quarta-feira, fevereiro 24

ANÁLISE DA OBRA FÉDON (60b - 63e)


Texto:
PlATÃO. Fédon. In: Diálogos / Platão; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha ; tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1973. — (Os pensadores)

2ª PARTE: Prazer e Dor[1]

A – DE CARÁTER HISTÓRICO

1) Pesquise sobre:

Esopo: O fabulista grego teria nascido no final do século VII a.C. ou no início do século VI a.C. Heráclides do Ponto na obra Acerca dos Samios, afirmava que Esopo nascera na Trácia. Certo é que morreu em Delfos, tendo sido executado injustamente, segundo descreve Heródoto (Histórias, II, 134) e o Suda. Segundo Heródoto, Esopo foi escravo do filósofo Janto (Xanto), um cidadão de Samos, juntamente com uma outra escrava chamada Ródope. As fábulas de Esopo e outras possivelmente a ele atribuídas foram reunidas pela primeira vez por Demétrio de Faleros, no início do século III a.C. Aristóteles afirmou na Retórica que Esopo teria uma vez discursado na Assembléia de Samos em defesa de um demagogo. Platão cita o nome de Esopo no diálogo Fédon (60c-61a), o que faz muitos a concluírem que suas fábulas eram muito conhecidas nesse momento histórico posterior[2].
Filolau: Tradicionalmente se aceita que este filósofo tenha escrito um livro em que expunha a doutrina pitagórica (que era secreta e reservada apenas aos discípulos). Os fragmentos do livro conservam os mais antigos relatos sobre o pitagorismo e influenciaram fortemente Platão que, segundo a tradição, teria mandado comprar o referido livro, pagando por ele uma razoável quantia. Pelo que se sabe, Filolau foi o primeiro pensador a atribuir movimento à Terra. Ele propôs um sistema no qual a Terra girava em torno de um fogo central, que não era o Sol e que não podia ser visto porque ficava sempre do lado oposto ao lado habitado da Terra. O fogo era considerado pelos pitagóricos o elemento mais puro. Entre o fogo central e a Terra existia um outro planeta, invisível, que Filolau chamou de antiterra. Os nove corpos celestes (Sol, Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte, Júpiter, Saturno e Urano eram os corpos celestes conhecidos na época) e a antiterra como décimo corpo celeste se movia em órbitas circulares em torno do fogo central[3].
Cebes: (em grego: Κεβης; ca. 430 a.C.  350 a.C.) foi um filósofo grego discípulo de Sócrates e Filolau de Crotona, citado no Fédon de Platão[4].
Símias: foi um discípulo de Sócrates e amigo de Cebes. Na obra Memorabilia, de Xenofonte, Símias é incluído no círculo íntimo dos seguidores de Sócrates. Ele aparece nos seguintes diálogos de Platão: Fédon, Críton Fedro, e na Epístola XII[5].
Movimento Órfico: Os órficos consideravam como fundador de seu movimento o mítico poeta trácio Orfeu[6] que, ao contrário do tipo de vida encarnado pelos heróis homéricos, teria vivenciado um tipo mais interior e espiritual de vida. Não se sabe a origem do movimento e como ele se difundiu na Grécia. É certo, entretanto, o seu florescimento ou reflorescimento no século VI a.C., visto que existem testemunhos que confirmam que, naquele século, a doutrina órfica estava já bem definida nos livros sagrados. Segundo a crença fundamental de seus seguidores, a vida terrena seria uma simples preparação para uma vida mais elevada, que poderia ser merecida por meio de cerimônias e ritos purificadores que constituíam o arcabouço secreto da escola. Essa crença passou para outras escolas filosóficas da Grécia antiga, como a escola pitagórica e a escola platônica. Os mistérios órficos eram, portanto, essencialmente, rituais de purificação para que a alma do poeta, do vidente e do legislador não fosse submetida às águas do esquecimento (léthe), para que não se esquecesse do que lhe era transmitido pelo divino. Esses rituais de purificação se baseavam na crença na imortalidade da alma, sendo que a ascensão seria conseguida após muitas reencarnações ou transmigrações, e a finalidade ritualística era justamente purificar a alma do iniciado para acelerar sua libertação da roda dos nascimentos[7].

