terça-feira, fevereiro 2

RETROSPECTIVA E O CINISMO: ALGUMA SEMELHANÇA?


Avaliar um ano que termina não é uma tarefa muito fácil. Pois toda avaliação precisa, como vai dizer a velha filosofia kantiana, de critérios para serem emitidas as críticas. Critérios são como "lugares" aos quais deve se posicionar todo aquele que pretende emitir um juízo. Assim para avaliar um ano são necessários, em primeiro lugar, definir os terrenos a partir dos quais está se partindo.

Em segundo lugar, em toda avaliação é necessário ainda ter um "parâmetro", ou seja, ter alguma coisa que servirá de modelo ou de ponto de visada. Como posso dizer se algo melhorou ou piorou se não me baseio em nada? Como diria Platão, para saber se algo pode ser julgado como mais bonito não posso assim proceder se não tiver olhando diretamente para a própria "buniteza". Em outros termos, sem saber o que é o belo, não posso julgar alguém de feio.

Com esses dois instrumentos mínimos dá para se falar alguma coisa. Digo "alguma coisa", pois sabemos que todo discurso sobre o real é sempre e nada mais que um "discurso sobre o real". Assim também é essa minha fala sobre o ano 2015: um discurso sobre algo muito mais amplo e complexo.

Não obstante a essas premissas, todo final de ano vemos as famosas "Retrospectivas" feitas pelas emissoras de TV. Tais tentativas de resgatar o ano que finda desconsideram totalmente as cautelas que se devem ter quando se pretende analizar uma coisa tão complexa como um ano que se passou.  Elas não seguem nenhum critério sério, nem muito explicitam de onde estão partindo para fazer seus balanços. o que ocorre na verdade é que elas não fazem o papel de uma "retrospectiva", mas buscam mais que isso: procuram fazer uma "síntese".

Ora, Retrospectiva é um procedimento de re-apresentar eventos que se sucederam durante um período com a finalidade de "resgate" ou "memória". Isso significa que quem quer "re-ver", só quer rever e não tirar conclusões do revisto. É lógico que conclusões podem ser tiradas desde o revisto, mas estas cabem a cada um. 

O que as TVs chamam de Retrospectiva, em suma, são verdadeiras sínteses do ano que está findando. Em outras palavras, eles dizem que vão fazer um "resgate", mas oferecem o seu modo de ler o ano e o apresenta em forma de uma conclusão pronta para que o telespectador nem tenha o trabalho de refletir sobre o que deve melhorar na sua vida. A Retrospectiva é, portanto, a cartada final da mídia no final do ano e garantia de uma continuidade de sua ação manipuladora para o ano que virá.

Tomemos por exemplo a Retrospectiva da Globo transmitida ontem (30/12/15). A ênfase de todo o resgate feito por essa emissora foi a dita "crise política e econômica do país". Foi como se a mensagem que a Globo nos queria passar para a virada do ano fosse: "tiremos a Dilma que teremos um feliz 2016". Ora, um ano tem 12 meses, 52 semanas, 365 dias, 8760 horas, 525600 minutos e 3,154e+7 segundos, será que nosso ano pode ser assim mesmo resumido? Sabemos que desde a segunda vitória da presidenta nas urnas, os movimentos (pró e contra) não pararam. Isso é fato. Contudo, os últimos episódios da caminhada política do pais não pode ser tomado como a síntese de todo ano.

A Globo quis usar a estratégia do futebol: o time pode não ter jogado nada, mas se aos 45 do segundo tempo ele fizer o gol, a vitória é dele. Porém, a Globo esquece que um ano não é como um mata-mata, quem faz o último gol ganha. Um ano é como a Libertadores, um resultado depende de outros resultados. Ou como o Brasileirão, o campeão não é aquele que ganha o último jogo, mas aquele que acumula pontos. A Globo se aproveitou da situação atual da política brasileira para dizer que o Governo Dilma foi 365 dias ruins. Quase que podiamos ver estampado nessa retropectiva: "Feliz Impeachment" ao invés de "Feliz 2016".

Embora o tamanho desse texto não era para ser algo longo, mas não posso deixar de salientar duas outras situações comprometedoras da "Sintese de 2015" da TV Globo. Todas as críticas que envolviam o PT a Globo era enfática: "o tesoureiro do PT". Já as críticas que envolviam o PMDB ou PSDB, a Globo não informava. Exemplo disso foi quando ela recordou o movimento dos estudantes em São Paulo contra as mudanças nas escolas públicas, ela simplesmente terminou dizendo: "o governador voltou atrás" (!!!!) E quem é o governador de São Paulo????? Ou será que a Globo esqueceu que o governo de São Paulo está na mãos do Sr. Geraldo Alckmin que é do PSDB???? Falando do Alckmin, a Seca do Cantareira provocada por esse sujeito foi tão podre que a Globo fez questão de secar essa notícia.

Para terminar, a hipocrisia da Globo chegou ao cúmulo de chamar o "Crime Ambiental" cometido pela Samarco de "Desastre Ambiental", sem ao menos mencionar seus responsáveis. Ao contrário da Petrobrás que foi a todo momento citada. Poderíamos falar de muito mais... Contudo, teríamos de reescrever tanta coisa que passaríamos o ano de 2016 inteiro mostrando o cinismo da Globo com sua "Retrospectiva".

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