quinta-feira, abril 23

TRADUÇÃO DO AFORISMO I DO TEXTO SUPERAÇÃO DA METAFÍSICA DE HEIDEGGER


   
 HEIDEGGER, M. Überwindung der Metaphysik. In: Gesamtausgabe. I. Abteilung: Veröffentlichte Schriften 1910-1976. Band 07. Vorträge und Aufsätze. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 2000.



I

Was heißt »Überwindung der Metaphysik«?” Im seinsgeschichtlichen Denken ist dieser Titel nur behelfsmäßig gebraucht, damit es sich überhaupt verständlich machen kann. In Wahrheit gibt dieser Titel zu vielen Mißverständnissen Anlaß; denn er läßt die Erfahrung nicht auf den Grund kommen, von dem aus erst die Geschichte des Seins ihr Wesen offenbart. Es ist das Er-eignis, in dem das Sein selbst verwunden wird. Überwindung meint vor allem nicht das Wegdrängen einer Disziplin aus dem Gesichtskreis der philosophischen »Bildung«. »Metaphysik« ist schon als Geschick der Wahrheit des Seienden gedacht, d.h. der Seiendheit, als einer noch verborgenen, aber ausgezeichneten Ereignung, nämlich der Vergessenheit des Seins. 

Sofern Überwindung als Gernächte der Philosophie gemeint ist, könnte der gemäßere Titel heißen: Die Vergangenheit der Metaphysik. Freilich ruft er neue Irrmeinungen hervor. Vergangenheit sagt hier: Ver-gehen und Aufgehen in die Gewesenheit. Indem die Metaphysik vergeht, ist sie vergangen. Die Vergangenheit schließt nicht aus sondern ein, daß jetzt erst die Metaphysik ihre unbedingte Herrschaft im Seienden selbst und als dieses in der wahrheitslosen Gestalt des Wirklichen und der Gegenstände antritt. Aus der Frühe des Anfangs erfahren, ist aber die Metaphysik zugleich vergangen in dem Sinne, daß sie in ihre Ver-endung eingegangen ist. Die Verendung dauert länger als die bisherige Geschichte der Metaphysik.



AFORISMO I[1]

O que se quer dizer [quando se diz] “superação da metafísica”? No pensar histórico do ser, [o uso d] esse título é apenas provisório[2] a fim de que ele possa tornar-se compreensível de modo geral. Na verdade, esse título dá motivos para mal-entendidos, pois ele não deixa a experiência chegar ao fundo, a partir do qual apenas a história do ser revela sua essência. Ela [a sua essência] é o Er-eignis[3], a qual se toca[4] o próprio ser. Superação não quer dizer, acima de tudo, retirar do caminho uma disciplina fora do horizonte da “formação” filosófica. “Metafísica” já é pensada, enquanto envio[5] da verdade dos entes, ou seja, da entidade, como um ainda oculto, mas notável “Ereignung [6], que é o esquecimento do ser.

À medida que [o termo] superação é julgada no sentido de excluído[7] da Filosofia, um título mais adequado poderia ser: o passado da metafísica. Com toda a certeza, ele evoca posteriormente novos equívocos. Passado diz aqui: pas-sar e abrir-se para o ter-sido[8]. Enquanto a metafísica passa, ela é passado. O passado não encerra, pelo contrário, só agora a metafísica toma posse de seu absoluto domínio sobre ente mesmo e, como tal, na forma desvinculada de verdade do real e dos objetos. Por causa do amanhecer, o começo experimenta, porém e ao mesmo tempo, a metafísica é passado no sentido que ela se dá em seu termo[9]. O [seu] termo dura mais do que a presente História da Metafísica.




