quinta-feira, fevereiro 11

ARTIGO SOBRE O PERSONALISMO


O PERSONALISMO
João Pedro de Souza[1]



Resumo: Este artigo apresenta os primeiros passos do pensamento personalista. Esta corrente antropológica surgiu na França da década de 1930 com a pessoa de Emmanuel Mounier através de sua revista Sprit. Esta contava com a colaboração de pessoas como Jacques Maritain, Gabriel Marcel e Nicolai Berdjaev. O nascimento do pensamento antropológico personalista se deu em um contexto histórico muito atribulado da Europa, pois os europeus passavam por dificuldades econômicas e humanas, porque o homem chegou ao auge de seu declínio com a grande guerra. A proposta antropológica personalista é a pessoa, e esta visada em toda a integralidade de sua existência. Buscando uma resposta que abrangesse todas as dimensões da pessoa, o personalismo deve entrar em diálogo com as ideologias presentes em seu tempo. Estas teorias são: o individualismo, o marxismo, o fascismo, o existencialismo, o capitalismo, o espiritualismo e o moralismo, tais ideologias,de certa maneira são antípodas à forma do pensamento personalista.
Palavras-chave: Emmanuel Mounier. Personalismo. Pessoa.

Considerações iniciais

O presente trabalho busca fazer um itinerário do personalismo desde o seu início como filosofia na França e também apresentar o conceito de “personalismo” fazendo um caminho desde seu desenrolar histórico, seus representantes pelo mundo, seu conceito de pessoa e também o diálogo que ele teve com as ideologias presentes em seu contexto histórico.

Origem e desenvolvimento do personalismo            

A palavra personalismo possui várias significações como nota-se nas seguintes palavras 1 Qualidade do que é pessoa. 2 Tendência a impor os critérios ou as vontades pessoais.[2]Suas significações fazem referências aquilo que diz respeito a pessoa, mas deve-se levar em conta uma definição que remete o termo as suas mais longínquas origens como fala Emmanuel Mounier:
O termo <<personalismo>> é relativamente recente. Renouvier empregou-o em 1903, para classificar a sua filosofia, caindo depois em desuso. Walt Whitman usou-o nas suas Democratic Vistas (1867), e depois dele encontramo-lo em vários autores americanos. Reaparece em França à roda de 1930 para designar, num contexto muito outro, os primeiros estudos que a revista Esprite alguns grupos afins (Ordre Nouveau, etc) procederam, a quando da crise política e espiritual que então alastrava na Europa. Na sua 5ª edição, em 1947, o VocabulairePhilosophiqueque Lalande reconhecia-o oficialmente.[3]

Como se expressa em sua definição,Mounier 1964 busca a antiguidade da palavra, que já foi utilizada porRenouvier e depois por Whitman,mas dentro do contexto histórico da França da década de 1930 e a usará não para designar uma atitude, porém algo maior do que isto, uma filosofia[4] porque define estruturas e não foge à sistematização.
O personalismo como corrente filosófica iniciou-se com Mounier na década de 1930, como uma resposta a uma situação que a sociedade europeia se encontrava, pois essa passava por uma grande crise econômica, mas sobretudo de valores humanos, pois o pós guerra mostrou-a o quão o homem é capaz de se degenerar.[5]
Neste período difícil da história da França no qual possui contribuiçõesda “crise de 1929”, muitos se atreveram a discorrer sobre de onde sobrevinha este tempo de escassez, como nota-se nas seguintes palavras de:
Diante das inquietações e desventuras que então começavam, alguns deram uma explicação puramente técnica, outros puramente moral. Alguns jovens, porém, acharam que o mal era ao mesmo tempo econômico e moral, inseridos nas estruturas sociais e nos corações, e que o remédio para ele, portanto, não deveria prescindir nem da revolução econômica, nem da revolução espiritual [...][6]

O pensamento personalista com Emmanuel Mounier e também com a contribuição de outros pensadores como Jacques Maritain, Gabriel Marcel e Nicolai Berdjaev constituiu num esforço de compreender e responder de maneira integral a esta crise do homem do século XX em sua totalidade. Buscou-se dar esta solução através da inserção da pessoa no centro de todas as discussões, sejam elas práticas ou teóricas.
A grande difusão das ideias do personalismo se deu através da revista Sprit, que foi colocada à circulação a partir de 1932, este fato aconteceu após a escolha de Mounier, na qual sacrificou sua carreira acadêmica para se dedicar a função de publicista – já tinha colaborado com a revista AuxDévidées - a frente da revista Sprit.[7]

