terça-feira, junho 9

NOTAS SOBRE RACIONALISMO E EMPIRISMO










Introdução

A pergunta pelo conhecimento[1], advinda dos modernos, teve sua possibilidade de eclosão na medida em que, os medievais, distinguindo os conceitos - fé e razão - perceberam a limitação humana na apreensão das verdades eternas[2]. A aceitação de que um fundamento divino fosse capaz de guiar a razão para o conhecimento da verdade, era totalmente inconcebível para a modernidade: “Se a verdade depende da revelação e da vontade divina, e nosso intelecto foi pervertido pela nossa vontade pecadora, como podemos conhecer a verdade?” (CHAUI, 2000, p.114). Com efeito, a primeira tarefa dos modernos foi a radical separação entre fé e razão, observando ainda, que cada qual possui seu objeto distinto sem nenhuma relação entre si. Esta fissura aberta entre estes dois conceitos possibilitou a procura daquilo que, de fato, estaria dado como conhecimento, bem como, os seus fundamentos.

Frente à pergunta pelo conhecimento, não mais vinculada à fé cristã, implicavam de maneira conjunta outras, como: “se há a possibilidade do conhecimento, o que de fato se pode conhecer?”; “quais são os limites do conhecimento?”; “onde se fundamenta todo conhecimento?”; “este conhecimento, pode alcançar a verdade?”; “o que caracteriza o erro?”; etc. Estas e outras questões se tornaram clássicas na conformação da Gnosiologia ou Teoria do Conhecimento. E, para dar uma resposta válida, mediante critérios “puramente” filosóficos, foram confeccionados sistemas denominados de Teorias da Consciência[3]. É a partir século XVII, que tais teorias se proclamam como demonstrações racionais de fundamentação do conhecimento. Estas, como o cogito cartesiano e, posteriormente, a filosofia transcendental kantiana, se situam, especialmente, como portadoras das condições de possibilidade para o conhecimento, uma vez que, colocam como fundamento do mesmo a própria consciência, i. é, fundam-no na subjetividade[4].

O Embate entre Racionalistas e Empiristas

            Mediante o problema do conhecimento advindo de uma necessidade real de pensar a realidade não mais voltada para as questões da fé, duas correntes despontam na modernidade. Ambas visam a construção de um método que solucionasse o referido problema: o Racionalismo francês e o Empirismo inglês. Representam o racionalismo Descartes Malembranch, Spinoza e Leibniz. Já o empirismo é representado por Francis Bacon, Locke, Berkeley e Hume. Estas duas correntes contemporâneas nascem justamente motivadas pela problemática entre os conhecimentos objetivos e subjetivos. Segundo Chauí (2000) razão objetiva é aquela que afirma a independência racional da realidade exterior ao sujeito sendo, justamente apreendida por seu aspecto racional, enquanto que a razão subjetiva, ao contrário, coloca a dependência racional da realidade exterior na construção racional do sujeito.
            Contudo, a problemática da objetividade ou subjetividade do conhecimento não se dá de modo tão simplista. Assim sendo, três perguntas fundamentais podem ser feitas: é possível o conhecimento? De onde provém? Quem determina seu conteúdo? A partir destas, racionalistas e empiristas se posicionaram. No que tange as duas primeiras questões, o racionalismo afirma que o conhecimento, e quando se fala de conhecimento está se referindo à veracidade gnosiológica, só é possível, se, tem como fonte principal a própria mente. A subjetividade é substrato ontológico no processo cognitivo. Isto só era possível porque as idéias eram tidas como inatas no sujeito. Este pensamento não é original da modernidade, pois, o Inatismo[5] já era pensado por Platão, Plotino e Agostinho. Neste sentido, a verdade estaria associada à coerência lógico-formal dos conteúdos.
Em contraposição está o empirismo que via como fonte principal a experiência do mundo material. A mente é uma “tabula rasa”, como vai afirmar Locke. O que a mente contêm provêm da experiência dos sentidos, ou seja, das sensações. As idéias eram formadas a partir da memória das várias sensações na qual a razão tinha acesso e fazia meras associações. A verdade deveria necessariamente ser comprovada pela experiência sensorial. O empirismo em seu extremo, com Hume, pôde ser considerado uma espécie de ceticismo, pois, como a causalidade, para ele, não era objetiva, pois não passava pelos sentidos, o que de fato se tem são repetições de sensações e hábitos associados pela razão sem nenhuma certeza universal.
            O antagonismo de tais posturas, na tentativa de resolver metodologicamente a questão do conhecimento, não foi suficiente. Para Chauí (2000) dois são os problemas do racionalismo: a possibilidade da própria razão mudar o conteúdo de idéias que eram consideradas universais e verdadeiras; e ter como critério a razão o julgamento de idéias racionais como falsas, já que estas derivavam da própria razão. Também o empirismo possuia problemas: se todo e qualquer juízo provem da experiência sensorial como pode-se pensar em verdade e idéias universais? Não haveria, logo, a possibilidade de se pensar em ciências. O conhecimento estaria estagnado a meros atos subjetivos, não havendo possibilidade para as idéias objetivas.
Para tentar solucionar tal embate que aparece a concepção alemã apriorística. Esta corrente inaugurada por Kant, também denominada de criticismo, afirma que o conteúdo do conhecimento é derivado da realidade empírica através da experiência sensorial, mas é organizado pela mente mediante categorias ou formas a priori. O que na verdade Kant faz é o que ficou conhecido como Revolução Copernicana[6] ou como diz Saldanha (1987, p.16):