2) Que relações guardam a discussão de Platão sobre a morte e a crença do orfismo?

O movimento órfico tinha como crenças fundamentais: a) a existência da alma como “a parte melhor do homem”[8]; b) a existência de um “daimon” – uma potência divina – que habita e “governa o destino das almas”[9]; c) a pré-existência da alma e do daimon ao corpo, sua imortalidade e sua sucessiva reencarnação em corpos diversos (mentepsicose) “através de uma série de renascimentos a fim de que ocorra a purificação da alma e sua conseqüente libertação dos renascimentos”[10]; d) aquele que se inicia nos mistérios e segue seus ritos de purificação além de cessar os renascimentos recebe uma recompensa que é “regressar ao divino”[11].

Pelo que consta, o dualismo antropológico tem sua origem no Orfismo, muito anterior ao platonismo. Também com relação à mentepsicose, há aqueles que sustentam a mesma origem órfica, contudo essa informação não é consensual, podendo ainda ter se originado pelos pitagóricos[12]. A noção de alma órfica é indispensável para a compreensão da filosofia platônica, nos termos de Jaeger: “Sem ele [conceito órfico da alma] seria impensável a concepção platônica e aristotélica da divindade do espírito e a distinção do homem meramente sensível e o seu próprio eu...”[13].

B – DE CARÁTER INTERPRETATIVO

1) Com suas palavras, faça um resumo do trecho lido.

Há dois momentos fundamentais no trecho:
I – A discussão, já na boca de Sócrates, a respeito da diferença entre o modo de explicação mítico-poético e o modo de explicação filosófico;
II – A primeira argumentação platônica, colocadas entre Sócrates e Cebes, a respeito da defesa do modo filosófico de viver e sua distinção com o sucídio.


C – DE CARÁTER FILOSÓFICO

1) Há dois temas trabalhados por Platão neste trecho. Identifique-os com passagens do texto.

A) Passagem do discurso poético-mítico para o racional-filosófico.
Sócrates tece críticas ao discurso poético-mítico julgando-o como fábulas, ou seja, eles não teriam mais que um valor de uma lenda. A intenção de Platão, com esse tema, é chamar a atenção para a importância da filosofia e do raciocínio para a explicação da morte. Nos termos de Platão (61a – 61c): “... haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia [...]? [...] julguei que um poeta para ser verdadeiramente um poeta deve empregar mitos e não raciocínios. Não me sentindo capaz de compor mitos, por isso mesmo tomei por matéria de meus versos, na ordem em que me vinham ocorrendo à lembrança, as fábulas ao meu alcance, as de Esopo que eu sabia de cor”.

B) Distinção entre a atitude filosófica para com a morte e o suicídio.
Sócrates representa a nova mentalidade, ou seja, a novidade platônica, e Cebes representa o senso comum das religiões gregas. A questão é: a vida é uma necessidade de todos, inclusive para aqueles que tem na morte um bem mais preferível, portanto, isso significa dizer que ter a morte como um bem não é procurá-la. Nos termos de Platão (68a): “... há uma absoluta necessidade de viver, necessidade invariável mesmo para aqueles para os quais a morte seria preferível à vida”.

2) Dentre os dois temas, um deles é objeto de uma discussão filosófica. Reproduza com suas palavras essa discussão.

1º ARGUMENTO: Justificativa de porque não se deve suicidar.
Sócrates argumenta: ainda que a morte seja preferível, não se deve procurá-la, pois somos propriedades dos deuses, ou seja, não temos autonomia sobre nós mesmos. Fazê-la acarretaria uma ofensa àqueles que são nossos donos.