Representantes

Com a difusão do pensamento antropológico personalista, por meio da revista Sprit,houve uma adesão a esta antropologia e algumas pessoas a representaram em outros países da Europa chegando até mesmo aos Estados Unidos da América.[8]
Na França, ela é representada por nomes como G. Izard, P. Ricouer, N. Berdjaev, J. Maritain, E. Mounier e M. Nèdoncelle. Na Inglaterra está ligada ao nome de J. B. Coates. Na Holanda, o personalismo surgiu em 1941, num campo de prisioneiros e desenvolveu-se no plano político. Já na Suíça, as ideias personalistas se deram em volta dos CahiersSuisseEsprit[9].
Na Itália os dois pensadores mais representativos foram Armando Carlini e Luís Stefanini. Ainda entre estes intelectuais estão os personalistas cristãos de língua alemã, convém lembrar Peter Wust (1884-1940), Romano Guardini (1885-1968) e Max Müller[10]. E entre os norte-americanos tem-se nomes como G. H. Howison, B. P. Bowne, E. S. Bringhtman e W. E. Hocking.[11]
Todas estas pessoas difundiram as ideias do personalismo e contribuíram para a construção de um pensamento personalista em seus respectivos países de origem. No tempo do nascimento do personalismo existiam várias ideologias presentes. Mounier levou-as em conta e sobre as mesmas debateu um pouco em sua opus.

As respostas do personalismo para a sua época

Buscando uma concepção de pessoa comonão-objetivável, inviolável, responsável e criativa, livre, encarnada em um corpo na história e constitutivamente comunitária, o personalismo deu algumas respostas a seu tempo.
O individualismo foi uma realidade presente no tempo de EmmanuelMounier e também em nossos dias atuais.Quando se fala em individualismo, não pode-se pensar na atitude socrática do “Conhece-te a ti mesmo”[12]ou noCogito[13]de Descartes, porque tanto a posição do grego quanto a do francês são boaspois representam uma tomada de consciência do sujeito de sua própria existência, e isto é de suma importância.[14]
Quando se fala de individualismo deve-se levar em conta o queMounier (1964, p.61) diz “o individualismo é um sistema de costumes, de sentimentos, de ideias e de instituições que organiza o indivíduo partindo de atitudes de isolamento e de defesa” tendo em vista que o personalismo preza pelo ser humano em comunidade o individualismo é prejudicial para a sociedade e para o homem.
O combate ao individualismo nota-se nas devidas palavras de Mounier (1964, p.61-62):
Foi a ideologia e a estrutura dominante da sociedade burguesa ocidental entre o século XVIII e o século XIX. Homem abstrato, sem vínculos nem comunidades naturais, deus supremo no centro de uma liberdade sem direção nem medida, sempre pronto para olhar os outros com desconfiança, cálculo ou reivindicações; instituições reduzidas a assegurar a instalação de todo estes egoísmos, ou o seu melhor rendimento pelas associações viradas para o lucro; eis a forma de civilização que vemos agonizar, sem dúvida uma das mais pobres da história jamais conhecida. É a própria antítese do personalismo e o mais direto adversário.[15]

A postura individualista jamais pode ser aceita dentro de uma visão antropológica personalista, pois o personalismo apregoa a pessoa que está inserida em uma existência constitutivamente comunitária e que possui vínculos pessoais. Não se pode aceitar pessoas que só possuam vínculos abstratos. Em nossos dias pode-se fazer uma analogia às pessoas que só possuem vínculos em redes sociais e que, na existência encarnada, não interagem com as demais pessoas, em situações como o olho no olho e, isto é incompatível com o pensamento de Mounier.
O personalismo é tido também como um nãoao idealismo, pois o mesmo:
1º - Reduz a matéria (e o corpo) a aparência do espírito humano, nele se inserindo através duma atividade puramente ideal; 2º - Dissolve o sujeito pessoal num amontoado de relações geométricas ou inteligíveis, donde a sua presença é expulsa, ou redu-lo a um simples posto receptor de resultados objetivos.[16]

