segunda-feira, fevereiro 8

A MODERNIDADE EM QUESTÃO

"Modernidade - um projeto inacabado [...] esse tema, controvertido 
e multifacetado, não mais me deixou" (Habermas)

Jünger Habermas
Jean-François Lyotard


























Somos devedores da Modernidade? A resposta a esta pergunta muito depende do que entendemos primeiramente por Modernidade bem como se, o que supomos ser, pode estar vinculado a algo que nos sucede ou precede. Não obstante respondermos ou não esta questão, a transformação da Modernidade e nossa relação com certo tipo de temporalidade em discussão - e ademais com certo caráter filosófico - já nos antecede pelo menos três séculos. De acordo com Habermas, desde o século XVIII a modernidade foi entronizada nos grandes temas filosófico e, desde então, temos nos perguntado o que devemos para com ela.

Essa pergunta, em específico, - se devemos ou não algo à modernidade - no mínimo supõe que nos coloquemos em um discurso que se pretenda estar "fora" da modernidade, ou seja, que podemos dizer que de algum modo já não somos mais tão modernos. E se assim o é, o que somos? E o que devemos? Essa suposição de um "fora" da modernidade tem seus inícios no século XX, quando Adorno, em seu texto Mínima Moralia, anuncia que a modernidade "está fora de moda". No entanto, é no início da década de 80 do século XX que o embate realmente toma corpo. 

Em 1979, Jean-François Lyotard publica o texto A condição pós-moderna. Nessa obra, Lyotard anuncia que temos vivido já em um mundo "pós-moderno". O termo pós-moderno, apesar de ser bem ambíguo e com diversas aplicações em áreas distintas, é usado - atesta o filósofo - no continente americano por sociólogos e críticos, e sua de designação remete ao estado de cultura após as transformações que afetaram as regras de jogo das ciências, literatura e artes no século XX. Em outras palavras, o esgotamento e exaustão da modernidade, desde o fim das grandes narrativas, promove um clima de incredulidade em relação aos "metarelatos" e uma negação das certezas, pois, com o giro linguístico, os discursos se plasmaram em "jogos de linguagem" - em sentido wittgensteiniano - especificando as interações sociais por intermédio de enunciados variados, impedindo, como isso, um discurso de conjunto. Assim, cada grupo só obedece a regras próprias e instala-se um verdadeiro pluralismo. Do ponto de vista societário, pode-se dizer que há uma progressiva emancipação da humanidade, da razão e da liberdade pela ciência ou pelo trabalho que transforma o saber em desenvolvimento tecnológico. É o advento da sociedade da imagem, o fim do universalismo, a emersão do fragmento e a erupção do emocional.

Por outro lado, em resposta a Lyotard, Habermas, ao receber o prêmio Adorno em 1980, faz um discurso cujo título dizia: Modernidade - um projeto inacabado. Esse tema, por seu turno, assim como o da pós-modernidade, se espalha pelos meios neo-estruturalistas e se transforma em uma verdeira batalha filosófica. Com efeito, no ano seguinte, Habermas, procurando melhor desenvolver essa temática elabora sua Teoria da Modernidade desde sua Teoria da Ação Comunicativa. Em sua obra Teoria da ação comunicativa, Habermas defende a tese de que a modernidade é um projeto idealizado pelos iluministas no século XVIII e que esse projeto, na verdade, está inconcluso. De acordo com o filósofo, a Modernidade pode ser vista desde o ponto de vista de Weber, ou seja, um processo de desenvolvimento científico, artístico e político via racionalização da Europa. Portanto era necessário desenvolver uma teoria da modernidade "baseada em um novo modelo de razão e sociedade".

Segundo Habermas, a Modernidade não é meramente um conceito, mas ela possui um tempo e um espaço. Do ponto de vista do tempo, ela abrange as transformações societárias dos século XVIII, XIX e XX e com respeito ao espaço, ela se localiza preferencialmente na Europa. Como a modernidade é vista desde a ótica de um "processo" (ou seja, não deixa de ser vista como uma teoria evolutiva), este abrange duas estruturas: o "mundo vivido" e o "sistema". O que Habermas chama de "mundo vivido" é o espaço social em que a ação comunicativa permite a realização da razão comunicativa, calcada no diálogo e na força do melhor argumento em contextos interativos, livres e coação. E por "sistema" são estruturas societárias que asseguram a reprodução material e institucional da sociedade, ou seja, a economia e Estado (é importante que estes últimos, são denominados: subsistemas). Desse modo, as transformações ocorridas no sistema são chamadas de "modernização societária" e as ocorridas no mundo vivido são "modernidade cultural".