[1] A tradução desse aforismo teve como base três textos: o original em alemão, a tradução americana feita por Joan Stambaugh publicada pela Universidade de Chicago e a tradução brasileira publicada pelas Vozes da Márcia Schuback.
[2] Heidegger usa o termo “behelfsmässig” que literalmente significa “provisório”, “temporário”. Stambaugh traduz o mesmo termo por “aid” que significa literalmente “auxílio”, “ajuda”, “apoio”. Schuback traduz por “precário”. Nós preferimos manter o sentido heideggeriano de “temporário”. 
[3] Em alemão, Ereignis significa, de modo geral e literal “acontecimento”. Segundo Inwood (2002), no seu dicionário sobre Heidegger, as palavras “Ereignis” e “sich ereignen” – que significam “acontecer”, “ocorrer” – vem da palavra “Auge”, que significa “olho”. Até o século XVIII grafava-se Ereignis e ereignen assim: “Eräugnis”, “eräugnen”, que significava literalmente: “colocadas diante do olho” ou “torna-se visíveis”. Heidegger procura associar sich eignen (“ser apropriado para”, “que serve para”, “que dá para”), sich aneignen (adquirir, apossar-se, apropriar-se) e eigen (o seu próprio). Nesse sentido, Stambaugh traduz por “Appropriating” que literalmente significa “apropriando-se”. Schuback traduz por “acontecimento apropriador”. Nós preferimos manter o termo original: “Er-eignis”, tal como ocorre com Dasein pela dificuldade de se obter, pela tradução, uma fidelidade de sentido.
[4] Heidegger diz:Es ist das Er-eignis, in dem das Sein selbst verwunden wird. A tradução inglesa utiliza o termo „overcome“ que literalmente significa “superar” para traduzir o verbo “verwunden wird”. Schuback traduz esse mesmo verbo por “sustenta”. Literalmente, verwunden significa “ferir”, “magoar”. Não há uma convergência de sentido. Nesse caso, optamos por traduzir por “se toca”.
[5] Para Heidegger Geschick e Schicksal são próximas. Ambas denotam tanto o poder que determina os acontecimentos quanto a efetivação do acontecimento. Elas são oriundas de “schicken” que significa “enviar”, mas originalmente significava “arranjar, ordenar, preparar, expelir”. Isso torna schicken correlata de “geschehen” que significa “apressar, correr, acontecer”. Geschick também significa “destreza ou habilidade”. Tanto Schuback quanto Stambaugh traduzem por “destino”. Nós preferimos o termo “envio” para evitar equívocos quanto a perspectiva determinista do termo destino.
[6] Ereignung Heidegger emprega com o mesmo sentido de Ereignis. Nós preferimos não traduzi-lo.
[7] Gernächte foi traduzido por Schuback como “feito” e por Stambaugh como “produto”. Nós utilizaremos outra lógica. A palavra ächten literalmente significa “ostracionar”, “proscrever”. Gern é apenas uma ênfase como “com muito prazer”, “com muito gosto”. Nesse sentido, pode-se traduzi-la por proscrição ou exclusão. No caso, essa tradição sustenta a preocupação de Heidegger em mostrar que o termo superação, se não é bem entendido, dá margens a equívocos.
[8] O termo Gewesenheit não é estranho nos textos de Heidegger. Já em Ser e Tempo o filósofo o utiliza para expressar a unidade originária da estrutura da Sorge enquanto temporalidade (Cf. §65). Nesse tratado, a tradução portuguesa privilegia dois modos de tradução. Schuback traduz por “o vigor de ter sido”, justificando que a palavra alemã wesen significa viger, vigorar, estar em vigor e, uma vez que assume o caráter de substantivo, ela conota uma dupla experiência: a “de uma força que já se instalou e que continua atuante” (Cf. N12 da segunda parte tradução de Ser e Tempo da 7ª edição, p.260). Castilho, em sua versão bilíngüe do Ser e Tempo, traduziu por “ser-do-sido”. A versão inglesa traduz por “what hás been”. Assim, optamos traduzir, simplesmente, por “ter-sido”.
[9] Literalmente, “endung” significa “terminação”, “desinência”. O prefixo ver-, neste caso, parece assumir a função de conversão, ou seja, modifica um substantivo, transformando-o em algo. Schuback traduz por “acabamento” e Stambaugh por “ending”. Optamos pela tradução: “seu termo”.

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