Esta posição do idealismo jamais pode ser tido como verdadeira dentro do pensamento personalista, pois não se pode retirar a pessoa de sua materialidade. A pessoa é pessoa até nas formas mais elementares do seu dia a dia, como um simples bocejar, um piscar de olhos, em tudo isto ela se afirmacomo pessoa e não se pode reduzir apenas a espírito humano, a uma ideia.
Quando fala-se de idealismo, o personalismo remete a G. W. F. Hegel, pois este é tido sobretudo como arquiteto imponente e monstruoso do imperialismo da ideia impessoal. Todas as coisas, todos os seres, se vão dissolvendo na sua representação[17] e isto é notável, percebível dentro de uma posição antropológica hegeliana, onde se tem a diluição do homem em uma ideia, a submissão do indivíduo ao Estado e não o contrário.
O pensamento de Hegel desembocou em uma outra ideologia presente nos países europeus chamada de fascismo. Esta atitude fascista é perigosa, pois é um “antipersonalismo”[18] porque faz com que o indivíduo fique submetido ao jugo do Estado.
Nota-se isso quando Benedito Mussolini proclama que tudo está no Estado e nada de humano existe, a fortiori tem valor fora do Estado. O Estado é a verdadeira realidade do indivíduo.[19] Faz-se necessário dizer que o Estado só atinge seu pleno significado com a personalização daqueles que o faz. Com o fascismo, como em todos os outros regimes totalitários, os direitos, a liberdade de pessoa e de expressão não são garantidos, pois está sujeito ao jugo do Estado. A consequência disto é que os indivíduos são forçados a uma coletividade e isso vai contra a essência do homem, pois no que ele tem de essencial, não pertence à coletividade pública.[20]
Pode-se acontecer que ao combater o idealismo e o fascismo que é um desembocar do hegelianismo como todos os outros regimes totalitários alguns chegam a pensar que o personalismo seja uma espécie de marxismo. Isto não é verdade, pois o marxismo também foi questionado pela filosofia personalista como percebe-se nas palavras:
Na sequência de Hegel, Marx concebe o homem como o produto de uma dialética, de uma fecundação recíproca e progressiva entre a ideia e a natureza. [...]É da natureza, e especialmente da natureza organizada pelo homem na economia, que ele faz derivar, com efeito, as ideologias, que, mergulhando de novo na natureza (matéria e indústria), se enriquecem e o enriquecem ao mesmo tempo promovendo uma nova etapa do progresso humano. Todo o drama se passa entre generalidades de que o homem pessoal é apenas o testemunho e o instrumento.[21]

O marxismo faz sua parte ao falar para a sociedade que a missão do homem é elevar a dignidade das coisas humanizando a natureza[22] algo que se daria através do trabalho. Mas o grande problema do pensamento marxista é que ele acaba concebendo o homem como matéria e indústria, tornando-o assim em apenas instrumento no meio de produção.
Outro ponto também é que deslumbrado pelo problema econômico, o marxismo rejeita o espiritual para as nuvens, não reconhecendo outra influência sobre a história do homem que não a das forças produtivas e dos poderes coletivos[23] e rejeitar e espiritual dentro de uma antropologia que visa a pessoa em sua integralidade não é admitido.
Ao mostrar os pontos de não concordância do marxismo com o personalismo alguns podem pensar que a solução estaria no capitalismo, mas não é isso que Mounier (1967, p.55) nos diz:
[...] não se combate um erro com a desordem que o engendra. Esses – e conhecemo-los – que aderem a esse bloco por móbeis sinceramente espirituais, amiúde dissimulam assim, sem que eles próprios tomem consciência disso, medos, egoísmos, reflexos de classe que os ligam, sem que o saibam, à desordem estabelecida.

O capitalismo ao apontar os defeitos do marxismo acaba não se lembrando que dentro de seu próprio sistema, de uma maneira diferente existe uma debilitaçãoda dignidade humana.
Existe um outro pensamento presente no tempo de Mounierque é o existencialismo e aqui vale lembrar da figura de Jean Paul Sartre – existiram outros pensadores existencialistas - que buscava encerrar o homem no seguinte ponto realizar e, realizando, realizarmo-nos, nada mais sendo do que aquilo que realizamos.[24] Não se pode reduzir o homem àquilo que ele realiza, pois o homem não é só o que faz e também não basta a si mesmo, pois existem coisas que não dependem somente dele.
Mounier1964 em seu pensamento,busca um homem livre, que é aquele que o mundo o interroga e ele responde, este ser que responde já se encontra livre de suas amarras e é responsável. A liberdade não pode ser aquilo que isola ou que condena como diz Sartre, mas se realiza quando une, quando é tudo o que a pessoa é, e é mais plenamente na sua totalidade de pessoa do que por necessidade ou por aquilo que faz.
Da mesma maneira o personalismo não coloca sua confiança no espiritualismo e no moralismo, pois os mesmos caem em uma certa extremidade quando desprezam o jugo do biológico e do econômico. E isto não pode ser levando em conta nas entranhas do personalismo.
O personalismo ao falar das várias ideologias de seu tempo e de apontar seus pontos fracos jamais buscou fazer de seu pensamento uma síntese destas teorias. Seu precursor Emmanuel Mounier buscou junto com seus colaboradores dar uma resposta que abarcasse o homem em sua totalidade e não ficar somente em partes ou extremidades.