Há pelo menos - na visão de Habermas - quatro processos de transformações societárias que implicam tanto a modernização societária quanto a modernidade cultural: a diferenciação, a autonomização, a racionalização e a dissociação. Dois deles são considerados positivos, como a diferenciação, que é a descentração, ou seja, o processo de aprendizado coletivo; e a autonomização que é o desprendimento relativo de um subsistema que permite seu funcionamento à base de princípios autônomos. Por outro lado, há dois processos que se tornaram as patologias da modernidade: a dissociação e a racionalização. A dissociação é processo de desconexão do "mundo vivido" com o "sistema" pela submissão da vida às leis de mercado e a burocracia estatal. Quando estas regem o mundo da vida, elas se naturalizam e reforçam o controle da economia e do estado por minorias que determinam as regras do jogo. Já a racionalização é o processo que Habermas chama de "colonização", i. é, o fortalecimento do sistema em detrimento do mundo vivido contaminando o mundo vivido de modo tal que a razão comunicativa (própria do mundo vivido) retira-se pela pressão da razão instrumental. A racionalidade instrumental e os mecanismos de integração do dinheiro e do poder invadem as instituições culturais, o que leva a arte e as universidades a funcionarem segundo princípios do lucro e do exercício do poder.

Não obstante este processo patológico da modernidade, defende Habermas, há como reverter este processo de "desengate" (desarticulação entre mundo da vida e sistema) e "colonização" (instrumentalização da razão comunicativa) pela livre atuação da razão comunicativa em todas as esferas das instituições do mundo vivido e na busca de últimos fins do sistema. Os processos históricos desencadeados pelo pensamento iluminista, a partir da Revolução Francesa e outras transformações históricas que deram origem as modernas sociedades ocidentais não podem ser compreendidos como realizações do projeto original. De fato, há um luto pelo fracasso de um projeto do qual não se pode abrir mão...

Em vista desses dois pensamentos: continuísta (Habermas) e descontinuísta (Lyotard), é necessário pensar alternativas e estas aparecem no pensamento do italiano Gianni Váttimo. Em sua obra O fim da modernidade, Váttimo se recusa a ver no prefixo "pós" (de pós-modernidade) uma atitude que necessariamente signifique ou remeta a uma ideia de "superação". Argumenta Vattimo que um pensamento que idealiza a superação continuaria preso à lógica da modernidade, pois o prefixo "pós" continua remetendo a duas ideias centrais da modernidade: progresso e novo. Ser pós-moderno, portanto, seria reforçar a mesma lógica da modernidade: de algo que viria depois da modernidade em uma teleologia ligada a um sentimento de progresso e de novidade. Assim, o pós-moderno não anularia ou nem denunciaria os problemas da modernidade, mas reforçaria a tese continuísta de Habermas. Ora, manter a tese a continuísta de Habermas é ignorar os problemas da modernidade ou, pelo menos, minimizá-los. Habermas mesmo admite que existem patologias na modernidade e que estas impediram a concretização de seu projeto. Nesse sentido, Vattimo aponta para a ideia de "despedida" ou "afastamento" e não em superação. Essa ideia necessarimanet passa por um processo de diluição das ideias de progresso e de novo que não constituintes das teleologias historicistas modernas.

É claro que essas linhas são apenas alguns pontos para pensarmos em nossa dependência com a epocalidade que nos abrange. Há muitas outras discussões a respeito do tema e é necessário sempre revê-lo se queremos nos compreender ou compreender o que nos cerca. Deixo abaixo algumas fontes de pesquisa sobre o tema, além das referências desse texto.

Indicações Bibliográficas:
LYOTARD, J-F. O pós-moderno. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
ADORNO, T.W. Mínima Moralia. Lisboa: Edições 70, s.d.
GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991.
ROUANET, S.P. As razões do iluminismo. 5.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
BUDRILLARD, J. Simulacros e Simulação. Lisboa: Antropos, 1991.
HABERMAS, J. Teoria da ação comunicativa.

Referências:
LYOTARD, J-F. O pós-moderno. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
HADDOCK-LOBO, R. Nem moderno, nem pós-moderno. Disponível em: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/30/artigo123392-1.asp
FRANCO, C. Ciência, religião e paraciências no âmbito de metáforas pós-modernas. Disponível em:  http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf/st4/Franco,%20Clarissa%20de.pdf
RODRIGUES, J. P. O projeto da modernidade segundo Habermas. Griot, Amargosa (BA), v.10, n.02, dez, 2014, pp.189-204.
FREITAG, B. Habermas e a teoria da modernidade. Cad. CRH, Salvador, n.22, jan-jun, 1995, pp.138-163.
HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade, Doze lições. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

    


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