Se o conhecimento é uma relação cuja forma se define em função de formas intrínsecas que se acham no sujeito cognoscente e que se impõem sobre os objetos, então a análise da problemática do conhecimento terá realmente de partir da análise do sujeito; ou seja, das formas a priori que nele estão, e de cuja aplicabilidade ao real depende em princípio a própria constituição gnosio-epistemológica dos objetos.

Kant inaugura uma nova forma de se tratar o conhecimento com a filosofia transcendental, i. é, as condições de possibilidade para que este possa ser possível, e faz isto a partir da análise da razão pura.
Todavia, será que tal solução é suficiente para o embate racionalismo e empirismo? Para Saldanha (1987, p.10) não: “a Crítica da Razão Pura representou, e dizer isto não é nenhuma novidade, uma espécie de apogeu do racionalismo; ao mesmo tempo seu ponto de crise”. Pois, continua o mesmo, “a doutrina de Kant pode ser situada dentro de uma seqüência de posições Intelectualistas, oriundas remota e basicamente daquele intelectualismo grego e refinadas por sucessivas sutilizaçoes” (SALDANHA, 1987, p.14).
            Ao enfrentar o problema e tentar sintetizá-lo na análise da razão do sujeito, Kant propõe o terceiro problema do conhecimento: quem determina o conteúdo do conhecimento, o sujeito ou o objeto? Kantianamente existe uma relação de construção entre o sujeito e objeto e o que de fato se conhece é o fenômeno. O fenômeno é a relação entre a experiência sensorial do objeto e o modo como a percepção o capta. Contudo colocou-se em questão a existência em si da essência das coisas, no qual Kant chama de noúmeno. O desdobramento desta questão levou a elaboração de duas correntes: o realismo e o idealismo. Não se deterá no realismo, mas se tocará como respondeu o idealismo.
            O maior representante do idealismo alemão é Hegel. Para este, a razão não era nem objetiva exclusivamente objetiva nem exclusivamente subjetiva, mas ela é “a unidade necessária do objetivo e do subjetivo” (CHAUI, 2000, p.81). Esta unidade ou harmonia entre objetivo e subjetivo não é um dado eterno, mas uma conquista da razão no tempo, ou seja, é a conquista final da razão na história. Olhando para seus antecessores, Hegel, percebendo os embates dos filósofos, constata que tais conflitos é a própria razão no seu acontecer histórico que se busca a se conhecer, e que graças a estes ela pode se auto-identificar-se como síntese dos opostos.
            Diante mão diz Hegel (2005, p.71): “A história da filosofia é a história do pensamento livre, concreto, ou da razão”. Pois para este, não existe a distinção entre exterior e interior, pois, “o nosso próprio objeto é o pensamento” (HEGEL, 2005, p.72). Assim, a história da filosofia é no fundo o debruçar-se do desenvolvimento do pensamento que em seus conflitos de manifestação objetiva e subjetiva atingindo, portanto, segundo ele, a sua síntese com a filosofia alemã.