Considerações finais

Como vimos acima, o pensamento antropológico personalista foi uma tentativa de compreender e responder a situação que o homem se encontrava no contexto da Europa pós-guerra e pós crise de 1929. O personalismo nas palavras de Mounier buscou dar uma resposta a tal situação do homem europeu e propôs uma filosofia que o abarcasse em sua totalidade.
Para atingir este seu objetivo o personalismo se deparou com as ideologias presentes em seu contexto histórico e a elas dirigiu sua palavra, geralmente apontando suas fraquezas. Pode ser que ao apontar os pontos fracos dos outros o personalismo não tenha deixado claro como se faria para atingir o homem em sua totalidade antropológica, mas pelo menos buscou dar uma resposta ao seu tempo.
O pensamento personalista no mínimo deixa vislumbrado aqueles que a ele se detêm um pouco em seus estudos, um belo exemplo é o polonês KarolWojtyla onde nota-se a influência do personalismo no seu próprio conceito de pessoa, e neste mesmo percebe-se também a presença do tomismo, o mesmo que também influenciou Emmanuel Mounier na França dos anos de 1930.


REFERÊNCIAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução da 1ª edição brasileira coordenada e revista por Alfredo Bossi; revisão da tradução e tradução dos novos textos Ivone Castilho Benedetti. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
AULETE, Caldas. Mini Dicionário Contemporâneo de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.
CASSIRER, Ernst. Antropologia Filosófica. 2. ed. Mestre Jou, 1977.
MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 2. ed. Lisboa: Livraria Morais, 1964.
________. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Morais,
1967.
MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. Trad. Frei Marcelo L. Simões O.P. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
REALI, Giovanni. História da Filosofia. De Nietzsche à Escola de Frankfurt. São Paulo: Paulus, 2006, p.398-406.
VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia Filosófica. 12. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.





[1] Artigo apresentado à disciplina de Antropologia Filosófica ministrada pelo Prof. MsC Victor Hugo de Oliveira Marques como avaliação parcial no decurso do 5º semestre de Filosofia da Universidade Católica Dom Bosco.
[2] AULETE, Mini Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, 2004, p.613
[3] MOUNIER, O Personalismo, 1964, p.15
[4]Idem
[5] REALE, História da Filosofia. De Nietzche à Escola de Frankfurt, 2006, p.400
[6]MOUNIER, apud REALE, 2006, p.400
[7]REALE, 2006, p.403
[8]Ibidem, p.399
[9] Ibidem, p.401
[10] VAZ, Antropologia Filosófica, 2014, p.151
[11] REALE, 2006, p.399
[12] CASSIRER,Antropologia Filosófica, 1977, p.31
[13]Deste termo segundo (ABBAGNANO, 2007, p.148) diz-se: “abrevia-se nessa palavra a expressão cartesiana cogito ergosunf(Discours, IV, Méd, II, 6), que exprime a auto evidência existencial do sujeito, isto é, a certeza de que o sujeito pensante tem da sua existência enquanto tal [...].”
[14] MOUNIER, 1964, p.27
[15] MOUNIER, 1964, p.61-62
[16] Ibidem, p.50
[17] Ibidem, p.28
[18] MOUNIER,Manifesto ao serviço do personalismo, 1967, p.48
[19] MOIX, O pensamento de Emmanuel Mounier, 1968, p.231
[20]Ibidem, p.230
[21] MOUNIER, 1967, p.58-59
[22] MOUNIER, 1964, p.53
[23] MOIX, 1968, p.232
[24] MOUNIER, 1964, p.126

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