« ist schon als Geschick der Wahrheit des Seienden gedacht, d.h. der Seiendheit, als einer noch verborgenen, aber ausgezeichneten Ereignung, nämlich der Vergessenheit des Seins“, metafísica enquanto o envio da verdade do ente, i. é, da entidade já é pensada como um ainda oculto, mas notável Ereignung, que é o esquecimento do ser. Segundo Heidegger, a metafísica – já pressuposta como história do ser, i. é, o envio da verdade do ser – deve ser pensada como Vergessenheit des Seins (esquecimento do ser), ou seja, a metafísica em sua essência (als Geschick der Wahrheit des Seienden), mesmo sem saber, produziu o esquecimento do ser. Pensar assim a metafísica, como Vergessenheit des Seins, indica que a sua Überwindung deve ser julgada como um Gernächte der Philosophie, um ostracismo da filosofia, i. é, não é algo próprio da filosofia e, portanto, a Überwindung pode ser identificada com um título mais adequado: Die Vergangenheit der Metaphysik, o passado da metafísica. A questão de Heidegger é que a Überwindung, não sendo uma ação própria da filosofia, pertenceria à própria essência da metafísica enquanto conseqüência de seu envio histórico. A Überwindung poderia ser também compreendida como o título de Vergangenheit der Metaphysik, passado da metafísica, como aquilo que a metafísica já produziu e efetivou-se não podendo mais sê-lo. Superar, em tese, seria mostrar o seu limite histórico.
              Todavia, dizer que a Überwindung pode ser traduzida por Vergangenheit der Metaphysik em nada contribui para os possíveis equívocos, reconhece Heidegger, pois Vergangenheit quer dizer, no dizeres do filósofo, "Ver-gehen und Aufgehen in die Gewesenheit”, passar e abrir-se ao ter-sido. Ao contrário do que parece passar não é encerrar, mas "daß jetzt erst die Metaphysik ihre unbedingte Herrschaft im Seienden selbst und als dieses in der wahrheitslosen Gestalt des Wirklichen und der Gegenstände antritt“, só agora a metafísica toma posse de seu absoluto domínio sobre ente mesmo e, como tal, na forma desvinculada de verdade do real e dos objetos. Em outras palavras, identificar Überwindung com Vergangenheit não se resolve o problema da compreensão essencial de Überwindung, já que a ideia de Vergangenheit, na análise heideggeriana, reforça  ainda mais aquilo que a metafísica tem de essencial: o domínio absoluto dos entes. Por outro lado, justamente pelo sentido de “começo” que a Überwindung pode assumir, é que o título Vergangenheit pode fazer sentido, pois a "die Metaphysik zugleich vergangen in dem Sinne, daß sie in ihre Ver-endung eingegangen ist”, a metafísica é ao mesmo tempo passado no sentido que ela se dá em seu acabamento. E finalizando, Heidegger conclui que a Überwindung, caso entendida como Verendung "dauert länger als die bisherige Geschichte der Metaphysik“, dura mais do que a presente História da Metafísica.

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              O Aforismo I é uma discussão sobre a necessidade de se utilizar um termo adequado para falar da essência da metafísica. Primeiramente, Heidegger compreende que o termo “superação” (Überwindung) não é o mais adequado, pois, além de provocar mal-entendidos, ele não deve ser entendido fora do contexto da experiência da história do ser. Nesse sentido, a experiência do Ereignis é a compreensão que permite visualizar a essência da “superação”, pois ela visa o ser mesmo. Ao mesmo tempo ele permite entender a ideia de superação não está ligada à de eliminação, pelo contrário, está ligada com a ideia de evidenciar a verdadeira essência da metafísica. Essa, por sua vez, se revela à luz da história do ser e da experiência do Ereigung como a história do esquecimento do ser. Com efeito, o termo superação não contribuiria muito para fazer aparecer esse sentido da metafísica, já que ela – a superação – não depende da filosofia, mas da própria essência da metafísica. Sendo assim, uma outra forma de falar da essência da metafísica seria usando o termo: “passado da metafísica”, o que não resolveria por completo todos os problemas de mal-entendidos. Porém, há um traço nesse termo que seria muito útil: a ideia de que passado remete a de “acabamento” (Verendung). O termo acabamento, afinal do texto, parece dizer mais do que superação. Contudo o aforismo acaba sem ulteriores discussões a respeito do tema.



[1] Tradução mais livre.

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