“A esse respeito, há mesmo, uma fórmula que usam os adeptos dos Mistérios: ‘É uma espécie de prisão o lugar onde nós, homens, vivemos, e é dever não libertar-se a si mesmo nem evadir-se’ [...] Mas não é menos exato, Cebes, que aí se encontra justamente expresso, creio, o seguinte: os Deuses são aqueles sob cuja guarda estamos, e nós, homens, somos uma parte da propriedade dos Deuses [...] não havia de querer mal a um ser de tua propriedade que se matasse sem que tal lhe tivesse permitido?”[14]

2º ARGUMENTO: A crítica à justificativa da negação do suicídio.
Questiona Cebes: se somos propriedades dos deuses, e suicidar deixa os deuses irritados, a preferência pela morte é também a preferência pela libertação da tutela dos deuses. Como então preferir à morte (libertação dos deuses) se não há nada melhor que ser instruído por alguém que tem tal propriedade de tutor – ou seja, os deuses? Seria sensato buscar a rejeição de tal tutela, preferindo a morte em seu lugar?

“Que não haja irritação da parte de homens sensatos, quando se lhes retira essa tutela dos Deuses, que são, precisamente, os melhores tutores, é coisa bem difícil de compreender! Não é crível, em tais circunstâncias, que alguém, em liberdade, possa encontrar maiores vantagens na sua própria autonomia”[15].

3º ARGUMENTO: Contra-argumentação à crítica sobre a justificativa da negação do suicídio.
Responde Sócrates: Ter a morte como um bem, i. é, preferir a morte, não significa libertação dos deuses, ao contrário, pela morte é que se vai ao encontro dos deuses, graças à crença na imortalidade da alma.

“... eu cometeria um grande erro não me irritando contra a morte, se não possuísse  a convicção de que depois dela vou encontrar-me, primeiro, ao lado de outros Deuses, sábios e bons: e, segundo, junto a homens que já morreram e valem mais do que os daqui”[16]



[1] Divisão feita pela Coleção os Pensadores edição de 1973.
[2] Cf. Verbete Esopo da Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Esopo.
[3] Cf. Verbete Filolau de Crotona da Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Filolau_de_Crotona .
[4] Cf. Verbete Cebes da Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cebes .
[5] Cf. Verbete Símias de Tebas da Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADmias_de_Tebas
[6] “O mito relacionado a Orfeu nos conta que Orfeu foi o poeta e músico mais talentoso que já viveu. Quando tocava sua lira, todos os animais paravam para escutar seus sons. Orfeu apaixona-se por Eurídice, a mais bela mulher existente, e com ela se casa. Mas, picada por uma serpente, Eurídice morre. Orfeu fica transtornado de tristeza. Decide ir até o Mundo dos Mortos, o Hades, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira alivia os tormentos dos condenados. Encontra muitos monstros durante sua jornada, e os encanta com seu canto. Ao chegar diante da deusa Perséfone, esta, comovida, permite que Eurídice volte com Orfeu ao Mundo dos Vivos. Mas, com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol. Mas ele, ao atingir a luz do sol, se vira, para certificar-se que Eurídice o estava seguindo. Enquanto ele a olha, ela se torna de novo um fino fantasma, com seu grito final de amor e pena ecoando pelo Mundo dos Mortos e pelo Mundo dos Vivos. Ele a havia perdido para sempre. Em desespero total, Orfeu se retira e se isola do mundo, vivendo casto até o resto de seus dias. Torna-se, então, um sábio conselheiro para todos os desesperados, atormentados pelas ilusões da vida”. Cf. CASORETTI, A. M. A origem da alma. Do orfismo a Platão. São Paulo, 2010. 77 p. Monografia (Graduação em Filosofia) – Curso de Filosofia, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2010, p.23.
[7] CASORETTI. Op. cit.
[8] Cf. JAEGER, W. O pensamento filosófico e a descoberta do cosmos. In: Paideia. A formação do homem grego. 5.ed. São Paulo : WMF Martins Fontes, 2010, p.211.
[9] CASORETTI. Op. cit, p.25.
[10] CASORETTI. Op. cit, p.25.
[11] CASORETTI. Op. cit, p.25.
[12] CASORETTI. Op. cit, p.26.
[13] JAEGER. Op. cit, p.211.
[14] PLATÃO, Fédon, 62b.
[15] PLATÃO, Fédon, 62d.
[16] PLATÃO, Fédon, 63b.

0 comentários:

Postar um comentário