Considerações Finais
           
Tocado na temática do problema do conhecimento na modernidade, algumas considerações podem ser traçadas. De fato, esta questão é um problema filosófico, enquanto que as ciências já o pressupõem, é papel da filosofia se debruçar sobre esta possibilidade e de como ela acontece, como vai dizer Husserl. A modernidade, em seu tempo e com suas possibilidades tentaram sistematicamente resolver tais questões.
Destarte, é importante chamar a atenção para os limites de cada sistema, aspecto que nem sempre foi levado como relevante pelos mesmos. A busca pretensiosa da abordagem do todo, proporcionou certos condicionamentos as correntes modernas. O que é importante destacar, como bem diz Hegel é a evolução do próprio conhecimento mediante os embates teóricos. Contudo, a síntese perfeita como quer acreditar o filósofo alemão é ainda cair no limite histórico. A problemática do conhecimento desembocou ainda, em um outro, que fora percebido apenas muito tempo depois com a contemporaneidade. A relação com o conhecimento levou os filósofos a tentar reduzir o papel do filosofar em uma mera teoria do conhecimento. Este problema foi apenas despertado de seu sono dogmático na contemporaneidade quando se perguntou pelo fim da filosofia e seu papel junto às ciências. Foi com os modernos que a tentativa de reduzir a filosofia em Epistemologia tem seu germe.
Acredita-se que a questão não está dada por satisfeita. O esgotamento da mesma ainda estaria por vir, haja vista que muitas outras descobertas, tanto científicas como filosóficas foram se desvelando nos tempos vindouros. Contudo, o questionar do conhecimento pelos modernos foi um passo muito importante para o próprio conceito de ciência e de realidade. Já que, a pergunta foi tocada e despertada para o próprio pensamento como desafio para a humanidade.

Referências

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

HEGEL. Introdução à história da filosofia. São Paulo: Rideel, 2005.

SALDANHA, Nelson. Kant e o criticismo. Recife: Massangana, 1987.

STEIN, Ernildo. Seis estudos sobre Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1988.

TOMAS DE AQUINO. Questões discutidas sobre a verdade. In: Os pensadores. São Paulo: Ática, 1979.







[1] “E, quando houvermos bem examinado os poderes do nosso espírito e feito uma avaliação do que podemos esperar dele, não seremos mais propensos a ficar quietos, sem lançar o nosso pensamento à obra, perdendo a esperança de conhecer alguma coisa, nem, por outro lado, a pôr tudo em dúvida e ignorar todo conhecimento porque algumas coisas não podem ser compreendidas. É de suma utilidade para o marinheiro conhecer o comprimento de suas cordas, ainda que elas não possam sondar todas as profundidades do oceano.” (Cf. Locke. Ensaio sobre o intelecto humano)
[2] Segundo Tomás de Aquino, as coisas do qual o nosso intelecto apreendem o conhecimento, constituem a medida de nossa intelecção, porém, estas retiram suas medidas da inteligência de Deus, no qual tudo está encerrado, da mesma forma que, tudo que está dado na mente humana se constitui como verdade eterna na mente divina. (TOMAS, 1979, p.26)
[3] Segundo Stein (1988, p.21), toda a tradição metafísica é provocada pelas especulações sobre Deus e o mundo. É de lá que procede as respostas para os enigmas da existência humana. São mediante estes dois domínios que as teorias da consciência se fundam. Heidegger, portanto, se coloca em posição crítica contra o dualismo cartesiano, da relação consciência-mundo, da relação sujeito-objeto, que configuram a tradição das teorias da consciência.
[4] Caráter de todos os fenômenos psíquicos, enquanto fenômenos de consciência, que o sujeito relaciona consigo mesmo e chama de "meus". (ABBAGNANO, 1998, p.922).
[5] Segundo Chauí (2000, p.69) o inatismo defende a idéia de que nascemos já com princípios racionais e com algumas idéias verdadeiras como a idéia do infinito.
[6] SALDANHA. Kant e o Criticismo, 1987, p.16.

0 comentários:

Postar um comentário